Quem responde pela solidão de muitas pessoas idosas?

"Vivemos em cidades cada vez mais conectadas por redes digitais e, ao mesmo tempo, estamos cada vez mais desconectados da presença humana"

Por Jose Anisio Pitico

Quando uma pessoa idosa passa dias sem receber uma visita; passa semanas sem ter uma conversa significativa com alguém ou passa meses sem sentir que sua existência importa para alguém, quem responde por essas faltas? A família? O poder público? A sociedade? Ou ninguém?

Vivemos em cidades cada vez mais conectadas por redes digitais e, ao mesmo tempo, estamos cada vez mais desconectados da presença humana. Não conhecemos e nem desejamos conhecer quem mora sozinho/a na casa ao lado, qual é o nome do nosso/a vizinho/a?

A solidão não é apenas um sentimento particular. Ela revela a forma como organizamos a nossa vida em sociedade. Quando a cidade oferece poucos espaços de convivências, quando as calçadas impedem o caminhar e provocam quedas, quando os equipamentos públicos não promovem pertencimento, a solidão deixa de ser uma questão privada e se transforma em uma questão política. Pública.

Quem responde pela solidão de muitas pessoas idosas? Ao invés dessa pergunta, talvez fosse melhor, perguntar o seguinte: que tipo de cidade nós estamos construindo, quando milhares de pessoas envelhecem sem serem vistas e visitadas? Uma cidade que se proclama, um dia, ser amiga das pessoas idosas, como a nossa, deve cultivar e promover encontros humanos: reconhecer o valor da convivência comunitária. Criar oportunidades para que as diferentes gerações compartilhem seus espaços, histórias e afetos.

A solidão no envelhecimento para muitas pessoas, não se resolve apenas com políticas públicas, embora, elas sejam e são indispensáveis. É preciso que a cidade, que todos nós, caros leitores e leitoras, tenhamos uma ética do cuidado, da vizinhança e de responsabilidade compartilhada. Que nós voltemos a bater às portas, a perguntar como fulano está, a perceber quem desapareceu do “pilates”, do culto, da missa, da feira ou da “pelada” do futebol.

Há sim, uma diferença profunda entre envelhecer e envelhecer sozinho: uma cidade verdadeiramente humana não aquela que é medida somente pela presença de prédios, avenidas e carros. É aquela que é medida, sobretudo, pela forma como trata aqueles e aquelas que já percorreram longos caminhos na vida.

Se a resposta, mesmo que seja dada pelo nosso silêncio, onde ninguém se responsabiliza pela solidão de muitas pessoas idosas, com certeza, posso afirmar, que estamos diante de um comportamento cruel de abandono e indiferença do nosso tempo. O que vem a configurar o que a escritora francesa e grande filósofa Simone de Beauvoir já nos advertia sobre a “conspiração do silêncio”, em sua obra clássica no campo da Geriatria e Gerontologia. “A velhice”. Está na hora de a gente romper com essa realidade. E construirmos uma nova velhice. Digna e cidadã. Vamos em frente!

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar e mantém o canal Longevidades no Youtube (@Longevidades). Contato: (32) 98828-6941

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