Colcha de retalhos

“Dizem que a vida é uma colcha de retalhos cheia de partes rasgadas e remendadas, e o importante é saber usar a linha e a agulha para quando o pano esgarçar”. Leia na coluna do jornalista Marcos Araújo na edição deste domingo.

Por Marcos Araújo

Colcha de retalhos pixabay
Dizem que a vida é uma colcha de retalhos cheia de partes rasgadas e remendadas, e o importante é saber usar a linha e a agulha para quando o pano esgarçar. (Foto: Pixabay)

A vida rasga. E rasga com vontade. Isso acontece quando menos se espera. Sem pedir licença, o rasgo aparece, sem perguntar se houve preparo. Em outras ocasiões, a vida rasga em silêncio, sorrateiramente. Às vezes, rasga ao sair sem se despedir, e só se percebe a brecha que ficou quando se ouve o som da batida da porta. 

Rasga com notícia ruim, num plantão na TV, no meio da tarde. Rasga quando se descobre uma traição que sempre esteve evidente, porém não se conseguia enxergar. Rasga com a solidão ou com a companhia que finge estar presente. 

Não existe quem passe ileso nesta vida. É exatamente por isso que, aqui, ela está sendo comparada a um tecido que, cedo ou tarde, se rasga. No entanto, é bom saber que a definição de uma pessoa não está no corte, mas na costura. Existe quem faz o remendo com pressa só para disfarçar o buraco.

Outros preferem, como forma de protesto, deixar a ferida aberta. Há também quem a esconda, fazendo aquela costura invisível que deixa o acabamento impecável. Ainda há aqueles que costuram a própria existência com coragem, mesmo que estejam sangrando. 

Usar a linha da coragem é mais que resistir, é transformar o remendo em recomeço. Cada corte suturado é mais uma oportunidade para se amadurecer e ficar mais forte. Dessa forma, compreende-se que viver acarreta rasgos inevitáveis que deixam marcas. Elas podem até desaparecer, mas já terão ressignificado a existência.  

Quando amizade, valores, família, justiça e verdade parecem se desfazer diante dos olhos, é possível perceber que ainda existem aqueles que seguem costurando, mesmo sem saber se a linha vai aguentar. 

É bem possível que continuar costurando seja a única saída, empregando em cada ponto um pouco de esperança, afeto e consciência. Dizem que a vida é uma colcha de retalhos cheia de partes rasgadas e remendadas, e o importante é saber usar a linha e a agulha para quando o pano esgarçar. 

Trata-se de tecido imperfeito, assim como a condição humana, mas a resistência de seguir costurando é o que impede o desfiar completo. No fim das contas, não é sobre evitar os rasgos, o que seria impossível, mas aprender a bordar sobre eles, transformando cicatrizes em belos desenhos.

Marcos Araújo

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