Depois de meses de prateleiras vazias e incertezas na cadeia de suprimentos, os supermercados brasileiros começaram a respirar em setembro.
Segundo o Índice de Ruptura da Neogrid, que mede a falta de produtos nas gôndolas, o percentual de itens indisponíveis caiu de 13,1% em agosto para 11,9%. Essa redução de 1,2 ponto percentual representa uma melhora significativa na recomposição dos estoques e no fluxo logístico de alimentos básicos.
O alívio veio especialmente em categorias essenciais como arroz, feijão, ovos, café e azeite, que voltaram a aparecer com mais frequência nas prateleiras.
Essa recomposição indica que a indústria e o varejo conseguiram, ao menos temporariamente, estabilizar a distribuição de produtos que compõem o coração da cesta do consumidor brasileiro.
A exceção que preocupa
Se por um lado os alimentos básicos voltaram, por outro, um item querido pelo brasileiro começou a desaparecer. A cerveja foi o único produto que registrou aumento na falta de estoque, passando de 12,1% para 12,8% de indisponibilidade.
Esse aumento, embora pareça pequeno, sinaliza uma pressão estrutural no setor de bebidas, agravada por três fatores principais: queda na produção, aumento de custos e mudança no comportamento do consumidor.
De acordo com dados do IBGE, a produção de bebidas alcoólicas caiu cerca de 11% em agosto, o que afetou diretamente o fornecimento às redes varejistas.
Além disso, a crise do metanol, substância tóxica encontrada em bebidas destiladas ilegais, provocou uma migração de consumidores para a cerveja, elevando a demanda de forma repentina e desordenada.
Preços em alta e margens comprimidas
Mesmo com a melhora na disponibilidade de produtos, o bolso do consumidor segue pressionado. A inflação e os custos de transporte e produção continuam impactando os preços, e o estudo mostra que, em quase todas as categorias, houve aumentos consideráveis.
No caso da cerveja, o preço médio subiu em todos os tipos:
- Cerveja artesanal: De R$ 19,93 para R$ 21,63
- Cerveja escura: De R$ 14,78 para R$ 15,84
- Cerveja clara: De R$ 13,56 para R$ 14,68
- Cerveja sem álcool: De R$ 15,51 para R$ 16,29
A tendência é que as cervejarias ainda enfrentem dificuldades até o final do ano, com estoques limitados e custos elevados de insumos, como cevada e alumínio, que encarecem a produção das latas e garrafas.
A volta dos produtos básicos
Enquanto a cerveja some, os alimentos essenciais voltam a ocupar espaço nas gôndolas. O movimento indica que as cadeias agrícolas e industriais desses itens estão conseguindo lidar melhor com os gargalos logísticos e com as variações de demanda. Os destaques do mês foram:
- Ovos: De 23,0% para 20,4% de ruptura (queda de 2,6 p.p.)
- Feijão: De 8,4% para 6,4% (−2,0 p.p.)
- Arroz: De 8,9% para 7,1% (−1,8 p.p.)
- Café: De 9,6% para 7,9% (−1,7 p.p.)
- Azeite: De 9,7% para 8,7% (−1,0 p.p.)
Esses números mostram uma melhora consistente, embora os preços ainda estejam em trajetória ascendente.
Café e azeite
O café, um dos produtos mais simbólicos da mesa brasileira, apresentou queda na falta de estoque, mas continua sofrendo com a alta dos custos agrícolas e climáticos.
- Café em pó: De R$ 80,52 para R$ 85,92
- Café em grãos: De R$ 135,92 para R$ 140,37
Analistas preveem que o café ainda deve ter reajustes entre 10% e 15%, impulsionados pela valorização internacional do grão na Bolsa de Nova York e pela alta das tarifas impostas pelos Estados Unidos.
O azeite, por sua vez, voltou a aparecer nas prateleiras após meses de escassez causada pela quebra de safra de azeitonas na Europa, mas com preços que seguem em escalada:
- Extravirgem: De R$ 90,60 para R$ 96,65
- Virgem: De R$ 75,79 para R$ 78,11
Mesmo com a recomposição do estoque, o azeite continua sendo um produto de luxo em muitas mesas brasileiras, refletindo a crise global de produção.
Arroz, feijão e ovos
Esses três pilares da alimentação básica apresentaram melhor disponibilidade e aumento moderado nos preços, o que indica um equilíbrio entre oferta e demanda.
- Arroz branco: De R$ 5,37 para R$ 5,63
- Arroz parboilizado: De R$ 4,92 para R$ 5,19
- Feijão carioca: De R$ 6,71 para R$ 6,92
- Caixa com 12 ovos: De R$ 12,12 para R$ 12,22
Embora os valores sigam subindo, a estabilidade no abastecimento ajuda a evitar picos inflacionários nos alimentos essenciais.
Se a tendência de estabilização se mantiver, o final do ano pode trazer prateleiras mais cheias, especialmente para alimentos básicos. Porém, o setor de bebidas, especialmente a cerveja, deve continuar enfrentando turbulências até o início de 2026.






