
As ruas foram tomadas, assim como as telas. O Brasil se agigantou, tendo como maior protagonista o seu povo. Um povo que, diante de um mal maior, reuniu toda a garra que tinha “para o dia nascer feliz”, uma das frases mais presentes nos cartazes digitais, em referência à canção de Cazuza. Uma forma de convocar bons presságios para a segunda-feira seguinte àquele domingo que, ouso dizer, foi um dos mais importantes da nossa história recente. Se estávamos à beira do abismo, a união nos salvou da queda. A data em que nossa democracia foi salva, pelo menos por enquanto, ficará para sempre em nossa memória. E, quando esse episódio fizer parte dos livros de História, poderemos dizer aos nossos netos e netas que fomos testemunhas desse feito.
Presenciamos a juventude unida, mostrando que existe esperança no futuro, e uma bonita multidão de idosos que, apesar de todas as dificuldades de deslocamento, saiu de casa para votar com o propósito de impedir a volta de um passado que já deveria estar morto e sepultado.
Quando pensávamos que estava tudo acabado e o desânimo pesava sobre nossos corpos e mentes, uma lufada de energia reacendeu nossos corações e fez surgir uma onda de coragem em busca do bem coletivo. Este texto é, sobretudo, um reconhecimento da importância da união. Então, é hora de comemorar, porque o que fomos capazes de fazer merece ser celebrado. Nosso êxito confirmou que, quando queremos, é possível virar o jogo.
Assim, é hora de pensarmos nos desdobramentos dessa união em outros setores. Vamos nos unir em prol do nosso sistema de saúde, a fim de garantir atendimento e tratamento médico a quem precisa. Vamos nos unir para melhorar a educação pública em todos os níveis, com o propósito de assegurar um ensino de qualidade a quem deseja estudar e condições favoráveis a quem quer exercer a docência. Vamos nos unir em defesa de uma segurança pública de qualidade, para que as pessoas não tenham medo de andar pelas ruas e os agentes de segurança possam desempenhar suas funções com a garantia do cumprimento da lei e de que voltarão para casa em segurança. Vamos nos fortalecer para proteger o meio ambiente, impedindo que ele seja alvo da ganância do capitalismo desmedido. Vamos nos unir e lutar para garantir uma existência digna aos povos indígenas e a todas as minorias.
É preciso esperar que essa rajada de esperança também transforme nossa relação com os algoritmos. Se as redes sociais são nossa praça pública, precisamos passar a divulgar e valorizar o bem, compartilhando ideias e dando visibilidade à gentileza, à cultura, à solidariedade e a tudo aquilo que nos ajuda a ser mais humanos. Se os algoritmos privilegiam o grotesco, o absurdo e a indignação, que mudemos nossos hábitos de consumo e compartilhamento. Vamos abandonar aquilo que alimenta nossa brutalidade e desvaloriza nossa humanidade.
Antes de concluir, lembro aqui o poema “Para os que virão”, do poeta e jornalista amazonense Thiago de Mello, falecido em 2022, que diz: “Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe me dando inteiro”. Para mim, é um verso extremamente bonito, que diz muito sobre o momento que acabamos de vivenciar. Ele expressa uma ética da ação coletiva a partir de uma consciência profundamente humana: somos limitados, mas isso não nos desobriga de agir.





