Jum Nakao aborda a moda em todos os sentidos

O estilista Jum Nakao ministrou workshop no fim de semana em Juiz de Fora
Sua certeza, de que para falar de moda não é, necessariamente, preciso tocar em tecidos, fez com que Jum Nakao, estilista brasileiro descendente de japoneses, transitasse por outros espaços, que não o das fitas métricas e agulhas. É dele a autoria do misto de figurino e cenário de guarda-chuvas azuis e brancos, com o qual a cantora Marisa Monte se apresentou no encerramento das Olimpíadas de 2012, em Londres. É dele, também, o design de uma mala de viagens em formato de caixa de som Fender, daquelas vintage. Sua assinatura também está no novo disco, “Matéria estelar”, da cantora paulistana Rhaissa Bittar, para o qual Jum faz direção de arte. Composta por mais de 130 mil balões e uma casa feita de espelhos, a instalação “Sonhos”, montada no ano passado no Shopping Pátio Batel, em Curitiba, também é ideia dele. O artista que chocou a edição de 2004 do São Paulo Fashion Week, na qual apresentou sua coleção de papel, mantém-se coerente com o próprio discurso de que a moda frequenta o campo do subjetivo, muito mais do que o palpável. Convidado para um workshop em Juiz de Fora no fim de semana passado, realizado pela produtora de moda F.Works, o homem de múltiplas faces e atuações conversou com a Tribuna. Vestindo uma camisa branca de laise, com suas iniciais bordadas no bolso, calça jeans e sandália preta, Jum Nakao mostra que vive, de forma intensa e consciente, a moda, que não pode estar ligada apenas ao tato ou à visão, mas a todos os outros sentidos. A moda, segundo ele, não é apenas a roupa.
Tribuna – Qual o valor da técnica em seu trabalho?
Jum Nakao – A técnica funciona como educação, que capacita e liberta as pessoas. Quando ensino a técnica é para que percebam que podem utilizar essa ferramenta na tradução de todas as potencialidades imaginativas que têm. Não acredito que uma pessoa consiga criar sem ter uma base técnica, mas ela nunca é suficiente, apenas uma forma de fazer com que o talento se manifeste de forma suficiente. A técnica é a base que dá materialidade ao talento.
– E você tem expressado seu talento em diferentes suportes, como nas artes plásticas, no mobiliário, na direção de arte e também na moda.
– Hoje trabalhamos com direção de arte em vários projetos, desde instalações, apresentações, conceitos de cinema, publicidade, design gráfico e muitos outros. A forma como você expressa uma ideia não é o princípio. A base é um conceito, e depois você vai buscar as ferramentas mais adequadas, assim como é a escolha das palavras na fala ou na escrita. O processo começa a partir de uma ideia a ser compartilhada, e, para que ela tenha a conexão emocional e afetiva, que faz com que as pessoas compreendam e se emocionam, buscamos suportes variados. Procuramos trabalhar de uma forma transversal, somando e integrando diversas linguagens, para, assim, construir uma experiência o mais abrangente possível. O ser humano é um ser complexo, não é um ser afetável apenas por um dos sentidos.
– Em algum momento você se distancia da moda?
– De forma alguma. A moda sempre esteve presente, seja de maneira direta – como recurso de linguagem, como figurino ou desenvolvendo uma coleção ou peça assinada -, ou através de cursos, em que compartilhamos todo o “know-how” de anos com jovens, capacitando-os para que eles assimilem o que garimpamos em vários anos e projetos, para que tenham a possibilidade de eles construírem suas próprias carreiras. Essa é uma forma de transformação não via obra, mas diretamente com matéria-prima humana. O mundo só muda se as pessoas mudarem.
– Consegue imaginar o futuro de nossa moda?
– Acredito que a moda caminha, cada vez mais, para uma relação muito mais pessoal e exclusiva com as pessoas. Vamos ter sempre o que chamamos de comunicação de massa, os produtos que são feitos em larga escala, o fast food. Fazendo um paralelo com um mundo que já é realidade hoje: na alta gastronomia temos cada vez mais pessoas se formando como chefs, entendendo sobre vinhos, culinárias exóticas e pratos sofisticados. Antes os restaurantes eram muito limitados em opções, e a oferta de produtos e equipamentos era baixa. Acho que este será o próximo passo da moda: o fast fashion vai compartilhar um mercado com produtos de altíssima excelência, o que vai fazer com que o fast fashion se aprimore cada vez mais. Hoje as pessoas estão, cada vez mais, querendo entender de moda, fazendo parte da cadeia produtiva, do universo, e não apenas como meros espectadores absorvendo tendências.
– Em 2004, você jogou luzes sobre uma discussão com o desfile-performance “Costura do invisível”, no qual modelos apresentavam roupas feitas em papel, que foram rasgadas no final. O que cabe na passarela de hoje?
– Quando fiz aquele projeto, há dez anos, acreditava que todo o sistema de moda precisava ser profundamente questionado, principalmente em um país como o nosso, onde a moda está muito conectada à materialidade. Moda é uma conexão emocional e imagética com o espectador. Por isso fiz um desfile de papel, que ao final foi todo destruído, ou seja, a materialidade é o que menos me importava. O que importa é o invisível, os universos “aspiracionais” com os quais a moda deve estabelecer conexão via emoção. As passarelas sempre tiveram um papel como grande palco. Muitos questionam esse espaço, pensando em locações cada vez mais inusitadas. Como o próprio teatro, que saiu do palco e foi para outros lugares. A experiência requer sempre um novo estímulo para que afete. Aquilo que já é conhecido, de certa forma, passa a ter efeito anestésico e não inquieta as pessoas. A moda, como o teatro, precisa rever seu palco e seu conteúdo, que continua o mesmo. Mudam-se os cenários, os protagonistas, mas a história continua a mesma.
– Como é possível escrever uma nova história?
– Acredito que, ao invés de pensar em conteúdo, é preciso pensar em conceito, para depois ter uma peça. Isso significa não colocar mais do velho, porque esse formato já está muito desgastado, em função, principalmente, da falta de sensibilidade e despreparo de todo o sistema. Enquanto esse sistema não estiver melhor desenhado, tanto em formação de profissionais quanto em qualificação, o sistema da moda acaba consumindo os próprios erros. Pouco mudou desde 2004. Tudo o que foi dito se comprovou como realidade nos anos seguintes, quando houve a derrocada do setor da moda no país, a falência que temos presenciado nas semanas de moda e na própria indústria.
– Ao contrário da nossa cena, sem muitas alterações, sua vida e sua atuação sofreram grandes transformações…
– Desde que fizemos aquele projeto, que foi quase um manifesto, percebemos que nossa atuação precisava se expandir, algo que não seria possível no próprio sistema da moda. Acredito que com esse cenário, no qual o próprio sistema é incapaz de atender a sua própria sobrevivência, tudo o que dissemos começa a ser compreendido e colocado em prática. A moda se engessou na roupa, no produto. Tanto em termos tecnológicos, defasada, quanto em termos emocionais, já que continua roupa e não moda. Percebo que existe uma nova geração de pessoas antenadas com conceito, qualidade e refinamento, trazendo frescor, novo fôlego, fazendo com que a moda passe a ser cultura.








