Juiz de Fora melhor para os animais
Pauta animal enfrenta dificuldades, reconhece ações de melhoria, mas precisa ampliar olhares para avançar na cidade
Domingo, 1º de fevereiro, Parque Halfeld. Quando começamos a conversar sobre esta coluna no jornal, não era ali que eu imaginava estar logo na semana da primeira edição. O assassinato do cão comunitário Orelha e a sequência de casos de violência contra animais noticiados ao longo de um janeiro que mal teve tempo de inaugurar 2026 inviabilizaram uma estreia mais solar.
A manifestação em Juiz de Fora por justiça e pelo fim dos maus-tratos aos animais somou-se à mobilização nacional. Em menor número de participantes do que nas capitais, mas não em menor voz e luta. A conversa com manifestantes desenhou uma pauta protagonizada por animais em situação de rua, comunitários, lotando o Canil e os abrigos, e também pelos que tiveram a sorte de ganhar uma família, por seus tutores em busca de qualidade de vida, e pela incansável, mesmo exausta, Proteção Animal.
Juiz de Fora pela causa animal
Para a corretora de imóveis e voluntária da causa há mais de 15 anos, Liz Ciribelli, apesar de melhorias na relação da cidade com os animais e da maior exposição do tema nas redes sociais, ainda é pouco o interesse da população em ajudar efetivamente. “Somos fortes, coesos, mas não somos muitos na causa animal”, avalia.
A professora de História e médica veterinária, Ana Cláudia Vitoretti Felippe, com 25 anos de ativismo, defende a criação de uma política pública de manejo ético e humanitário de população canina e felina, a educação para a posse responsável e a inclusão da sociedade nos debates. “É pequeno, quase nulo, o diálogo com a população. Eu ando muito por bairros carentes e, às vezes, o que falta é só informação”, relata.
O professor Jorge de Souza Ribeiro, há 26 anos na causa, vê a necessidade de uma conscientização maciça da sociedade juiz-forana. “Trata-se de uma questão educacional. Está na base”, afirma.
Iniciativa pública
Na Prefeitura, a criação da Secretaria do Bem-Estar Animal (Sebeal) em 2025, foi um ganho no âmbito do governo municipal. “Lidamos ainda com casos de maus-tratos, que têm sido combatidos de forma veemente, e procuramos fazer um trabalho, cada vez mais, de conscientização. No ano passado, fomos a 37 escolas, falamos para mais de 8 mil alunos, tentando formar uma geração mais comprometida com a causa animal”, comenta o Secretário Márcio Guerra.
A abordagem educativa também tem sido levada às pessoas em situação de rua, tratando sobre direitos e deveres. Castração, microchipagem e incentivo à adoção responsável estão entre as principais ações da Sebeal. Segundo o secretário, esses programas, além do atendimento médico quando necessário, são estendidos a animais comunitários. A Secretaria divulga mais de 600 animais adotados no Canil Municipal no ano passado, um recorde. O número de resgates atualizado ultrapassa os 2.400.
Indissociáveis
Antes e além da adoção, está onde tudo acontece: a cidade. Uma cidade – feita de lugares, serviços, políticas públicas, de gente e de bichos, muita gente e muito bicho – não pode hostilizar. Até que ponto Juiz de Fora não hostiliza?
“Que (os animais) fossem bem cuidados, respeitados e nunca maltratados” é o que a atendente de pet shop Elizabeth Aparecida Moreira gostaria de ver realizado.
A assistente social aposentada Alexandra de Lery Guimarães Bald Ribeiro, atuante na proteção animal desde a adolescência, diz sonhar “com o dia em que todas as pessoas enxerguem os animais como seres que têm direito à vida digna, sentem afeto e dor”, afirma.
“Se não for possível amá-los, que sejam, no mínimo, respeitados”, espera. “Se cada família, com real condição – e há muitas – pudesse adotar, com o coração, mesmo, um animal abandonado nas ruas, o cenário em nossa cidade seria outro”, idealiza Jorge.
Cartazes em protesto embrulharam o tronco largo da árvore em frente ao Paço Municipal nos momentos finais da manifestação. Entendo que somos, sim, uma população que ama os bichos. Nosso ir e vir pelas ruas, nossos núcleos sociais e familiares, multiespécies.
Entre os prédios que não deixam espaço, o lixo que engole as calçadas e entope os bueiros, as árvores escassas e os poucos parques, em meio à parca acessibilidade, à pobreza que insiste e à violência que nos quer calar, somos, ainda, gente, gato, cão, pássaro, as maritacas no fim de tarde, a onça no Jardim Botânico, as capivaras no Paraibuna.
Fica aqui o convite a nos olhar, ver e cuidar, indissociáveis: pessoas, bichos e cidade.











