A interrupção antecipada da cota de importação de reagentes e equipamentos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 2025, antes do segundo semestre, evidencia um problema que vai além da falta de planejamento orçamentário. O episódio revela um desalinhamento estrutural entre política científica e econômica frente às demandas de uma economia baseada em inovação.
O órgão destinou US$ 200 milhões, insuficientes para abastecer seis meses de insumos essenciais a universidades e centros de pesquisa, comprometendo experimentos, produção de conhecimento e o desenvolvimento tecnológico nacional.
Ciência brasileira em risco
Sem acesso a insumos essenciais, o funcionamento de diversas universidades e centros de pesquisa brasileiros enfrenta paralisação ou funcionamento comprometido, afetando diretamente a produção científica e a capacidade de inovação tecnológica do país.
Dados do comércio exterior indicam que o Brasil mantém um grau de abertura comercial de aproximadamente 29% do PIB, significativamente abaixo de economias mais integradas, o que limita a importação de tecnologia e restringe o intercâmbio científico e industrial. Esse cenário contribui para o crescimento modesto da produtividade e do PIB per capita, dificultando a transformação de ciência e tecnologia em motores de desenvolvimento econômico.
No plano institucional, observa-se um descompasso entre políticas macroeconômicas e políticas de ciência, tecnologia e inovação. Enquanto o Estado atua para controlar a inflação e estimular o consumo, a pesquisa científica permanece majoritariamente classificada como custo, e não como investimento estratégico.
Consequências e como superar
A conjunção de fatores compromete o fortalecimento de uma política científica consistente. A interrupção da cota do CNPq ilustra de forma simbólica esse cenário: não se trata apenas da falta de financiamento, mas da ausência de coordenação efetiva entre Estado, centros de pesquisa e empresas para transformar conhecimento em valor econômico.
Superar esse impasse exige mais do que simples aumento de orçamento. É necessária uma modernização institucional que permita maior fluidez na importação de insumos e tecnologias estratégicas, a aproximação entre laboratórios e indústrias, e a definição de uma estratégia de inovação de longo prazo para a ciência brasileira.






