Na última semana, o governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, anunciou a abertura de uma investigação contra o Brasil por supostas práticas comerciais desleais. Entre os pontos em análise está o incentivo estatal ao uso do Pix, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.
A ofensiva ocorre em meio a um cenário de crescente tensão entre os dois países, acentuada pela decisão do governo Trump de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, com vigência a partir de 1º de agosto.
Embora o inquérito pareça recente, documentos do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) mostram que o Pix está sob observação oficial há pelo menos três anos, desde 2022.
Agência dos Estados Unidos monitora Pix desde 2022
O relatório anual do USTR, que analisa barreiras comerciais em dezenas de países, incluiu em sua edição de 2022 uma menção inédita ao sistema de pagamentos do Brasil. O documento expressava preocupação com o fato de o Banco Central desempenhar, simultaneamente, os papéis de regulador e operador do Pix.
Segundo a agência norte-americana, essa dupla função poderia comprometer a neutralidade do mercado e criar obstáculos à concorrência, sobretudo para empresas estrangeiras interessadas em atuar no setor financeiro brasileiro.
A partir daquele relatório, os Estados Unidos passaram a registrar regularmente em seus documentos oficiais referências ao funcionamento do sistema financeiro nacional, ainda que o nome Pix não tenha sido repetido.
A investigação anunciada agora aprofunda esse monitoramento anterior, apontando supostos favorecimentos institucionais ao serviço desenvolvido pelo governo brasileiro.
Apesar de o termo “Pix” não aparecer expressamente no texto da nova apuração, o documento destaca “vantagens conferidas a serviços de pagamento eletrônico estatais”, o que, segundo especialistas, se refere claramente à plataforma operada pelo Banco Central.
Ataque dos EUA contra o PIX do Brasil visa atender interesses das empresas norte-americanas
A movimentação norte-americana é interpretada por analistas como mais do que uma questão técnica. Há, segundo observadores, fortes indícios de que interesses comerciais estejam por trás da iniciativa.
O Pix, gratuito e amplamente acessível, tem causado impacto direto sobre modelos de negócios de empresas privadas, como operadoras de cartões de crédito — muitas delas com sede nos EUA — e plataformas digitais de pagamento, como o WhatsApp Pay, ligado à Meta, empresa de Mark Zuckerberg, aliado político de Trump.
Em 2020, a Meta tentou lançar no Brasil a funcionalidade de pagamentos via WhatsApp, mas o projeto foi interrompido pelo Banco Central e pelo Cade, sob alegação de riscos à concorrência e falta de integração ao sistema financeiro nacional.
O episódio gerou desconforto entre setores empresariais norte-americanos e pode ter acendido o alerta em Washington.
Outro fator relevante é o uso crescente do Pix como forma de pagamento internacional, especialmente em países da América do Sul, como Paraguai e Panamá. Em algumas regiões, comerciantes passaram a aceitar transferências diretas via Pix como alternativa ao dólar.
Essa prática, embora ainda restrita, desafia o domínio tradicional da moeda americana em transações regionais e pode estar entre os motivos estratégicos para a pressão dos EUA.
O Pix, desde seu lançamento em 2020, já movimentou trilhões de reais e se consolidou como um dos pilares da inclusão financeira no Brasil. A ofensiva americana sobre o sistema, portanto, toca não apenas questões comerciais, mas também políticas e geoestratégicas.






