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Fala Quem Sabe: Arte teatral, até quando?

Por Cesar Romero

18/08/2019 às 07h30 - Atualizada 16/08/2019 às 20h44

Fala Quem Sabe: Arte teatral, até quando?

Neste 19 de agosto, em que se comemora o Dia do Artista de Teatro, fazemos algumas reflexões. Até quando insistir em teatro? Em fazer teatro? Até quando apostar em uma ideia que só vai virar um espetáculo daqui a um, dois anos, sem a menor garantia de que alguém vai querer assistir? Que alguém vai poder patrocinar? Até quando aceitar ser acordado de madrugada por personagens que só aceitam parar de cuspir falas no seu ouvido quando você levanta pra colocar seus diálogos no papel?

Até quando enfiar um cenário gigantesco em um veículo minúsculo, dirigir 600 km, 700 km para se apresentar em um dos poucos festivais sobreviventes para o qual você teve a sorte de ser selecionado entre mais de 300 inscritos? Até quando se apresentar em locais caindo aos pedaços, repletos de cadeiras quebradas e mofo, onde cabe a você assumir a vassoura e o pano de chão para torná-lo minimamente habitável?

Até quando se orgulhar do título de “operário de teatro” em um país onde 88,6% da população não frequenta teatro? E quando frequenta, adora “ir ao teatro para rir”? Até quando gastar seus últimos centavos na produção da sua ideia e ouvir de seus amigos “quero tanto te prestigiar, mas tem cortesia?”

Até quando ouvir calado que você não trabalha, só se diverte? Que você não passa de um mamador das tetas do governo, mesmo sabendo que cada real investido em cultura, R$ 1,59 retorna aos cofres na forma de impostos, e ainda alimenta uma das indústrias que mais empregam no País, do elenco ao pipoqueiro, bilheteiro, taxista?

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Até quando enfrentar essa odisseia e ver um casal se levantar no meio da peça porque você falou um palavrão? Até quando vão ser suficientes o abraço apertado e as lágrimas daquela moça que, ao final da apresentação, se sente abençoada pela reviravolta que você promoveu em seu estômago, com a certeza de que aquela história foi contada só pra ela?

Quando finalizar este texto, parto para uma apresentação de meu espetáculo solo em outra cidade. Sessão esgotada no teatro de 200 lugares e sessão extra com ingressos sendo disputados à tapa. Semana passada, em outra localidade, uma meia dúzia de espectadores apenas. Até quando?

(Tairone Vale é jornalista, ator de teatro e leitor convidado)

 

 

Cesar Romero

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