Quando a IA destrói os livros que deveria respeitar o mundo literário pega fogo
O parquinho pegou fogo: documentos desclassificados revelam que a Anthropic comprou, destruiu e digitalizou livros em segredo para treinar o Claude. Enquanto os influenciadores literários denunciam aos quatro ventos, a coluna Além da Xícara reflete sobre o que sobra quando o fogo apaga
Se você acompanha a coluna, sabe que aqui a gente gosta de histórias que cabem numa xícara. Hoje a história é outra, e ela não cabe em xícara nenhuma. Ela cabe num galpão industrial, onde lombadas de livros eram cortadas por máquinas como se fossem fatias de salame, e onde páginas que levaram anos para serem escritas viravam pó em segundos.
Saiu no Washington Post, veio à tona nos autos judiciais, e o nome já diz tudo: Project Panama. O plano secreto da Anthropic, a empresa por trás do chatbot Claude, era “digitalizar de forma destrutiva todos os livros do mundo”. E o documento interno de planejamento era explícito: “Não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso.”
O parquinho pegou fogo
Os influenciadores literários não tiveram outro assunto nas últimas semanas. Para quem ama livros – admirando ou não as inteligências artificiais – a notícia trouxe a difícil unanimidade da indignação. O fato saiu do tribunal, caiu nas timelines, e em poucas horas o parquinho estava em chamas. Booktok, booktube, bookstagram, todos com o mesmo tom de ultrajado, todos “denunciando aos quatro ventos” o que a grande tecnologia fez com os livros.
O problema é que, entre um vídeo e outro, entre um “isso é um absurdo” e um “como ousam”, a discussão séria foi ficando para trás. Porque indignar-se é fácil. O difícil é entender o que isso realmente significa para quem escreve, para quem lê e para quem acredita que uma história vale mais do que o papel em que foi impressa.
Imagem gerada por Inteligência Artificial
O que os documentos revelaram
Vamos aos fatos, porque indignação sem fato é só barulho. O Project Panama começou no início de 2024. A Anthropic comprou dezenas de milhares de livros de cada vez, de grandes fornecedores. Depois, terceirizou o trabalho pesado para um prestador que usava uma máquina hidráulica para cortar as lombadas, separar as páginas uma a uma e digitalizá-las em massa. O papel virava resíduo, ia para a reciclagem e voltava como papel higiênico ou caixa de cartão.
A escala impressiona: a empresa procurava converter entre 500 mil e 2 milhões de livros em seis meses. Tudo em segredo, tudo longe dos holofotes, tudo com a desculpa de que os livros ensinariam o Claude “a escrever bem”, em vez de imitar a “linguagem de internet de baixa qualidade”.
E tem mais. Os documentos indicam que o cofundador Ben Mann teria baixado conteúdo protegido por direitos autorais de uma “biblioteca sombra” chamada LibGen, com captura de tela do navegador nos autos. No ano seguinte, compartilhou com colegas um link para o Pirate Library Mirror, um catálogo de livros obtidos ilegalmente.
O acerto de contas
O desfecho veio nos tribunais. Um grupo de autores, liderado pela romancista Andrea Bartz e pelos escritores Charles Graeber e Kirk Wallace Johnson, moveu uma ação coletiva contra a Anthropic. No mês passado, a empresa, avaliada em 965 bilhões de dólares, concordou em pagar 1,5 bilhão de dólares para encerrar o caso, cobrindo cerca de 500 mil obras elegíveis.
“É a maior recuperação de direitos autorais conhecida na história”, afirmou o advogado Justin Nelson. E o caso é só o primeiro de uma série: Meta, OpenAI, Google e Microsoft enfrentam ações semelhantes.
O que fica depois do fogo
Aqui é onde eu quero chegar. Porque os influenciadores literários fizeram o que sabem fazer de melhor: puseram fogo no parquinho e divulgaram o fato aos quatro ventos. E isso tem valor, sim, porque o assunto merecia sair das sombras.
Mas quando as chamas baixarem, o que sobra? Sobra a pergunta incômoda que ninguém quer responder em um vídeo de 30 segundos: será que as maiores empresas de tecnologia do mundo entendem o valor cultural de um livro? Ou ao menos respeitem a criatividade e originalidade humana? A atitude da Anthropic, seja por ordem ou omissão, é deplorável, mas por outro lado a efemeridade das redes sociais tende a já ter “esquecido” o tema.
Porque há uma diferença enorme entre usar um livro para aprender e destruí-lo para extrair o que interessa, depois descartar o resto. Será que para a inteligência artificial, uma história humana vale menos do que o papel em que foi impressa? Será que em poucos anos não saberemos (em textos novos) como distinguir o que é criação humana do que é produção generativa? E isso, meus amigos, é um fogo que nenhum influenciador apaga com um vídeo.
Fonte: euronews.com
Mirian Ferreira
Sou jornalista, com 35 anos de carreira, quase toda vivida na imagem institucional e assessoria de imprensa, principalmente, na área da Saúde. Passei pelo jornalismo sindical e pouco tempo pelo jornalismo diário, justamente no Tribuna de Minas, ainda nos anos 1990. Hoje, continuo atuando no mercado, e trabalhando 12 horas por dia, mas o hobby tão necessário acabou também se direcionando à paixão pela palavra e me inicio no mundo dos blogs.
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