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Aquele catedrático desgraçado

Por Gabriel Ferreira Borges

22/09/2020 às 06h59 - Atualizada 22/09/2020 às 07h15

– Tá faltando ardência – sentenciou, inconformado, o homem cuja pochete de couro surrada denunciava a meia-idade.

– Ah, pronto, a primeira condenação de qualquer torcedor – retrucou impaciente o outro, que, balançando a cabeça, apagava no cinzeiro o que lhe restava de cigarro.

– Mas não é? Você não via como as passadas do Gérson eram indolentes? E o Arão? Trotava como se tivesse em Conselheiro Galvão jogando contra o Madureira. O Andrade nunca fez isso – contestou após limpar a mão engordurada de torresmo em uma réplica razoavelmente bem preservada da camisa de 1987, aquela com as três estrelas ao lado direito do escudo.

– Os jogadores estão se habituando aos novos conceitos do Domènec – argumentava, de pernas cruzadas, com a boca entreaberta para não deixar o novo cigarro cair – São princípios de jogo diferentes daqueles dos de Jorge Jesus. Jesus tinha concepções mais associadas à teoria do caos, já o Torrent bebe das águas do…

– Que porcaria é essa de teoria do caos, Evandro? – bradou Ivonei, devolvendo o copo americano suado à mesa instantaneamente – Tu tá achando que futebol é filosofia, agora? Os caras não tinham raça alguma. Como é que tomam 5 a 0 de um time equatoriano que foi criado outro dia? Que não leva meia dúzia de gatos pingados para as arquibancadas?

– … jogo de posição. Um cruyffista ortodoxo, o Dome – terminou Evandro com ar arrogante – O jogo de posição está intimamente ligado a uma noção mais rígida da ocupação dos espaços em campo. A teoria do caos, por outro lado, implica em um sistema em que o conceito primordial é a instabilidade de um sistema complexo e dinâmico…

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– Eu lá quero saber de ocupação de espaços, de sistema não sei o quê e o escambau, Evandro? – a didática minuciosamente pedante do amigo irritava Ivonei – Preocupado eu tô é com o preço do saco de arroz. O Flamengo só tem que ganhar. Eu não consigo dormir desde quinta.

– Ivonei, presta atenção: a adaptação dos jogadores não vai ser fácil – ponderou Evandro, por sinal, abstêmio, inclinando-se levemente na direção de Ivonei – Não podemos esquecer que eles estão jogando a cada três dias. Não há quem aguente manter o nível técnico em todas as partidas.

– E você reparou que o Gabigol tá gordo? Nem eu com o ligamento cruzado do meu joelho estourado há 15 anos perco os gols na pelada que ele tem perdido – Ivonei mal expurgou o centroavante a quem sempre imitava pateticamente quando bêbado, já acenando ao garçom pedindo a saideira.

– Justamente por isso o Dome está fazendo o rodízio das peças do elenco – insistiu Evandro tal qual um desses tecnocratas orgulhosos de saber todas as minúcias de uma Lei de Diretrizes Orçamentárias – E, convenhamos, é desumano jogar a 2.800 metros de altitude. É natural que os jogadores…

– Ah, rodízio, pelo amor de Deus, Evandro – rebateu Ivonei, levando a mão sobre o pouco de cabelo que lhe restava injuriado – As carnes têm que estar todas no assador. Os caras ganham 500 paus por mês pra quê, afinal de contas?

– Há vários estudos da medicina esportiva que apontam que o limite aceitável para jogar…

Tamanha era a enxaqueca de Ivonei desde o fatídico jogo de Quito que não conseguia mais prestar atenção nas palavras doutoralescas Evandro. Ah, aquele catedrático desgraçado que não sentia os comichões futebolísticos que apenas ele sentia no peito. Só queria saber por que cargas d’água o escolhera para ser padrinho de seu filho.

Gabriel Ferreira Borges

Gabriel Ferreira Borges

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