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O crime de nascer negro

Por Daniela Arbex

14/07/2019 às 07h00 - Atualizada 12/07/2019 às 16h46

Imagine ir ao Central Park para passear com os amigos e terminar a noite sendo acusado de estupro? Pior: ser condenado por um crime que não cometeu? Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise, os cinco adolescentes negros do Halem, sabem bem o que é isso. Com idades entre 14 e 16 anos, eles ficaram conhecidos na história americana como os Cinco do Central Park. Em 1989, foram escolhidos pela polícia durante uma caçada aos suspeitos de violentar uma corredora branca. Torturados na delegacia, os rapazes foram obrigados a “confessar” o crime durante um interrogatório brutal. Um dos meninos, de apenas 14 anos, nunca tinha estado com uma mulher antes. Mesmo assim, foi obrigado a descrever um ato sexual forçado, apenas o primeiro dos inúmeros traumas que eles carregariam por uma vida.

Os garotos, que sequer se conheciam, tiveram que acusar uns aos outros sob a promessa de que, assim, se livrariam da cadeia. Mesmo fazendo tudo que lhes foi pedido, os cinco foram condenados, obviamente, e passaram de seis a 14 anos presos simplesmente por serem negros e pobres. A criminalização da juventude negra não era uma novidade na época. Desde o fim da escravidão americana, ainda no século XIX, a elite branca pensou em estratégias para não perder a mão de obra escrava. O jeito, então, era criminalizar os negros e caçar a liberdade deles para que assim pudessem dominar seus corpos e sua força de trabalho. E o que me choca é o quanto a imprensa americana contribuiu para o hiperencarceramento dos negros.

Quando os Cinco do Central Park foram apresentados como suspeitos à imprensa, todos os veículos compraram a história mal vendida dos procuradores e da polícia. As manchetes nos jornais comparavam os garotos a animais, foram chamados de matilha. Acabaram julgados e condenados pela opinião pública antes mesmo de irem à júri popular. Na época, o excêntrico investidor Donald Trump foi para a TV pedir a pena de morte em Nova York. Gastou quase US$ 100 mil em anúncios nos jornais para liderar uma campanha a favor da execução dos rapazes. E, pasmem! O racista, para ser delicada, tornou-se o presidente dos Estados Unidos.

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A verdadeira história, que agora é contada pela grande AvaDuvernay, estreou na NetFlix em maio de 2019 e estarreceu o mundo pelo tamanho da injustiça cometida contra cinco garotos que tinham vários sonhos antes de suas vidas serem interrompidas. O crime deles? Nascerem negros. Nem o fato de o sêmen recolhido no corpo da vítima ser 100% incompatível com todos os cinco acusados foi suficiente para evitar a condenação sumária, o que mostra que o importante não são as provas, mas a forma que o discurso é construído.

Em 2002, após terem sua reputação e vida destruídas por mais de uma década, o verdadeiro autor do estupro assumiu o crime, e o material genético recolhido comprovou que ele era 100% culpado. Por ser branco, no entanto, ele conseguiu sair calmamente do Central Park naquela noite de 1989 sem ser abordado pela polícia, mesmo vestindo uma camisa coberta de sangue da mulher que acabara de violentar.

Os cinco adultos negros receberam uma indenização milionária do Estado, após o longo calvário. O que eu fico me perguntando, sempre, é se justiça tardia ainda é justiça? Não encontrei uma resposta para isso. A minha certeza, no entanto, é que, quando a imprensa não cumpre o seu papel de investigar e contrapor versões, a sociedade fica à deriva, e todos correm risco.

Daniela Arbex

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