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Inspiração por inspiração


Por GUSTAVO PENNA

20/09/2015 às 07h00

olavo prazeres/17-09-15

olavo prazeres/17-09-15

“Se as coisas são inatingíveis… ora! / Não é motivo para não querê-las… / Que tristes os caminhos, se não fora / A presença distante das estrelas!” A leitura do poema “Das utopias”, de Mario Quintana, foi a gota que transbordou a emoção do mesatenista paralímpico Alexandre Ank. Para quem superou as limitações da tetraplegia desde os 17 anos, até a recente conquista de duas medalhas nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto, no Canadá, receber o carinho de garotos acautelados no Centro Socioeducativo Santa Lúcia teve um significado especial. Acostumado à emoção de ouvir o hino nacional no pódio, o paratleta juiz-forano foi surpreendido pela homenagem da última quinta-feira.

“Foi uma surpresa muito grande. Achei que eu ia fazer o que já estava acostumado: jogar basquete e tênis de mesa com eles depois de uma palestra. E foi um dia atípico para mim, que me fez muito bem. Apesar de eles estarem ali em período de reclusão, trazem uma energia muito boa pelo carinho e respeito que têm comigo. Quando fui ver, estava o meu nome na porta, cartazes em homenagem, a recepção com balões dando os parabéns. Foi muito gratificante. Fiquei muito feliz, não tem como expressar esse sentimento. A molecada me fez chorar”, vibra Alexandre Ank.

O reconhecimento das conquistas de Toronto não veio por acaso. O mesatenista regularmente dedica seu tempo a visitar os garotos do Centro. A história de superação de Alexandre Ank mostra que existe esperança mesmo em situações críticas. “Eu faço um comparativo com eles. Eu sofri um acidente e fiquei 12 dias em coma. Depois foi quase um ano internado em uma cama de hospital. Era dependente nas necessidades básicas. Eles estão aqui dentro e podem andar, correr, pular. Eu não tive essa escolha. Não digo que sou melhor ou pior que eles, mas foi um momento muito duro, muito difícil, no qual tive que pensar, valorizar as pessoas que gostam de mim e buscar uma forma de me reinventar na vida. A mensagem que levo é que, se eu consegui dar a volta por cima, eles podem também. Eu acredito neles”, afirma Alexandre Ank.

Exemplo

Um dos jovens que trouxe o poema de Mario Quintana para a homenagem foi Y.S., 18 anos. Vivendo no Centro há pouco mais de dois meses, o garoto ainda não sabe por quanto tempo permanecerá acautelado, mas afirma já ter conhecido um exemplo para se espelhar no futuro. “A gente precisa ter muita determinação e correr atrás do que queremos. Ele sofreu o acidente, mas mesmo assim deu a volta por cima. Serve como inspiração. Ele lutou muito para conseguir o que queria, teve garra e determinação. Se eu fizer a mesma coisa, vou conseguir também. Tenho o Alexandre como um grande exemplo de superação.”

Ressocialização pelo esporte

O trabalho realizado no Centro Socioeducativo Santa Lúcia para promover a ressocialização através do esporte já mostra resultado. Um dos agentes socioeducativos que participou do início do projeto, Janderson Maia comemora as mudanças percebidas na postura dos acautelados, em especial após o início da convivência com a trajetória de Alexandre Ank. “Quando eles começaram a ver que é possível vencer e ter um exemplo de vida, tivemos um resultado aqui. Muita coisa mudou. O índice de deslizes de conduta diminuiu tanto no período em que ele esteve aqui que vimos como é importante alguém trazer um exemplo”, afirma Janderson Maia.

Entre atividades físicas e palestras, alguns jovens já conseguem se destacar em competições fora do Centro. F.N. foi medalhista em alguns torneios após ser incentivado aos treinamentos de mountain bike. Já J.S., que teve sua história contada na edição de 16 de agosto da Tribuna, se prepara para a segunda partida do Tupynambás na Copa Prefeitura/Bahamas. Após ser titular na estreia, o garoto sonha ainda mais alto. “Essa oportunidade mudou o jeito de ver a vida. Estou me dedicando mais. No fim do ano vai ter a Copa São Paulo (de Futebol Júnior), e o treinador falou que está querendo me levar, apesar de ser novo. Pode ser a oportunidade da minha vida.”

Já G.A. tem apenas dois meses como acautelado, mas chamou atenção com o talento para o atletismo. “Comecei no salto em distância aqui dentro. Lá no ‘mundão’ não tinha tempo para isso, não. Mas apareceu a oportunidade e eu participei da olimpíada aqui dentro. Saltei 5,2m sem nunca ter treinado. Aí me falaram que se surgisse uma oportunidade iriam me chamar. Estou esperando.”

Bate-volta

E como a toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade, não foram só os garotos que se beneficiaram com as visitas de Alexandre Ank. “Esses garotos vêm de uma parte da sociedade com muito sofrimento e dificuldade, mas admiram o meu trabalho e a minha história. Isso renova minhas energias. Faz um bem danado. Tinha tudo para eu chegar ali e eles virarem as costas. ‘O que é que esse cara na cadeira de rodas tem para falar para mim?’ Mas, pelo contrário, eles chegam, conversam e ficam doidos para jogar comigo. A gente reclama muito da violência. Mas como estamos contribuindo para tentar diminuí-la? Não é cadeia que resolve. Temos que criar oportunidades de reabilitar e qualificar essas pessoas, para que consigam sobreviver depois do lado de fora”, defende Ank.