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O que parecia apenas mato escondia uma antiga rede de aldeias e estradas na Amazônia e revelou sinais de uma ocupação planejada da floresta há séculos

Descoberta reescreve a história da Amazônia pré-colombiana ao comprovar que civilizações indígenas já possuíam infraestrutura urbana sofisticada há 2.500 anos.


Por Bernardo Teixeira

01/11/2026 às 20h39

O que parecia apenas mato escondia uma antiga rede de aldeias e estradas na Amazônia e revelou sinais de uma ocupação planejada da floresta há séculos
Foto: Elif Ilkel/Pexels

Imagens de laser revelaram sob a floresta densa do Equador um complexo de aldeias interligadas por estradas que alcançam até 2 km de extensão. O achado antecede a chegada dos europeus ao continente e demonstra um planejamento urbano muito mais sofisticado do que se esperava para a região amazônica.

Essas ocupações começaram a surgir há cerca de 2.500 anos, muito antes de qualquer contato com colonizadores. Sob a cobertura verde que parecia intocada, escondia-se toda uma infraestrutura: praças, moradias e terrenos preparados para o cultivo de alimentos, tudo organizado segundo uma lógica territorial clara.

Como o mapeamento revelou a cidade oculta

A tecnologia por trás da descoberta é o LiDAR, sistema que dispara pulsos de laser e consegue atravessar a vegetação para registrar com precisão o que há no solo abaixo. O estudo publicado na revista Science em janeiro de 2024, liderado pelo arqueólogo francês Stéphen Rostain, combinou esse mapeamento aéreo com décadas de trabalho em escavações de campo.

No Vale do Upano, próximo à Cordilheira dos Andes, os levantamentos contabilizaram mais de 6 mil plataformas de terra construídas pelos antigos moradores. O território mapeado, que se estende por aproximadamente 300 quilômetros quadrados, concentra pelo menos 15 núcleos habitados, muitos deles organizados em volta de praças que sustentavam estruturas de madeira.

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Antoine Dorison/Stéphen Rostain

A rede de estradas que unia comunidades distantes

Entre os achados mais notáveis está um sistema extenso de caminhos escavados diretamente no terreno. Retas, largas e bem definidas, essas vias se prolongavam por quilômetros e permitiam o trânsito constante entre os diferentes grupos que ocupavam a região, além de facilitar as trocas entre as comunidades.

Além das estradas, o levantamento identificou terraços para plantio, sistemas de drenagem e áreas de cultivo que revelam como o espaço era moldado conforme as necessidades cotidianas. A moradia e a produção de alimentos conviviam lado a lado, numa divisão de uso do solo que exigia coordenação clara entre os grupos.

A população desses centros urbanos chegava a pelo menos 10 mil habitantes e pode ter alcançado entre 15 mil e 30 mil no auge. As maiores estradas tinham 10 metros de largura e se estendiam por 10 a 20 quilômetros.

As culturas que construíram essa civilização

As evidências arqueológicas apontam as culturas Kilamope e Upano como responsáveis por essa ocupação planejada. As primeiras plataformas de terra remontam a cerca de 500 a.C., enquanto os vestígios associados a esses grupos se estendem até aproximadamente 300 a 600 d.C.

A distribuição das estradas e das construções sugere que essas comunidades mantinham trocas constantes entre si, muito além de uma simples vizinhança territorial. A disposição das praças e dos espaços agrícolas bem definidos reforça a conclusão de que havia um sistema elaborado de trabalho organizado para conceber e construir as estradas e montes de terra que caracterizam o assentamento.

O conjunto de achados reescreve parte da história da região antes da colonização europeia, revelando que povos indígenas já erguiam estradas, planejavam comunidades e cultivavam a terra de modo sistemático muito antes de qualquer mapa europeu registrar aquele pedaço de floresta.

O que muda na forma como entendemos a Amazônia pré-colombiana

Até agora, predominava a visão de que a Amazônia antes dos europeus abrigava principalmente povos nômades ou pequenas aldeias espalhadas. A descoberta das cidades interligadas muda essa compreensão: havia civilizações complexas, com infraestrutura urbana planejada, divisão clara de espaços para moradia e produção e conexões entre comunidades que funcionavam há séculos.

As populações indígenas também organizavam territórios em larga escala, geriam recursos e mantinham redes sociais sofisticadas, sem os materiais de construção usados por outras civilizações.

Vista aérea de uma floresta exuberante em Filadélfia, PA, com um rio sinuoso correndo através da vegetação densa.
Foto: K/Pexels

Se essas cidades foram descobertas agora, elas desapareceram completamente? O que aconteceu com as populações?

O artigo e as fontes indicam que a ocupação ligada às culturas Kilamope e Upano se estendeu até aproximadamente 300 a 600 d.C. Depois, não há registro de continuidade desse complexo urbano, e as fontes não explicam o que levou ao abandono dessas cidades.

Apenas mencionam que a região fica “à sombra de um vulcão que possibilitou solos ricos para agricultura, mas que também pode ter levado à destruição da sociedade”. As razões específicas do desaparecimento dessas civilizações urbanas permanecem uma questão em aberto para futuras pesquisas arqueológicas.

O achado do Equador faz parte de uma mudança maior na arqueologia amazônica

A descoberta no Vale do Upano não é isolada. Pesquisas recentes encontraram evidências de sociedades da floresta tropical anteriores ao contato europeu em outros lugares da Amazônia, inclusive no Brasil e na Bolívia.

Isso indica uma tendência crescente na arqueologia: à medida que novas tecnologias de mapeamento se tornam disponíveis, pesquisadores revisam o que se sabia sobre civilizações amazônicas em toda a região. O Vale do Upano é um exemplo dessa mudança e faz parte de um panorama mais amplo, no qual a Amazônia pré-colombiana é reconhecida como mais habitada, organizada e diversa do que os registros históricos europeus sugeriam.