A competição entre os gigantes do comércio eletrônico na América Latina atingiu novos patamares.
No segundo trimestre de 2025, o Mercado Livre apresentou um crescimento robusto em receita e volume de vendas, mas esse desempenho veio acompanhado de um sacrifício em sua margem operacional.
A razão? O avanço agressivo da Shopee, especialmente no Brasil, forçando o líder regional a redobrar esforços para defender seu território.
Receita em alta, lucro abaixo do esperado
Com uma receita de US$ 6,8 bilhões no trimestre, acima das expectativas dos analistas, o Mercado Livre mostrou vigor no faturamento. O lucro líquido subiu 14%, alcançando US$ 523 milhões. No entanto, esse número ficou aquém do consenso, que apontava para US$ 612,5 milhões.
O principal motivo da frustração do mercado foi a margem operacional, que caiu de 14,3% no ano anterior para 12,2%, refletindo investimentos pesados em marketing, subsídios para lojistas e mudanças logísticas.
Um dos movimentos mais ousados da empresa foi a redução do valor mínimo para obter frete grátis: de R$ 79 para R$ 19 no Brasil. A decisão teve impacto direto na taxa de conversão e no engajamento dos consumidores.
Segundo Richard Cathcart, diretor de relações com investidores, trata-se de uma ferramenta poderosa para fidelização, e o efeito completo desse ajuste ainda será sentido no terceiro trimestre.
A mudança veio acompanhada de uma campanha publicitária massiva, estrelada por Neymar e Ronaldo Fenômeno, que buscou reforçar a imagem do Mercado Livre como destino preferido de compras online.
A empresa também reduziu o custo do frete para os vendedores, incentivando maior oferta de produtos e atraindo lojistas de diferentes tamanhos para a plataforma.
Investimento publicitário em múltiplas frentes
Além da ofensiva no e-commerce tradicional, o Mercado Livre aumentou sua presença publicitária no segmento financeiro.
O Mercado Pago, braço digital do grupo, lançou uma campanha nacional com a cantora Anitta, o que elevou o reconhecimento da marca como banco digital e impulsionou o maior crescimento de depósitos já registrado no Brasil.
A publicidade se tornou um pilar estratégico tanto para reter usuários quanto para fortalecer o ecossistema do grupo.
Crescimento sólido no Brasil, México e Argentina
O GMV (volume bruto de mercadorias) alcançou US$ 15,3 bilhões no trimestre, um avanço de 21% em dólares e de 37% em moeda constante. No Brasil, que continua sendo o principal mercado, o crescimento foi de 29%, impulsionado diretamente pela nova política de frete grátis.
No México, segundo maior mercado do grupo, o GMV cresceu 32%, com destaque para o aumento de 36% nas unidades vendidas, a maior taxa de crescimento dos últimos dois anos.
Na Argentina, apesar da desaceleração para 75% no GMV (frente aos 126% do trimestre anterior), o desempenho ainda é expressivo. A desaceleração, segundo Cathcart, reflete a queda da inflação local, o que, embora afete os valores nominais, indica uma melhora no ambiente econômico do país.
Mercado Pago dispara e se consolida como banco digital
O braço financeiro da companhia também teve um trimestre histórico. Com 68 milhões de usuários ativos, o Mercado Pago viu sua receita líquida atingir US$ 3 bilhões, registrando alta de 12% em dólares e de 63% em moeda constante.
O crescimento mais impressionante veio da carteira de crédito, que avançou 91% no ano, alcançando US$ 9,3 bilhões.
A expansão dos cartões de crédito, que agora representam 43% da carteira, foi um dos principais motores do crescimento. O volume dos cartões subiu 118%, chegando a US$ 4 bilhões.
Notavelmente, esse avanço aconteceu com melhora na qualidade dos ativos: os atrasos entre 15 e 90 dias caíram de 8% para 6,7%, sinalizando uma evolução nos critérios de concessão.
“Crescimento sustentável”, mesmo com pressão da concorrência
A mensagem de Richard Cathcart é clara: o foco da companhia está em garantir a sustentabilidade e a liderança a longo prazo, mesmo que isso implique em resultados menos favoráveis no curto prazo.
Em suas palavras, “não fazemos a gestão do negócio para atingir uma margem específica de curto prazo”. A visão de longo prazo se reflete nos investimentos massivos em logística, marketing e tecnologia, elementos fundamentais para manter a vantagem competitiva frente à Shopee.
A reação do mercado e os próximos passos
Apesar do crescimento, as ações do Mercado Livre recuaram cerca de 6% após a divulgação dos resultados. A frustração com o lucro abaixo do esperado e a compressão da margem pesaram sobre o sentimento dos investidores.
Ainda assim, a companhia segue como a mais valiosa da América Latina, com valor de mercado superior a US$ 121 bilhões e alta acumulada de 40% no ano.
O desafio que se impõe agora é continuar entregando crescimento em um cenário cada vez mais competitivo e com margens mais apertadas.
O Mercado Livre parece disposto a pagar o preço necessário para defender sua posição de liderança, e aposta que, com uma base sólida e estratégias assertivas, colherá os frutos desse esforço no futuro.





