Passageiros denunciam má conservação de ônibus

Moradores flagram banco sem assento em coletivo (douglas ezídio)

Carro da linha 220 (Bom Pastor) não teve força suficiente para subir a Rua Coronel Vaz de Melo (douglas mendes)

Apesar de ônibus estar vazio, passageiras não usaram bancos por causa de infestação de baratas (pedro farnese)
Enquanto Juiz de Fora espera pela inédita licitação do transporte coletivo, usuários denunciam que precisam conviver com as péssimas condições em parte dos 589 ônibus em circulação no município. O caso recente do veículo da linha 213 (Bairu/Cruzeiro do Sul), da empresa Ansal, que teve duas rodas soltas enquanto trafegava pela Zona Sul, evidencia a necessidade de reestruturação do sistema atual, com a adoção de veículos mais seguros e confortáveis. No final de setembro, quando a Tribuna publicou imagens de baratas dentro de outros dois coletivos, dezenas de leitores relataram presenciar a mesma situação em outras empresas. Já pelo WhatsApp da Tribuna, usuários denunciaram mais problemas, como buracos no teto, provocando goteiras em dias de chuva, além de veículos trafegando com pneu careca. A Prefeitura diz fiscalizar a prestação do serviço, mas aposta na licitação como forma de ter mais poder para cobrar das concessionárias vencedoras. Já as atuais empresas que prestam o serviço garantem que realizam a manutenção e prometem mais investimentos, caso vençam a licitação.
Na noite do último dia 4 de outubro, o ônibus da linha 220 (Bom Pastor), da Ansal, não teve força suficiente para subir a Rua Coronel Vaz de Melo. O estudante Douglas Mendes, 18 anos, mora em frente ao local, é usuário da linha e relatou o que aconteceu. “O ônibus começou a subir, não conseguiu terminar e parou no meio do morro. O motorista tentou arrancar por mais de dez minutos.” Por fim, conforme Douglas, o condutor fechou o veículo, e os passageiros precisaram embarcar em outra linha, na rua de cima. Já o coletivo desceu a via de ré e seguiu o itinerário sem contemplar os pontos mais altos do bairro. O incidente aconteceu por volta das 23h30, conforme Douglas.
Os problemas nos ônibus acabam deixando vulneráveis usuários, motoristas e cobradores. Na noite da última segunda-feira (19), criminosos se aproveitaram de uma pane no motor de uma linha da Tusmil para roubar. Conforme o boletim de ocorrência da PM, o veículo apresentou problema na rua principal do Torreões, momento em que três bandidos armados entraram no coletivo e levaram dinheiro e celulares.
Uma falha mecânica também impediu que o ônibus da linha 208 (Progresso), da Ansal, seguisse seu caminho, na tarde do último dia 2. O coletivo estava na Avenida Getúlio Vargas, quando apresentou problemas e acabou atrapalhando a circulação de outras linhas até ser retirado. “Esse ônibus 208 está com o piso bem ruim perto da roleta. As pessoas até tropeçam”, relata uma passageira que enviou fotos para o WhatsApp da Tribuna, mas preferiu não ser identificada.
Bancos soltos e molhados
No dia 15, o almoxarife Douglas Ezídio, 22, embarcou em um ônibus da linha 222 (Bom Pastor/Santa Catarina), da Ansal, e o coletivo estava com um dos bancos soltos. “Se fosse um idoso, poderia se machucar.” Para o balconista José Antônio Lima, 49, o problema são os buracos no teto dos ônibus da Viação São Francisco, especialmente os da linha 722, que o trabalhador mais usa em sua rotina. “Quando chove, molha quem está sentado. Às vezes, quando pegamos os ônibus, os bancos estão molhados por causa dos furos no teto.”
Baratas fazem usuários viajarem em pé
Por mais absurda que seja, a presença de baratas nos ônibus é relato constante entre os usuários. “Há poucos dias, (as baratas) subiram por dentro da calça de uniforme da minha filha”, diz a costureira Fátima Silveira, 45, usuária da linha 728 (Nova Benfica), da Viação São Francisco. “Gostaríamos de ser ouvidos pelos empresários, já que, no último aumento de passagem, uma das principais alegações era a necessidade de recursos para a manutenção dos carros. Temos ótimos motoristas na linha. Alguns chegam a se mostrar constrangidos em nos ver passar por essas dificuldades e não podem fazer nada”, ressalva a usuária. Assim como Fátima, dezenas de leitores se manifestaram no Facebook da Tribuna, após o jornal publicar recentemente vídeo e foto de baratas em carros da linha 222 (Bom Pastor/Santa Catarina), da Ansal, e 524 (São Mateus), da Tusmil.
A Viação Santa Luzia não fica de fora dos problemas. O jornalista Pedro Farnese, 29, registrou o momento em que passageiras da linha 134 (Bandeirantes) precisaram fazer a viagem em pé, mesmo havendo diversas poltronas disponíveis. O motivo: o ônibus estava infestado de baratas. A situação aconteceu no dia 16 de outubro. “A Viação Santa Luzia resolveu proporcionar uma tarde recreativa para nós passageiros e colocou algumas baratas no ônibus para incentivar a dança. Os bichos estavam tão empolgados que queriam estabelecer contato pele com pele. Uma loucura”, escreveu.
“Hoje na linha 700 do Barbosa Lage o ônibus estava cheio de baratas!!! Teve gente indo em pé com o ônibus vazio porque elas estavam andando pelos bancos”, relatou, no Facebook da Tribuna, a leitora Fabiana Acácio Coelho, usuária da Viação São Francisco.
Doenças
