A recente decisão da Anvisa abriu um novo capítulo no uso do Mounjaro (tirzepatida) no país. Com a ampliação da indicação do medicamento para o tratamento da apneia obstrutiva do sono em pessoas obesas, cirurgiões-dentistas agora têm autorização para prescrever o fármaco, algo inimaginável alguns anos atrás.
Essa alteração não só redefine o papel da Odontologia no cuidado de distúrbios respiratórios do sono, como também impacta diretamente milhares de brasileiros que dependem do tratamento.
Por que dentistas ganharam poder de prescrição?
A mudança não veio por acaso. Distúrbios respiratórios do sono, como ronco e apneia, fazem parte do campo de atuação de dentistas especializados, principalmente aqueles que trabalham com dispositivos intraorais, diagnóstico e terapias do sono.
A indústria farmacêutica solicitou a revisão e, após análise técnica, a Anvisa aprovou a atualização em outubro de 2025.
A legislação também já preparava o terreno. A Lei nº 5.081/66 garante ao cirurgião-dentista o direito de prescrever medicamentos relacionados à prática odontológica.
No entanto, faltava algo essencial, uma indicação aprovada oficialmente que conectasse a tirzepatida ao universo da Odontologia. Com a inclusão da apneia obstrutiva do sono, essa lacuna finalmente foi preenchida.
Como essa autorização muda a vida dos pacientes
Para muitos brasileiros, o impacto é imediato. Antes, apenas médicos podiam prescrever o Mounjaro, o que tornava o processo mais lento, especialmente em regiões com pouca oferta de especialistas.
Agora, pacientes acompanhados por dentistas capacitados podem receber a receita no próprio consultório, evitando filas, intermediários e longos intervalos entre consultas.
Essa mudança também facilita o acesso ao tratamento da apneia, uma condição grave que pode desencadear hipertensão, arritmias, infartos e danos cognitivos. Com mais profissionais habilitados a intervir, o diagnóstico tende a ser mais rápido e a adesão ao tratamento, maior.
CFO reforça
O Conselho Federal de Odontologia fez questão de alertar, a liberação não é um convite para prescrever sem critério. Pelo contrário, exige uma postura ainda mais cuidadosa.
O uso da tirzepatida deve considerar fatores como:
- A necessidade de acompanhamento multidisciplinar, já que pacientes obesos frequentemente convivem com múltiplas comorbidades;
- Possíveis interações medicamentosas com tratamentos já em andamento;
- Efeitos colaterais, especialmente os gastrointestinais, que podem impactar até mesmo a saúde bucal;
- O limite ético e legal da Odontologia, que exige diagnóstico preciso de apneia antes da prescrição.
O órgão reforça que o dentista não substitui o médico, mas passa a atuar como parte de uma rede de cuidados integrados, especialmente em parceria com especialistas do sono e endocrinologistas.
O que representa essa nova etapa para a Odontologia
Segundo a conselheira federal Bianca Zambiasi, “com grandes conquistas vêm grandes responsabilidades”. O Mounjaro, conhecido amplamente por auxiliar no controle de diabetes e no emagrecimento, entra agora no universo odontológico com uma função específica: atuar na apneia obstrutiva associada à obesidade.
Para o setor, isso representa reconhecimento científico e ampliação do escopo de atuação. Para os pacientes, mais acesso, mais agilidade e mais profissionais envolvidos no combate a um distúrbio que afeta milhões de brasileiros.





