Durante décadas, cientistas acreditaram que recém-nascidos ainda não tinham consciência, mas novos experimentos estão colocando essa ideia em xeque
A descoberta levanta questões profundas sobre se a consciência é realmente necessária para a competência e a inteligência.

Entender em que momento e de que maneira a consciência humana surge é um dos objetivos de pesquisadores que se debruçam sobre o funcionamento do cérebro. Para isso, investigam bebês recém-nascidos: embora seus cérebros ainda estejam se desenvolvendo, eles podem já apresentar sinais de consciência do mundo ao redor. Um teste simples ajuda os cientistas a detectar consciência em qualquer pessoa.
No teste, sensores registram a atividade cerebral enquanto o paciente ouve uma sequência sonora formada por três tons graves e um tom agudo. Depois, a sequência muda sem aviso, passando a ser composta por quatro tons graves seguidos. O cérebro responde à mudança com uma oscilação específica, um marcador confiável de que a pessoa percebeu o som estranho. Esse padrão de resposta cerebral, no entanto, não aparece em quem está dormindo ou em coma.

O mistério do cérebro em desenvolvimento
Quando os pais levam seus bebês ao laboratório para repetir o teste, surge a pergunta: haverá sinal? O recém-nascido que se mexe e balbucia está realmente consciente ou apenas reage por instinto? Como ainda não conseguem falar nem focar os olhos e têm o cérebro em desenvolvimento, os bebês não parecem conscientes da mesma forma que os adultos.
Topun Austin, neonatologista da Universidade de Cambridge, afirmou que a consciência funciona como uma espécie de ponte entre o que vem de fora e o mundo interno de cada pessoa, formando a percepção de identidade e de lugar no mundo.
Essa definição, porém, não explica onde, no cérebro, a consciência surge da atividade neuronal nem como a comunicação entre neurônios gera a sensação de ser si mesmo no mundo.
Teorias em competição, sem consenso claro
Cientistas desenvolveram múltiplas teorias detalhadas para abordar essas questões, mas há pouco consenso sobre qual está correta. Joel Frohlich, neurocientista cognitivo da Universidade de Tübingen, na Alemanha, disse que não há consenso entre os cientistas.
Essa investigação ganhou importância nos últimos anos. Pesquisadores implantaram milhões de células cerebrais humanas funcionais em ratos, experimento que abriu espaço para a hipótese de que os animais pudessem, no futuro, desenvolver algum grau de consciência a partir desse procedimento. Filósofos e teólogos refletem sobre a possibilidade de a inteligência artificial se tornar consciente e sobre como ter certeza disso.

Um ponto de virada inevitável
Em algum momento da vida de cada pessoa, o cérebro deixou de ser rudimentar, e algo mudou. Acredita-se que os bebês nasçam inconscientes, mas, em alguma fase, essa realidade se transforma.
Determinar quando essa transição ocorre não é apenas uma questão acadêmica: resolver esse enigma pode ajudar a compreender um dos fenômenos mais complexos e misteriosos da existência humana.
Quando a competência não exige consciência
Como biólogo evolucionista, Dawkins se intriga com um paradoxo: se a consciência é tão valiosa, por que a evolução a criou? Afinal, organismos inconscientes, chamados “zumbis filosóficos”, poderiam ser igualmente competentes e gastariam menos energia. A resposta que emerge da conversa com a IA é incômoda: talvez a competência não exija consciência. Um computador sem experiência interna, sem “sentir” nada, consegue processar informações, tomar decisões e até se comportar de uma forma que parece reflexiva. Isso sugere que a evolução poderia ter seguido dois caminhos igualmente eficazes, um com consciência, outro sem, e que a inteligência artificial seria a primeira evidência concreta de que o segundo funciona tão bem quanto o primeiro.









