Disco bom do Suede não é obra de ficção

Por Júlio Black

suede

Oi, gente.

A minha lista de “grandes bandas que poucas pessoas conhecem” tem, entre outros nomes, Tindersticks e Wilco, que por acaso lançou este ano o arrebatador “Cruel country”. Um grupo que integra esse time é o Suede: com mais de 30 anos de estrada e uma trinca de álbuns maravilhosos na década de 1990 (“Suede”, “Dog man star” e “Coming up”), o quinteto capitaneado por Brett Anderson chegou a ficar uma década sem lançar nada até o retorno glorioso em “Bloodsports” (2013), seguido por “Night thoughts” (2016) e “The blue hour” (2018, sobre o qual escrevemos na época). Quatro anos depois, eis que a banda revela ao mundo “Autofiction”, lançado no último dia 16 e que mostra que o Suede não perdeu a mão na hora de fazer grandes canções.

Com produção de Ed Buller, o cara que ajudou a lapidar a sonoridade dos três primeiros álbuns do grupo e de “Bloodsports” e “Night thoughts”, “Autofiction” é bem diferente do trabalho anterior, que era mais sombrio, denso, desesperado e com orquestrações que davam um tom diferente ao que poderíamos esperar dos ingleses. Desta vez, Brett Anderson declarou que queria algo mais cru, brutal, curto, desagradável e punk. Se o disco não é lá tããããããão punk assim, é preciso reconhecer que ele vai direto ao ponto quando o assunto são as guitarras, bem mais presentes e estridentes. Mas os fãs de longa data não precisam se preocupar, porque esse som mais reto casou muito bem com a tradição glam rock do Suede, inclusive nas baladas que marcam a trajetória do grupo.

Para quem estava ainda absorvido por toda a densidade de “The blue hour”, “Autofiction” trata de mostrar que o pau vai quebrar logo nas três primeiras faixas, “She still leads me” (sobre a mãe recentemente falecida do vocalista e primeiro single do álbum), “Personality disorder” e “15 again”, e mais para frente em “Shadow self”. O “Suede mais clássico” aparece em canções como “The only way I can love you”, “That boy on the stage” (talvez a coisa mais glam rock do disco) e “Black ice”. E é claro que entre o melhor que a banda pode fazer estão as tais baladas, e elas são de fazer sangrar o coração em “What am I without you?” e “Drive myself home”.

Quanto às letras, Brett Anderson diz que o título do álbum (“autoficção”, em português, pode ser considerado um gênero literário que mistura memórias e ficção) já entrega parte do que o ouvinte vai encontrar. E o que temos nas 11 faixas e 45 minutos de duração de “Autofiction” são canções extremamente pessoais, de amor, melancólicas, atormentadas, que casam perfeitamente com as guitarras de Richard Oakes.

Maravilhosamente desajustado, o novo álbum do Suede é uma das melhores coisas que a ah miga leitora e o ah migo leitor poderão ouvir em 2022.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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