Deixa o menino jogar

Leston Júnior (de azul), técnico do Tupi, em visita ao projeto da UFJF: falta interação (Leonardo Costa/tupifc.esp.br/24-09-15)
Em nove dias o futebol de Juiz de Fora pode quebrar uma marca histórica. Pela primeira vez um clube da cidade poderá conquistar o direito de jogar a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. Caso elimine o ASA-AL no jogo de volta do dia 19, às 20h30, em Arapiraca, o Carijó terá muito o que comemorar. O início de uma nova fase que servirá, principalmente, para a reflexão sobre um futuro sustentável, que passa pela valorização dos talentos que crescem nas várzeas da região.
Curiosamente, apesar da difícil realidade financeira enfrentada, o único clube profissional da cidade não possui formação de atletas em divisões de base. Ano após ano o Tupi monta e desmonta elencos com jogadores de diversas partes do Brasil, mas pouquíssimos são de Juiz de Fora. O único do grupo atual que passou pela base carijó, quando essa ainda existia, é o lateral-esquerdo Thiaguinho. Além dele, o goleiro João Paulo também é juiz-forano e teve passagem pela base do Sport, mas chegou diretamente ao profissional do Alvinegro após passar por uma peneira no início do ano.
“Cheguei ao Tupi em 2009, com 16 anos”, lembra Thiaguinho. “Fiquei um ano na base e fui cedo para o profissional. Fui me mantendo no elenco, mesmo com poucas oportunidades por ser inexperiente. Aqui em Juiz de Fora o trabalho de base é escasso. Comecei no Tupynambás, que é perto da minha casa. Infelizmente o Tupi é o único profissional. Juiz de Fora tem muitos atletas com qualidade, mas o investimento é pequeno para que tenham suporte até o profissional”, diz o lateral de 22 anos e ainda sem oportunidades de atuar com o técnico Leston Júnior.
Nas maiores agremiações do Brasil, o custo de manutenção de cada categoria das divisões de base é de aproximadamente R$ 200 mil por ano. Valor que pode ser recuperado na negociação de atletas. Mesmo assim, o principal clube da cidade afirma não ter condições de colocar em prática o investimento. “Futebol é, no mínimo, 70 refeições por dia, com moradia para vários jogadores. Me perguntam o motivo de não investir na base. Fazer o profissional já é difícil, imagina investir na base?”, avalia o vice-presidente do Conselho Gestor do Tupi, Cloves Santos. “Base exige responsabilidade com crianças. É financeiro, estrutura, coisas que a gente entende que precisamos ter, mas não temos e não vamos conseguir fazer do dia para a noite. Para conseguir essa estrutura, precisamos chegar à Série B.”
Baeta
A tradição do Tupynambás no futebol tem sido recuperada com a participação em torneios de base. Após participar da Taça BH Sub-15 e ter inscrito duas equipes na Copa Prefeitura/Bahamas de Futebol Amador, o Baeta tenta agora participar do Campeonato Mineiro juvenil. Mas assim como busca sucesso dentro de campo, o técnico Zé Luis acredita que o trabalho pode contribuir no desenvolvimento pessoal de cada garoto envolvido no projeto. “Nosso pensamento é formar os garotos, dando oportunidades para que, caso seja possível, cheguem a um time profissional. Nossa região é muito boa, rica em atletas, mas que eles também sejam homens com responsabilidades e não olhem só para o dinheiro”, orienta Zé Luis.
A cada mil, três se tornam profissionais
Com foco diferente dos trabalhos tradicionais que visam ao lucro com o futebol está o projeto de extensão Futebol UFJF. Criado em abril de 2004, o trabalho coordenado pelo professor Marcelo Matta orienta aproximadamente cem garotos do sub-13 ao sub-17. Muito além do desenvolvimento de atletas profissionais, está a conscientização sobre a formação humana.
“As estatísticas são cruéis. A cada mil jovens, só três conseguem ascender ao profissionalismo. E desses, 89% ganham entre um e dois salários mínimos, enquanto apenas 1% recebe acima de 20 salários. Vamos desenvolver o potencial dos meninos, mas que saibam da realidade que poucos chegam lá. Cabe a eles se prepararem paralelamente para uma outra profissão”, destaca Matta, confiante que a mudança na legislação do futebol promovida esse ano será capaz de abrir um novo futuro para os formadores de atletas.
