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Márcia Tiburi lança livro sobre ética no cotidiano em Juiz de Fora


Por MARISA LOURES

23/10/2014 às 07h00

Marcia Tiburi é a convidada do projeto

Marcia Tiburi é a convidada do projeto “Seempre um papo”, realizado nesta quinta-feira no Mamm

As colocações inteligentes de Marcia Tiburi no programa “Saia justa”, do canal GNT, tornaram-na conhecida nacionalmente como uma filósofa pop. À Tribuna, por e-mail, ela dá motivos para entendermos o apelido. “Eu não escrevo filosofia em caixa alta. Para mim, filosofia, assim, em caixa baixa, é experiência de pensamento, cuja característica é o diálogo, um encontro sério entre diferenças, mas também a crítica entendida como desmontagem. É desconstrução de verdades preestabelecidas no âmbito do senso comum. Filosofia é a experiência de pensamento, é experiência de linguagem. O diálogo é, a meu ver, a grande contribuição da filosofia para a nossa época.”

Foram cinco anos dizendo o que pensa na TV. “Viver é uma saia justa”, conclui a escritora, professora e colunista da revista “Cult”. Autora dos romances “Magnólia” (Bertrand, 2005) e “Era meu esse rosto” (Record, 2012), finalistas dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom, entre outros títulos, ela é a convidada do projeto “Sempre um papo – Literatura em todos os sentidos”, programado para esta quinta-feira, às 19h30, no Museu de Arte Murilo Mendes. “Filosofia prática – Ética, vida cotidiana, vida virtual” (Record), mais nova obra de sua autoria, é o tema do bate-papo em Juiz de Fora. “Este não é um livro de respostas, mas de questões”, enfatiza.

– “Não acho que o Brasil seja mais sensorial e menos intelectual. Acho que somos mais pobres e mais abandonados (…) Talvez ‘o Brasil’, este povo brasileiro, tenha que aprender a se pensar mais”, disse você em uma entrevista, em 2008. O que você acha do Brasil hoje?

Márcia Tiburi – Continuo pensando a mesma coisa, mas podemos acrescentar tudo o que escrevi em meu livro “Filosofia prática”, que devemos nos preocupar atualmente com o fascismo crescente, com a tendência crescente do ódio ao outro, ao diferente, ao que não se encaixa no padrão da identidade de classe, sexual, de raça e gênero, dominantes. Vivemos em um contexto cuja característica é a ausência de pensamento qualificado, ausência de preocupação com o próprio pensamento, ausência, em outras palavras, de reflexão. Isso é comum em todos os contextos fascistas. Temo que isso cresça mais ainda se não usarmos um “alarme de incêndio”. A filosofia é esse alarme de incêndio.

– Certa vez, você disse que o problema das redes sociais é a ausência de reflexão e o vazio do pensamento…

– “Filosofia prática” é, em seu todo, uma reflexão sobre esse aspecto tanto no que concerne à vida cotidiana propriamente dita, quanto no que diz respeito ao que chamei de “cotidiano virtual”. Não é espantoso que as pessoas se interessem mais pelo virtual hoje em dia do que pelo concreto da vida? Não é impressionante que as pessoas conduzam suas vidas hoje em dia pela relação com as redes sociais? Não vejo nenhum mal nas redes a não ser o fato de que muitos se esquecem de que elas são meios e não fins.

– Qual sua opinião sobre as discussões políticas neste ambiente virtual?

– As pessoas comentam que o nível intelectual e moral dos candidatos está baixo. A política há muito tempo foi reduzida à publicidade. O atual debate de baixo nível responde a esta necessidade publicitária de parecer isso ou aquilo pelo ataque pessoal ao outro. Precisamos da reforma política, creio que ela ajudará a mudar também a nossa mentalidade política, porque é fato que a mentalidade política dos brasileiros precisa melhorar.

– Você sempre diz que o controle da vida da mulher é uma questão política…

– O controle da “vida” das mulheres é, sem dúvida, uma questão política, mais precisamente, “biopolítica”, porque implica o cálculo que o poder faz sobre a “vida”. A vida das mulheres, assim como a dos escravos e dos animais, bem como dos indígenas e dos pobres, sempre valeu menos no contexto do patriarcado, que é a versão de gênero do sistema econômico e social que chamamos de capitalismo.

– A participação no “Saia justa” mudou ou acrescentou algo a sua percepção do gênero feminino?

– Me ajudou a me tornar mais feminista. Percebi que as pessoas precisam posicionar-se mais claramente acerca do feminismo. Quero dizer com isso que é praticamente um dever para mulheres em nossa época afirmarem seu feminismo. Não estaríamos aqui, fazendo o que queremos, se não fossem as lutadoras históricas que abriram caminho para nós. Temos que continuar, por solidariedade no tempo, abrindo caminho para as que virão.

– Como autora do livro “Olho de vidro: A televisão e o estado de exceção da imagem”, você gostou da sua hiperexposição na TV?

– Valeu qualquer esforço para escrever “Olho de vidro”. Trata-se de um livro de política da imagem. Certamente eu, que não vejo TV, que nem tenho TV em casa, não teria a ideia de escrevê-lo, se não fosse a minha participação no “Saia justa”. Um detalhe importante é que, como não me vi, nem me vejo na TV, não sou uma “imagem” para mim, logo isso que você chama de “hiperexposição” não é um problema meu. Eu continuo livre da minha imagem, embora muita gente me conheça por essa imagem da televisão. Considerando que o Brasil dá mais valor à imagem e à televisão do que aos livros, ou à atividade intelectual e artística de alguém, eu não tenho qualquer ressentimento com a TV, ao contrário, para mim, ela foi boa.

– Quais as questões que movem sua escrita?

Quando escrevo filosofia, procuro “abrir os olhos” do meu leitor. Quando escrevo literatura, quero que ele experimente ficar em silêncio. O silêncio é precioso em um mundo espetacular e pleno de ruídos de todo tipo. O silêncio é o ambiente necessário para experimentar o pensamento em si e dialogar com o outro.