As baratas encontradas nos ônibus são as blatellas germânicas, popularmente conhecidas como baratinhas de cozinha. Conforme o biólogo Alexandre Lula, proprietário de uma empresa de dedetização em Juiz de Fora, esses animais vivem em locais secos e se alimentam de açúcar e gordura, ao contrário das baratas maiores, que se alimentam de fezes e vivem no esgoto. Ainda assim, há possibilidade de as blatellas germânicas serem vetores de doenças alérgicas, gastrenterites e fungos, por exemplo. “Qualquer praga busca o que chamamos de os três ‘as’: água, abrigo e alimento. No ônibus, as baratas encontram abrigo e alimento, que a própria população deixa cair.” Conforme o biólogo, nos períodos quentes, as baratas de cozinha tendem a sair mais do abrigo, tornando-se mais visíveis para os passageiros.
A solução para o problema? Alexandre Lula aponta caminhos integrados: por parte do usuário do transporte, evitar comer dentro do veículo e não grudar chicletes e balas nos bancos; por parte das empresas, manter os ônibus limpos e aumentar a frequência da dedetização.
“Entrar pela porta da frente e sair pela traseira dedetizando o ônibus em três minutos não resolve. Esse é um trabalho que demanda tempo e custo. Muitas empresas sem registro de alvará sanitário oferecem esse serviço, e as empresas de ônibus, muitas vezes, fazem a dedetização uma vez por ano. Mas os produtos licenciados pelo Ministério da Saúde para uso em meio urbano indicam que o efeito dura 90 dias. Lógico que, se dedetizado de forma correta, o foco da praga pode demorar mais de 90 dias para reaparecer. Mas o fato é que os ônibus precisam passar por esse procedimento com uma frequência maior”, opina.
O subsecretário de Mobilidade Urbana, Mauro Branco, disse que, após os casos recentes de baratas nos coletivos, as empresas foram notificadas. Algumas enviaram documentos comprovando a dedetização. Outras prometeram ainda antecipar o procedimento, dedetizando os veículos antes do prazo programado.
Empresas prometem melhorias
A Tribuna entrou em contato com todas as seis empresas que operam atualmente na cidade, questionando como é feita a manutenção dos ônibus e como pretende melhorar a prestação do serviço, caso vença a licitação. Apenas duas se manifestaram. A Tusmil, que conta com frota de 105 veículos em circulação, disse que a “a manutenção é feita periodicamente de forma preventiva e corretiva. A preventiva é feita de acordo com a quilometragem e a corretiva, de acordo com a solicitação dos nossos operadores. A limpeza é feita diariamente.” Em relação à dedetização, informou que ela é realizada a cada 90 dias, sendo que, a partir do mês passado, o serviço foi terceirizado. A empresa disse que participará da nova licitação do transporte. Questionada sobre como pretende melhorar a qualidade dos ônibus para o usuário caso vença a concorrência, respondeu que “renovando a frota de acordo com o edital”.
Com 68 ônibus em circulação, a Ansal também respondeu a reportagem e informou que a manutenção dos carros realizada preventivamente, de acordo com a quilometragem, e corretivamente, se detectado algum problema. Já a limpeza interna, externa, varrição e lavagem de todos os veículos da empresa são feitas diariamente. Sobre a dedetização, a Ansal informou que é feita “por empresa contratada (Premium Controladora Ambiental), com periodicidade de 90 dias. Em caso de constatação de problemas antes deste período, é feita uma nova dedetização”. A companhia também confirmou que pretende participar do novo processo licitatório. “Caso seja vencedora, a empresa irá fazer grandes investimentos em renovação de frota, investimentos em tecnologia embarcada, atendimento de todas as exigências do edital, investimento em nova estrutura física, o que traz melhorias em todos os setores da empresa como manutenção, higienização, segurança, e que afeta diretamente a qualidade do serviço prestado.”
As outras empresas – Goretti, Auto Viação Norte, Viação Santa Luzia e Viação São Francisco – confirmaram que receberam as perguntas encaminhadas pela Tribuna, mas não responderam às demandas.
Settra garante que faz vistoria anual de carros
A Settra garante que realiza a vistoria anual de todos os coletivos e que fiscaliza a prestação do serviço, mas diz que a verificação de problemas depende de denúncias dos usuários. “Contamos muito com apoio da própria população para nos ajudar a identificar os problemas”, diz o subsecretário de mobilidade urbana, Mauro Branco. Há basicamente três formas de denunciar: pelo e-mail [email protected], pelo telefone (32) 3690-8218 ou ainda por mensagem de SMS para o celular (32) 98422-4672. Conforme a Settra, uma vez feita a denúncia, o registro de ocorrência é encaminhado para fiscalização. Apurado o fato, a empresa é notificada e pode ser multada. Entre 12 de setembro e 13 de outubro, a Settra recebeu sete reclamações relacionadas à manutenção do transporte coletivo.
Período de transição
A Prefeitura aposta na licitação como solução de parte dos problemas. A idade média dos ônibus, que hoje é de 6,5 anos, será reduzida para 5 anos. Mas o tempo máximo de circulação continuará em dez anos. Todos os parâmetros de qualidade da prestação do serviço estarão previstos em contrato, conforme o subsecretário de Mobilidade Urbana. “Uma das grandes vantagens da licitação é o contrato, a regulação. O processo licitatório é o marco regulatório em que se define com o prestador do serviço os parâmetros específicos de funcionamento”, esclarece Mauro Branco. “A partir do processo licitatório, está prevista a colocação de 40 veículos ao longo dos dois anos e a renovação da própria frota.”







