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Antes que não reste opção

Por Júlia Pessôa

01/08/2021 às 07h00 - Atualizada 29/07/2021 às 19h00

Não é difícil entender por que boa parte do Brasil tem se esforçado pra acompanhar os Jogos Olímpicos de Tóquio. Pra começar a parte boa dessa boa parte está vendo, pela primeira vez em muito tempo, a bandeira nacional, a tradicional camisa canarinho e os símbolos nacionais serem usados para outra coisa que não seja o desmonte do próprio país. O Brasil lidera o ranking mundial de sensação de viver em ‘país em declínio’, dado revelado por uma pesquisa da empresa Ipsos realizada em 25 países.

Mas desconfio muito que se as estatísticas fossem levantadas nesse intervalo olímpico a conclusão seria outra. Mesmo pra quem, como eu, não se liga tanto em transmissões esportivas – além de questionar a viabilidade de um evento deste porte na pandemia – é impossível ficar completamente imune ao que se passa em Tóquio. Algo que a gente pensava nunca mais sentir de novo: o orgulho de ser daqui.

Ver atletas arrebatando medalhas por um esporte que um conservadorismo burro criminalizou em São Paulo, o skate, que precisou de uma mulher do cacife de Luiza Erundina para reverter. É lindo ver o país se encantar por uma menina de 13 anos fazendo manobras em cima de uma tábua de quatro rodinhas. Rayssa Leal, a “Fadinha do skate”. E mais lindo ainda ver que o meme “fada sensata” nunca fez tanto sentido: voltou pra Imperatriz do Maranhão de medalha no peito, pedindo para que não houvesse aglomerações e se recusando a ser papagaio de pirata de políticos que nunca apoiaram sua prática esportiva.

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Como não se orgulhar de um Brasil que vê a emoção de Daiane dos Santos assistindo Rebeca Andrade, uma jovem ginasta negra, ser a primeira medalhista brasileira numa Olimpíada abocanhando a prata? Se Rebeca pôde se inspirar na grandeza de Daiane, imagine quantas meninas negras poderão enxergar novos futuros com a prata de Rebeca. Taí uma aglomeração que eu espero viver pra voltar a ver: de possibilidades de futuro, sobretudo para estas meninas.

Como não ficar pelo menos um pouco mais feliz sendo do mesmo país que o Douglas do vôlei, fazendo questão de ser afeminado em um universo machista como o de esporte e conservador como o da sua modalidade? Como não ter uma ponta de esperança com as intervenções da comentarista Karen Jonz, tetracampeã mundial de skate e medalha de ouro como rebatedora de machismo nas Olimpíadas de Tóquio?

Imagine se a gente parasse de romantizar o clichê burguês safado de “histórias de superação” e realmente houvesse condições igualitárias e dignas de acesso ao esporte? Imagina viver nesse Brasil Olímpico em que não deixa de ser raro e difícil vencer, mas sempre dá pra ter alguma alegria e esperança?

Antes de que não reste opção senão a terra arrasada que sobrou pra gente viver, dê um giro em qualquer prova esportiva que o Brasil disputar até 8 de agosto. Com ou sem vitória do país, você vai me agradecer.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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