Quando se fala em Brasil no exterior, os destaques costumam girar em torno da cultura vibrante, da natureza exuberante e do futebol. No entanto, um novo elemento tem captado a atenção de estrangeiros em visita ou moradia temporária no país: o Sistema Único de Saúde (SUS).
De forma quase inesperada, o SUS tem sido elogiado por quem vem de fora. A gratuidade dos atendimentos, a universalidade do acesso e a qualidade de certos serviços públicos de saúde têm causado espanto positivo, gerando vídeos virais e depoimentos emocionados.
E, nesse processo, muitos brasileiros estão redescobrindo o valor de um sistema que, apesar de seus problemas crônicos, é motivo de orgulho nacional.
A cena que viralizou
Terrence McCoy, correspondente do jornal norte-americano The Washington Post, viralizou recentemente ao contar sua experiência em Paraty (RJ). Após um pequeno acidente doméstico envolvendo o porta-malas do carro, foi prontamente atendido numa unidade do SUS, e sem pagar um centavo.
O relato impressionou internautas brasileiros, mas principalmente estrangeiros, acostumados a sistemas de saúde que cobram, e muito, por serviços básicos.
Comparações que fazem pensar
Na Nigéria, segundo Temitope, até hospitais públicos são pagos, o equivalente a uma clínica privada no Brasil. Isso torna a universalidade do SUS ainda mais impressionante aos olhos de quem vem de contextos desiguais.
O mesmo vale para Nick Whincup, britânico morador do Brasil, que viveu na terra onde surgiu o NHS (Serviço Nacional de Saúde), o sistema que inspirou o SUS.
Nick foi mordido por um cachorro de rua no Rio e, mesmo em um momento de urgência, foi rapidamente vacinado em uma UBS. Sem burocracia, sem pagamento, com simpatia e orientação.
Como ele mesmo afirmou: “Em menos de 10 minutos, fui atendido. E em inglês!”. Seu espanto era visível no vídeo que gravou, e o elogio foi tão impactante que gerou um agradecimento oficial do Ministério da Saúde e da Secretaria de Saúde do Rio.
Um sistema para todos, sem exceções
Uma das bases do SUS é a universalidade: qualquer pessoa em solo brasileiro, nacional ou estrangeira, com ou sem documentos, tem direito a atendimento. Os números do Ministério da Saúde impressionam.
Entre 2022 e 2025, mais de 520 mil estrangeiros passaram pelos cuidados primários do SUS. Em atendimentos especializados, o número ultrapassa 3 milhões. O governo brasileiro gastou quase meio bilhão de reais em atendimentos a estrangeiros nos últimos três anos.
Esses dados demonstram não apenas a dimensão do sistema, mas também sua vocação humanitária. Num mundo cada vez mais fechado e hostil a migrantes e visitantes, o Brasil mantém aberta uma das portas mais essenciais: a da saúde.
Gratuito não significa perfeito
Se os elogios abundam, não significa que o SUS seja isento de críticas. Muito pelo contrário. Entre os brasileiros, especialmente os da classe C, a insatisfação com o tempo de espera é frequente.
Consultas com especialistas, realização de exames e cirurgias costumam ser os pontos mais críticos. Uma pesquisa realizada em 2024 pelo Instituto Locomotiva revelou que 94% dos entrevistados desejam a redução do tempo de espera como prioridade absoluta para o SUS.
Mesmo os estrangeiros reconhecem os gargalos. Whincup compara o SUS com o NHS britânico e nota que ambos enfrentam desafios parecidos. No Reino Unido, pacientes com câncer podem esperar até seis meses por uma consulta, um prazo que, para muitos casos, pode ser fatal.
A diferença, segundo ele, está na forma como os sistemas são percebidos pelos cidadãos, no Brasil, a crítica muitas vezes ignora o que o mundo vê como uma raridade.
A percepção de quem nunca teve acesso
O depoimento de Temitope é talvez o mais simbólico. Ela diz se chocar ao ver brasileiros criticando o SUS, não porque ele seja perfeito, mas porque em seu país natal sequer existe a possibilidade de atendimento público gratuito. Em suas palavras:
“Vejo pessoas se irritando, brigando com enfermeiras, mas prefiro ficar calada, porque acho incrível ter um hospital para ir.”
O SUS como patrimônio do povo brasileiro
O olhar estrangeiro, livre de vícios internos e polarizações políticas, lança luz sobre uma verdade que muitos brasileiros esquecem: o SUS é uma das maiores conquistas sociais do país.
Ele não apenas salva vidas, mas também revela a potência de um projeto de saúde coletivo, inclusivo e democrático. Ainda que haja filas, atrasos e falta de estrutura em muitas regiões, a existência do SUS continua sendo motivo de orgulho.
Talvez, ao ver estrangeiros se emocionando por serem vacinados gratuitamente, atendidos com humanidade e respeitados mesmo sem documentos, os brasileiros possam se lembrar de que, apesar de tudo, o SUS é um dos grandes tesouros nacionais. Um que merece ser valorizado, fortalecido e, acima de tudo, protegido.






