Chuvas ainda impactam aulas em Juiz de Fora: 824 alunos foram deslocados e cinco escolas seguem fechadas
Oito meses após desastre socioambiental, estudantes de escolas transferidas enfrentam desafios de acesso e adaptação à nova rotina

Veja mais da Tribuna no Google
Adicione a Tribuna de Minas como fonte preferencial para ver mais do nosso conteúdo na Pesquisa Google.
Adicionar Tribuna de Minas
Com o dever de casa para o dia seguinte, os mais recentes trabalhos exibidos nos corredores e um ou outro objeto esquecido em sala de aula, os estudantes da Rede Municipal de Juiz de Fora deixaram as escolas em 23 de fevereiro certos de que voltariam no dia seguinte. Era a programação estabelecida no começo deste ano. No entanto, com o acumulado histórico de 733 mm de chuva, que atingiu a cidade e provocou enchentes e deslizamentos, isso não foi possível. Muitas das instituições se organizaram para servir temporariamente de abrigo para quem precisou sair de casa e atuar como ponto de apoio para bairros que foram destruídos. Se, para parte dos alunos, a rotina escolar logo voltou ao normal, para outros, a situação foi diferente: cinco escolas precisaram ser fechadas devido ao risco de desabamento, e 824 estudantes tiveram que ser transferidos. Muitos deles não voltaram a encontrar os colegas e ainda estão lutando para repor os dois meses sem aula presencial no começo do ano.
Os impactos das chuvas ainda são visíveis no cotidiano escolar, seja nas dificuldades de aprendizagem dos alunos, nos desafios de adaptação à nova realidade ou na falta de estrutura das escolas para as quais foram transferidos. Nos próximos domingos, a Tribuna vai publicar uma série de quatro reportagens sobre os impactos das chuvas no direito à educação em Juiz de Fora — a pauta foi selecionada pelo 8º Edital de Jornalismo de Educação, da Jeduca e da Fundação Itaú. A série busca mostrar como a comunidade escolar tem sido afetada pelas dificuldades de acesso e deslocamento, como estão as escolas atingidas, quem foram os mais afetados com a tragédia e de que forma a educação ambiental é trabalhada na rede de ensino.
Na Escola Municipal Clotilde Peixoto Hargreaves, no Bairro Linhares, foram dois dias só para a direção conseguir entrar e contabilizar as perdas. Antes da chuva, a diretora Cláudia Rezende relatou que o único sinal de problemas maiores era a presença de goteiras em algumas salas, cujos reparos já estavam previstos para julho, além de intervenções no talude, que já havia sido reformado em outras ocasiões, mas sem que a necessidade de novos consertos fosse identificada como urgente. Foi então que a Defesa Civil constatou que o local, junto com as escolas municipais Adenilde Petrina Bispo, Antônio Faustino da Silva, Santa Catarina Labouré e Murilo Mendes, precisava de interdição. O talude havia atingido duas salas de aula, quebrado vidros da escola e comprometia a estrutura do local. A maioria das instituições estavam localizadas na Zona Leste da cidade, região que foi mais afetada pelas chuvas.
Veja no mapa das áreas de risco onde ficam escolas interditadas
A partir dessa definição, a secretária de Educação, Ana Lívia Coimbra, entendeu que seria preciso redistribuir esses alunos juntamente com outros que, após perderem suas casas e precisarem se mudar de bairro, solicitaram a transferência. “Nós procuramos criar condições para que essas unidades escolares ficassem o mais próximo possível do lugar onde a escola era construída. Justamente porque era um espaço de vivência e de reconhecimento de identidade daquela comunidade”, diz.

A responsável pela pasta também afirma que foram levados em conta o deslocamento das famílias até a escola e a disponibilidade de transporte público. Outra preocupação foi garantir que as crianças da mesma escola ficassem juntas, nos imóveis alugados ou, no caso da Clotilde Peixoto, no prédio da Escola Municipal Professor Helyon de Oliveira, para onde se mudaram. Até que isso acontecesse, foi decidido adotar o ensino não presencial para que os alunos não ficassem com o conteúdo ainda mais atrasado.
Na escola dirigida por Cláudia, em 23 de março começaram a ser passadas atividades para os alunos fazerem em casa, e apenas em 8 de abril o ensino retornou de maneira presencial. Já no Antônio Faustino e na Adenilde Petrina, o retorno aconteceu em 23 de abril. “Há 4 anos, passamos por uma pandemia e as crianças tiveram uma experiência de ensino remoto, e estamos recuperando aos poucos uma defasagem que aconteceu lá. (…) Nós não poderíamos fazer uma fragilização dos vínculos dos estudantes com a escola neste momento”, destaca Ana Lívia. A proposta de ensino foi apresentada no Conselho Municipal de Educação e teve alinhamento com o MEC.
Quando a escola vai para casa
A alternativa encontrada para evitar prejuízos na aprendizagem dos alunos exigiu a adaptação dos pais, que precisaram conciliar a rotina de trabalho com o acompanhamento das atividades. Esse é o caso da mãe do Lourenço, 9. O menino estuda na Antônio Faustino e enfrentou dificuldades com os estudos a distância enquanto também vivenciava os efeitos da chuva dentro de casa. Moradores do Bairro Vitorino Braga, a família teve que deixar a própria casa por cerca de 15 dias, devido ao risco de deslizamento de barrancos nos fundos do imóvel. Nesse período, eles precisaram morar com a prima.
Sua mãe, Thalyssa Barbosa, 30, trabalha fora como manicure e dependia da ajuda de outros familiares para dar conta da rotina de estudos. À noite, ela, a avó ou o pai de Lourenço se revezavam para ensinar os exercícios. Ainda assim, a mãe percebeu que a criança tinha dificuldade para retomar os conteúdos. A questão permaneceu por um período, mesmo com o retorno das atividades presenciais.