“Hoje a lei favorece o clube. Antigamente, os pequenos investiam na base, mas aí vinha um empresário e levava o jogador, sem que o formador tivesse retorno. Com a mudança imposta pela Fifa em abril (somente os clubes podem ser donos de direitos federativos e econômicos de jogadores), o clube consegue ser formador e ter uma parcela daquele rendimento. Se você vende um jogador por milhões, ele dá suporte ao profissionalismo. Aí pode ser um negócio sustentável.”
Neste fim de semana, os garotos da equipe sub-13 da UFJF participam da sétima edição do Circuito Cruzeiro Base Forte, torneio disputado dentro do centro de treinamento Toca da Raposa, em Belo Horizonte. Realizado hoje e amanhã, o evento envolve a participação de mais de 400 atletas em busca do primeiro passo para uma carreira no futebol profissional. “Vai ser uma grande experiência na vida deles estar dentro de um centro de treinamento que é reconhecido nacionalmente. Os meninos acalentam esse sonho de se tornarem jogadores de futebol e vão poder competir em um nível elevado, tendo a oportunidade de ser observados pelo Cruzeiro. Isso é muito legal”, celebra Matta.
CEU: exemplo de profissionalismo
Enquanto Juiz de Fora luta para consolidar projetos de formação, alguns com estrutura física deficiente e tendo ainda que lidar com um mercado interno incapaz de absorver ao menos uma pequena parte dos jovens atletas, um trabalho realizado desde 2010 na vizinha cidade de Ubá tem chamado atenção.
Com o objetivo de gerar lucro como uma empresa tradicional, o Centro Esportivo Ubaense (CEU) é focado na formação de atletas desde o sub-10 e tem se tornado referência nacional, atraindo olheiros de clubes como Flamengo, Cruzeiro, Atlético-MG, Grêmio, Internacional, Atlético-PR e Coritiba. Em um espaço de 100 mil metros quadrados, o CEU possui cinco campos, salão de eventos, um campo de grama sintética e alojamento para as categorias sub-15 e sub-17. Estrutura que gera resultados para quem sonha com o futebol profissional, atraindo aproximadamente 800 garotos todos os anos.
“Não nos identificamos como um clube de futebol. Nosso foco é trabalhar com atletas de 10 a 15 anos. Porém, no próximo ano, vamos iniciar um projeto com equipes sub-15 e sub-17, trabalhando para disputar o Campeonato Mineiro. Além disso, iniciamos um processo de monitoramento e capacitação de atletas para a próxima Copa São Paulo. Fizemos uma parceria com o Rondonópolis-MT. Vamos usar o nome deles, mas com a nossa equipe e metodologia de trabalho própria”, diz Leôncio Pacheco, coordenador de futebol do CEU.
95% ambidestros
Atualmente, o Centro trabalha com quase cem garotos, além de já ter direcionado outros 35 para divisões de base de clubes tradicionais. Segundo Pacheco, fruto de um trabalho que começa cedo. “Chamamos os 10 anos como ‘idade de ouro’, que é quando o atleta está formando a base motora. É ali que conseguimos corrigir erros de coordenação. Por exemplo, 95% dos nossos atletas são ambidestros devido ao trabalho de bilateralidade. Apesar de ser um investimento a longo prazo, o retorno se torna maior pelo número de atletas que colocamos no mercado. Os grandes clubes só podem receber os jogadores a partir dos 14 anos (até os 13, os meninos não podem ficar alojados). Nós antecipamos o trabalho para eles.”
O CEU tem em seu planejamento o aproveitamento de garotos que permanecerem no Centro para um dia também formar sua própria equipe de futebol profissional. “Os que não são inseridos em outros clubes dão sequência conosco aqui. Isso (equipe profissional) vai acontecer. Nosso foco é diferente. Não jogamos em função de competição. Não estou preocupado com o jogo do final de semana. Estou preocupado em formar esse atleta, para que quando estiver com 14, 15 anos, esteja com base para ser inserido em grandes clubes. Trabalhamos as partes física, técnica, tática e psicológica. O jogador só tem a responsabilidade de estudar e jogar futebol. São cobrados pelo desempenho na escola. É um trabalho social sem custo para o atleta. Depois, o Centro trabalha como empresário.”









