(C)idade do serrote

Murilo Mendes: Eu tenho uma pena do rio Paraibuna

Nascido na Rua Direita (Rio Branco), Murilo conta que gostaria de viver no alto do Morro do Imperador
Caro Murilo,
Alguns pianos se foram, e hoje o barulho dos carros, o intenso vaivém dos pedestres e os muitos prédios que não viu “crescer” fazem parte daquela sua “Juiz de Fora (que) parecia constituir uma única família”. Os asfaltos demais e as árvores de menos deixaram, também, a cidade menos fria. Quanto ao que pontua logo no início de seu “A idade do serrote” – “Temporal sobre a cidade. Chuva de granizos. O arco-íris no morro do Imperador” – ainda vemos de nossas janelas. Há poucas semanas, o granizo era tamanho que mais parecia neve. Ares europeus que você enxergava, e nós também. Dificilmente, hoje, seria possível, como conta, um corpo ser velado na Câmara e levado, a pé, ao Cemitério Municipal, como foi feito com seu pai, aquele que “prolongou além da sua casa o círculo da família, sem jamais fechar ao pobre o olhar e a bolsa”. A paisagem, agora, é maior, mais ampla, porém mais pobre sem os muitos casarões dos quais falou, como o de seu Professor Aguiar, na Rua da Liberdade (atualmente chamada de Rua Floriano Peixoto). Na semana em que sua despedida completa quatro décadas, pedimos licença para refazer alguns trajetos tratados, por você, com tanto afeto em seu livro de memórias publicado em 1968. Obra serrilhada, como as lembranças de menino. Obra que é registro, imagem e ode.
Com afeto,
‘Paraibunda’
Aquele “rio-afluente de águas pardas”, “que fazia muita força para atingir os pés do pai Paraíba”, já deu lugar, no início do século XX, às lavadeiras e seus sabões. “Lavadeiras na margem direita do Paraibuna ou também Paraibunda pois ali se avistavam às vezes certas partes esotéricas do corpo das lavadeiras e suas amigas, a paisagem vista daquelas partes é uma beleza.” Aos que passam nos dias que correm é apenas passagem, moradia das capivaras e espaço de muito lixo e escoamento do esgoto local. De acordo com a Cesama, o tratamento do esgoto produzido na cidade deve começar em janeiro de 2016, com uma rede coletora nos córregos e uma interceptora, às margens da Avenida Brasil.
Chicó e Titiá
Barão do Rio Branco, eis o nome atual da sua Rua Direita. Hoje avenida, com cerca de seis quilômetros de extensão, por ela passam, diariamente, na altura do Largo do Riachuelo, cerca de 27 mil veículos, segundo estimativa da assessoria de comunicação da Secretaria de Transporte e Trânsito (Settra). “Saio a passeio com meu pai ao longo da conversadora rua Direita que me serve de salão, colégio e porto. Encontramos tanta gente”, escreve o poeta em “A idade do serrote”, preservando uma das características mais fortes do logradouro: ser ponto de encontro. Quanto ao conservadorismo, faz-se discutível, diante das tantas manifestações que se apresentam na via, como a Marcha para Jesus e a Parada Gay (este ano, transferida para a Getúlio Vargas). Na Direita/Rio Branco, também ficava a casa de Chicó e Titiá, forma como carinhosamente Murilo chamava os tios. “Cercada de um jardim, um imenso pomar e, finalmente, a mata, rica em árvores e bichos, e que durante 40 anos ou mais forneceu lenha à cozinha da minha tia. Essa propriedade constituiu para mim ‘le vert paradis des amours enfantines’ (o paraíso verde dos amores infantis)”, conta o escritor. “Ele frequentava muito esse casarão, tinha um fascínio por ele”, confirma a cunhada de Murilo, Zuleika Mendes, viúva de José Maria, irmão caçula do escritor. Com o passar do anos, o espaço restou, apenas, no livro e nas memórias. Hoje, dá lugar a um enorme prédio.
Onofre
Extinguiram-se as batalhas de confete, bem como é raro ver “o vendedor de algodão, doce de nuvem”. A Halfeld – “faço o footing na rua Halfeld da minha infância e adolescência”, conta Murilo – é outra, ainda que mantenha-se como passagem de diferentes figuras, como a cabeleireira, a bela dama, o escrivão, o farmacêutico, o rico e o pobre. Agora, porém, tudo deve ser dito no plural, já que são muitas as cabeleireiras, as belas damas, os escrivães, os farmacêuticos, os ricos e os pobres. Continua a ser “uma reta muito comprida, começando às margens do Paraibuna e terminando além da Academia de Comércio”. Porém, não há mais a imagem de meados dos nos 1900: “Nos dois lados levantam-se casas, sobressaindo, pelo menos no meu tempo de menino, a Livraria Editora Dias Cardoso, uma das minhas delícias de então; e a Casa da América, sortida com uma infinidade de objetos e instrumentos de toda espécie”. Na década de 1970, esse trecho da cidade transformou-se em calçadão e ganhou força no comércio local, o que tem sido nos últimos anos alterado devido às muitas modificações provocadas pela perda de lojas tradicionais. Fundado por Onofre, pai do poeta, o Politeama, “o vasto cinema-teatro local”, deu lugar, na década de 1920, ao Cine-Theatro Central, um dos principais cartões-postais de Juiz de Fora.
Zuleika
Ao lado da Halfeld, a Marechal Deodoro foi o endereço de um Murilo jovem. Nascido na Rua Direita, mudou-se com o pai, a madrasta (“segunda mãe”) e os irmãos para a casa onde fica, hoje, o prédio mais conhecido como PAM-Marechal. Segundo a cunhada, Zuleika Mendes, que viveu na residência por dois anos, era um imóvel térreo, com uma varanda lateral, jardim e um belo pomar que ia até a Mister Moore. Além dos cinco quartos, a casa contava com salas de almoço, jantar e visita, afora dois quartos de empregada com banheiros no quintal. Uma das ruas com maior presença de imóveis tombados, o lugar ainda preserva os ares do passado, com seu agigantado prédio dos Correios a saltar aos olhos. Preserva algo que o poeta viveu. Vida na qual Zuleika destaca a cordialidade. “O Murilo poeta era muito excêntrico. Lembro-me de que ele não recebia visitas antes das 15h. Depois do almoço, ninguém o tirava do repouso. Já no meio da família, era de uma simplicidade franciscana.” A cidade, em suas formas e cores latentes (ontem e também hoje), costurou as asas do poeta, como confirma ao fim de seu “A idade do serrote”: “O prazer, a sabedoria de ver, chegavam a justificar minha existência. Uma curiosidade inextinguível pelas formas me assaltava e me assalta sempre. Ver coisas, ver pessoas na sua diversidade, ver, rever, ver, rever. O olho armado me dava e continua a me dar força para a vida.”








