Por mais de 100 anos, o gelo manteve um segredo enterrado nas montanhas: agora, com o avanço do aquecimento global, objetos voltam à superfície e obrigam autoridades a realizar uma operação delicada
Os artefatos recuperados serão incorporados ao acervo do Museu da Guerra Branca, com inauguração prevista para junho de 2027.

Nos Dolomitas, cadeia montanhosa no norte da Itália, o derretimento acelerado das geleiras trouxe à tona um arsenal silencioso da Primeira Guerra Mundial. Projéteis de artilharia italianos e morteiros franceses, guardados no gelo há mais de 100 anos, começam a reaparecer com o aquecimento do planeta.
O Exército Italiano confirmou a descoberta de armamentos do conflito conhecido como “Guerra Branca”, travado entre tropas italianas e o Exército Austro-Húngaro entre 1915 e 1918. O fenômeno levou autoridades a uma operação de busca e neutralização em toda a região de Trentino-Alto Ádige durante a campanha de verão.
A operação de recuperação nas geleiras
Excursionistas foram os primeiros a relatar munições encontradas na região de Canal San Bovo, no Vale do Primiero, na província de Trento. A partir desse alerta, a Brigada Alpina Julia organizou uma grande operação militar em áreas de alta altitude e geleiras para localizar e desativar esses artefatos perigosos.
A Brigada recuperou e neutralizou mais de 250 explosivos ao longo da operação. Na região de Canal San Bovo especificamente, militares encontraram 18 projéteis de artilharia italianos de 75 milímetros e 37 projéteis de morteiro Thevetot. Um modelo francês que também foi fornecido ao Exército Real Italiano durante o conflito.
Clima extremo acelera descobertas perigosas
Stefano Morosini, professor da Universidade de Bergamo e coordenador de projetos de patrimônio do Parque Nacional de Stelvio, aponta que o aquecimento global é o culpado direto pelo derretimento que expõe esses artefatos.
Os verões europeus cada vez mais intensos tornaram as geleiras dos Dolomitas progressivamente inacessíveis e instáveis. Em 2022, quando a geleira Marmolada sofreu um colapso, 11 pessoas morreram no local. A velocidade com que as geleiras recuam hoje permite que qualquer visitante perceba, na prática, os impactos concretos das mudanças climáticas na região.









