O que começou como uma consulta infantil de rotina terminou como uma das maiores tragédias médicas recentes do Amazonas. Benício Xavier de Freitas, de seis anos, chegou ao Hospital Santa Júlia acompanhado dos pais por volta das 13h30, com tosse seca e febre, sintomas compatíveis com laringite.
As imagens de segurança mostram a criança tranquila, ora no colo do pai, ora conversando com a mãe, enquanto aguardava o atendimento médico.
A médica responsável, Juliana Brasil Santos, fez a prescrição que determinaria o rumo do caso. Documentos mostram que ela registrou adrenalina por via endovenosa, quando o correto seria uma dose menor e por inalação.
A profissional assumiu o erro inicialmente, tanto em prontuário quanto em mensagens de WhatsApp, mas depois afirmou que houve um “bug” no sistema do hospital que teria alterado automaticamente a via de administração.
A medicação aplicada e a rápida piora
Na enfermaria, a técnica de enfermagem seguiu a prescrição impressa, mesmo após a mãe de Benício questionar o procedimento, lembrando que o filho só havia recebido adrenalina por inalação anteriormente.
Em poucos segundos após a aplicação da dose intravenosa, que totalizava 9 mg, o estado clínico do menino começou a se deteriorar de forma agressiva. As câmeras de segurança registram a entrada apressada dos pais e de diversos profissionais na tentativa de reanimá-lo.
As tentativas de reanimação e o desfecho trágico
A criança sofreu uma sequência de seis paradas cardiorrespiratórias. Os profissionais tentaram reverter o quadro por horas, mas Benício não resistiu. Às 02h55 do dia 23 de novembro, o óbito foi oficialmente declarado.
A dor dos pais, a confusão no hospital e as dúvidas sobre o que realmente havia acontecido ganharam destaque nacional imediatamente.
A defesa da médica apresentou ao Tribunal de Justiça do Amazonas um vídeo que supostamente demonstraria falha no sistema de prescrição do hospital, trocando sozinho a via de administração do medicamento.
Com base nesse material, o tribunal concedeu habeas corpus à médica, entendendo que ela não teria cometido erro voluntário na prescrição da adrenalina.
A contestação da Polícia Civil e as dúvidas sobre o vídeo
O delegado Marcelo Martins, responsável pela investigação, afirmou que as primeiras análises feitas no próprio sistema do hospital não sustentam a alegação de falha técnica.
Segundo ele, o vídeo apresentado pela médica contém inconsistências e pode não refletir o funcionamento real do software usado no Hospital Santa Júlia. Uma perícia foi solicitada para verificar a autenticidade das imagens e determinar se o tribunal foi induzido a erro.
As falhas apontadas no atendimento e na infraestrutura
Depoimentos revelam que falhas não ocorreram apenas na prescrição. Houve falta de conferência na checagem da dose, falta de comunicação entre médica e equipe de enfermagem e relatos de problemas de estrutura na UTI, como ausência de equipamentos essenciais e demora na mobilização da equipe.
Esses fatores podem ter comprometido ainda mais a tentativa de salvar Benício.
O caso ganhou enorme repercussão no país e reacendeu discussões sobre protocolos de segurança em hospitais, dupla checagem de prescrições infantis, responsabilidades compartilhadas e limites entre erro humano e negligência.
Profissionais da saúde defendem que o episódio revela uma cadeia de falhas, e não um único equívoco isolado.
O que ainda falta ser esclarecido
A perícia no sistema de prescrição é aguardada como peça central do inquérito. Ela deverá confirmar se o vídeo entregue ao Tribunal de Justiça é verdadeiro, se houve manipulação, qual foi a prescrição original e em que momento ocorreu o erro determinante.
Só então serão definidos possíveis responsáveis criminais, éticos e administrativos pela morte de Benício.