Segundo ela, as professoras chegaram a chamar alguns pais para conversar sobre o rendimento das crianças durante as aulas. “Não estavam pegando o ritmo direito. No começo, a professora escrevia no quadro e tinha que apagar porque eles não estavam conseguindo acompanhar.”
A situação relatada por Thalyssa também foi um desafio para Bruno Constantino, 41, pai de João Vitor, 13, estudante autista com nível 2 de suporte. Para ele, o ensino remoto exigiu uma atenção ainda maior da família, já que o filho precisava de mais tempo para realizar as tarefas. “O que uma criança que não é atípica faria em 20 minutos, ele vai fazer em uma hora. Então isso torna um pouquinho mais difícil”, relata.
O pai diz que a escola não ofereceu suporte adicional para acompanhar as necessidades do estudante durante o período de atividades em casa. Com isso, a família precisou se adaptar para ajudá-lo a manter a rotina de estudos. “É mais difícil porque ele precisa de uma atenção super especial”, afirma.
Com a retomada do presencial, a adaptação ao novo espaço também foi um obstáculo. João Vitor é aluno da mesma escola que Lourenço, Antônio Faustino, que passou a funcionar de forma provisória na Igreja Nossa Senhora do Líbano, no Bairro Grajaú. Constantino comenta que a mudança de ambiente provocou desconforto no começo e o filho apresentou episódios de ecolalia até se familiarizar com o espaço e se sentir confortável.
Acessibilidade e estrutura ainda são desafios
O acesso à escola é uma dificuldade relatada por Jailaine Brigido, 36, que precisa levar os filhos Mateus, 10, e Gabriel, 8, ao CAIC — que, antes, estudavam no Clotilde Peixoto, bem próximo de sua casa. Ela conta que há apenas um ônibus, às 13h, para levar Gabriel ao colégio, e que caso perca esse coletivo, só consegue pegar o próximo, às 14h20. Antes de sair, precisa preparar o almoço e administrar a medicação do filho mais novo, que tem transtorno do espectro autista no nível 1 de suporte. “Os dois tiveram um prejuízo grande no ensino e, agora, para conseguir acompanhar”, diz.
No novo ambiente escolar, os alunos da Clotilde Peixoto foram reduzidos quase pela metade e reunidos aos do CAIC — o que acarretou em problemas para que Gabriel acompanhasse as aulas como antes. “Ele sai daqui muito cansado, porque são mais alunos e faz mais barulho”, conta ela, que admite que o filho ainda não se adaptou totalmente ao ambiente. A falta da antiga escola se soma à perda da própria casa, atingida pelos deslizamentos no Bairro Linhares, ampliando as mudanças na rotina da família.

Além dos problemas com deslocamento, as mudanças de endereço também trouxeram consigo questões estruturais. A falta de uma quadra adequada, por exemplo, é sentida pelos estudantes da Escola Antônio Faustino. Lourenço conta que sente falta do espaço que tinha na antiga unidade. No local provisório, instalado em uma igreja, as brincadeiras com bola ficaram restritas a uma área menor.
O professor de Educação Física, Rafael Bellei, da Escola Adenilde Petrina, também aponta limitações na estrutura disponível. No outro colégio, segundo ele, as aulas eram realizadas em um pátio compartilhado com o espaço de recreio, o que dificultava as atividades. A Prefeitura chegou a disponibilizar uma quadra a mais de um quilômetro do local, mas a distância tornava o uso inviável. No endereço atual, há uma quadra pequena, que permite realizar as aulas, mas ainda apresenta limitações. O espaço fica ao lado do refeitório e não tem telas para separá-lo das demais áreas. “Não vou falar que é mais adequado, mas menos ruim, porque antes era pior”, avalia o professor.
Perda da ligação com o território

Para os familiares dos alunos da Escola Municipal Adenilde Petrina, a rotina também se alterou bastante. Apesar da secretaria de Educação ter mantido a procura por prédios que ficassem em um raio de 3 km do Bairro Santa Cândida, a distância, no Centro da cidade, se tornou um problema que eles precisam diariamente contornar. É o caso de M.S., que não quis se identificar na matéria, ela conta que no início o transporte escolar atrasava com frequência. Outra dificuldade foi apontada por essa mãe: crianças, como sua filha de 13 anos, precisam ir com os pais, que gastam o dobro do tempo no deslocamento, ou vão desacompanhadas dentro do coletivo. “Algumas mães se organizaram para acompanhar as crianças, mas quando tem algum problema dentro do ônibus, a direção diz que não pode se responsabilizar”, relata.
A mudança de localização da escola, que foi rebatizada em 2025 para homenagear uma liderança comunitária e periférica, impôs mais que uma distância física: para ela, os familiares não conseguem mais participar da vida escolar com o endereço central. “Aquela sensação de ‘a escola é nossa’ acabou. A escola fazia parte de uma comunidade, até quem não tinha filho que era aluno sabia das coisas que aconteciam, e não temos mais isso”, diz.
Segundo o professor Rafael, hoje essa é a maior preocupação. Para ele, a permanência da unidade no Centro pode enfraquecer, com o passar do tempo, a identidade construída pela escola junto aos moradores do Santa Cândida. A mudança de endereço também altera o perfil da comunidade escolar, já que a unidade passou a receber alunos que moram mais perto da nova localização e não possuem a mesma identificação com a história do bairro. “A Adenilde tinha uma representatividade gigantesca dentro do bairro, principalmente para o movimento negro. […] Quanto mais tempo a gente permanecer no Centro, a tendência é que essa identidade da escola se perca um pouco”, avalia.









