Ave desapareceu há mais de 360 anos após a chegada de humanos a uma ilha africana, mas uma empresa avaliada em US$ 10 bilhões quer mudar essa história com inteligência artificial e trazer o animal de volta a vida
Startup norte-americana Colossal Biosciences, que tem Tom Brady e George R. R. Martin entre seus conselheiros, promete recriar o dodô no início da década de 2030; cientistas questionam a proposta

O dodô se tornou um dos maiores símbolos da extinção causada pelo ser humano. Agora, uma empresa de biotecnologia dos Estados Unidos quer usar edição genética e inteligência artificial para trazer a ave de volta, mais de três séculos e meio depois de seu desaparecimento.
O projeto é da Colossal Biosciences, startup avaliada em cerca de US$ 10 bilhões depois de várias rodadas de investimento.
Inspirada na franquia “Jurassic Park”, em que dinossauros são recriados em laboratório, a Colossal reúne em seu conselho cientistas e também celebridades. Entre os nomes estão o ex-jogador de futebol americano Tom Brady, o escritor George R. R. Martin, autor da saga que deu origem a “Game of Thrones”, o ator Chris Hemsworth, o ator Joe Manganiello e o DJ Steve Aoki.
Além do dodô, a empresa diz trabalhar para recriar o mamute-lanoso, o tigre-da-tasmânia e o lobo-terrível, espécie pré-histórica de lobo.
Como o dodô desapareceu
O dodô era uma espécie de pombo gigante que não voava e vivia apenas na ilha Maurício, no Oceano Índico, na costa leste da África. Sem predadores naturais, a ave nunca desenvolveu medo de outros animais.
Isso mudou com a chegada de exploradores holandeses, em 1598. O dodô virou presa fácil para os humanos e, principalmente, para os animais trazidos nos navios, como ratos, porcos, cães e macacos, que atacavam ninhos, comiam ovos e filhotes e disputavam alimento com a ave.
Como botava cerca de um ovo por ano, a espécie não conseguiu se reproduzir rápido o suficiente para resistir às novas ameaças. Em menos de um século após a chegada dos europeus, a população já tinha praticamente desaparecido. O último avistamento confirmado costuma ser registrado na década de 1660.
Passo a passo da “desextinção”
A proposta da Colossal é modificar o DNA do parente vivo mais próximo do dodô até obter uma ave com as características da espécie extinta. O processo descrito pela empresa tem várias etapas.
Primeiro, a equipe reconstrói o genoma do dodô com ajuda de inteligência artificial, combinando dados de outras aves e amostras do animal guardadas em museus. Depois, identifica a espécie viva com DNA mais parecido, que, no caso, é o pombo-de-nicobar.
O passo seguinte é coletar células desse pombo responsáveis por formar óvulos e espermatozoides e editar o código genético delas, trocando genes do pombo por versões que reproduzam traços do dodô.
Essas células seriam então transferidas para uma galinha doméstica, que funcionaria como uma espécie de “barriga de aluguel”. A partir da reprodução dessas galinhas, nasceria um filhote com as características do dodô.
Segundo a empresa, o projeto está atualmente na fase de coleta das células do pombo-de-nicobar. A previsão da Colossal é que as aves voltem a andar pela Terra no início da década de 2030.
Conservação como argumento
A Colossal afirma que a tecnologia desenvolvida para recriar o dodô pode ajudar a salvar espécies ameaçadas hoje. Um exemplo citado é o pombo-rosado, ave também nativa de Maurício que corre risco de extinção por causa da destruição de seu habitat.
Segundo a empresa, o sequenciamento genético e a biotecnologia poderiam aumentar a diversidade genética dessa espécie e, com isso, suas chances de sobreviver na natureza. A história do dodô também é usada para atrair a atenção do público e de investidores.
Lobo-terrível gerou polêmica
O projeto mais avançado da empresa é o do lobo-terrível. A Colossal anunciou o nascimento de três filhotes, criados a partir de lobos-cinzentos geneticamente modificados, e divulgou os uivos dos animais como os primeiros da espécie em mais de 100 mil anos.
A divulgação teve grande repercussão, mas também gerou críticas da comunidade científica. Um grupo de especialistas em canídeos ligado à União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) afirmou não haver evidências de que os filhotes sejam diferentes de lobos-cinzentos ou parecidos com o lobo pré-histórico.
Em carta aberta, os 12 especialistas alertaram que a biotecnologia não deve ser tratada como solução mágica para a crise da biodiversidade. Para eles, a ideia de que a extinção pode ser revertida em laboratório pode diminuir a urgência de proteger as espécies e os habitats que ainda existem.
O debate também envolve uma questão central: mesmo que o projeto dê certo, o animal criado não será um dodô idêntico ao original, mas um pombo-de-nicobar modificado para se parecer com ele. Para muitos cientistas, isso levanta dúvidas sobre o que, de fato, significa trazer uma espécie de volta.








