Num país onde milhões de aposentados vivem com o mínimo necessário, a promessa de uma simples cesta básica pode parecer um gesto de empatia, mas no caso da quadrilha chefiada por Caio Cesar Solano, foi uma armadilha bem articulada.
Disfarçada de caridade, a estratégia criminosa se revelou um esquema de estelionato financeiro em larga escala, com requintes de sofisticação e frieza.
A tática era simples, um telefonema inesperado. Do outro lado da linha, uma voz gentil se identificava como integrante de uma ONG, dizendo que o idoso havia sido sorteado para receber uma cesta básica. A promessa de ajuda social dava início a um jogo de manipulação emocional e confiança.
Dias depois, um casal chegava com a suposta entrega. Simpáticos, ganhavam a confiança dos idosos, tiravam fotos e anotavam informações pessoais como CPF, RG, data de nascimento e endereço. A cesta era real. Mas era só o disfarce de uma operação bem mais complexa, e danosa.
Da cesta básica à bolsa de valores
Com os dados em mãos, a quadrilha abria contas bancárias e solicitava empréstimos consignados em nome das vítimas, sem seu consentimento. O dinheiro, liberado rapidamente pelos bancos, era então desviado para contas de intermediários, que o repassavam a Caio Solano.
O “trader espetacular da B3”, como se apresentava nas redes sociais, utilizava o dinheiro para movimentar sua própria carteira de ações, e financiar seu estilo de vida luxuoso.
Luxo à custa de quem precisa
Enquanto os idosos passavam a receber 30% a menos de seus benefícios do INSS, sem entender por quê, Caio ostentava passeios de lancha, helicóptero e a abertura de franquias em bairros do Rio.
As redes sociais eram palco da ostentação financiada por fraude: refeições caras, brindes ao pôr do sol e investimentos com dinheiro sujo, camuflado em operações na Bolsa.
A investigação conduzida pela 26ª DP (Todos os Santos) revelou que mais da metade da movimentação financeira de Caio vinha de contas fraudulentas ou dos empréstimos obtidos através das vítimas. As ações na bolsa, embora legalizadas, serviam para ocultar a origem ilícita dos valores, configurando lavagem de dinheiro.
Vítimas
A polícia já identificou pelo menos 12 vítimas com o mesmo modus operandi, mas o número pode ser muito maior. Em muitos casos, os aposentados sequer sabem que foram alvo de um golpe, descobrem apenas quando tentam fazer novos empréstimos ou consultam o extrato bancário e notam a redução nos valores recebidos.
Chamado a depor duas vezes, Caio Solano não compareceu. Quando a investigação se tornou pública, bloqueou suas redes sociais e se manteve em silêncio.
Mesmo com evidências documentais e bancárias que o ligam diretamente ao golpe, responde em liberdade, situação que levanta questionamentos sobre a eficácia do sistema judicial em lidar com crimes de colarinho branco.






