Existe uma característica psicológica que pode colocar pessoas nascidas entre 1950 e 1970 em vantagem, segundo um estudo
Trabalho publicado na BMJ Mental Health associa a resiliência a uma vida mais longa em pessoas acima dos 50 anos, mas não compara gerações nem atribui essa habilidade a uma infância sem tecnologia

Nos últimos meses, ganhou força nas redes sociais e em sites a ideia de que quem nasceu entre 1950 e 1970 teria uma “vantagem psicológica fundamental” em relação às gerações mais novas. A habilidade em questão seria a resiliência emocional, ou seja, a capacidade de enfrentar dificuldades e se recuperar delas.
Segundo essas publicações, a explicação estaria na forma como essa geração cresceu: com mais autonomia, menos estímulos digitais, relações presenciais e menos dependência de recompensas imediatas. O estudo citado como base costuma ser um artigo da revista científica BMJ Mental Health.
O que a pesquisa original mostra, porém, é bem diferente.
O que o estudo analisou
Os pesquisadores usaram dados do Health and Retirement Study, um levantamento de longo prazo que acompanha adultos com 50 anos ou mais nos Estados Unidos. O estudo começou em 1992 e reúne informações sobre saúde, situação econômica, estado civil e família dos participantes, que são avaliados a cada dois anos.
A análise envolveu mais de 10 mil pessoas. A resiliência foi medida por uma escala que avalia qualidades como perseverança, calma, senso de propósito, autoconfiança e a capacidade de aceitar que certas experiências precisam ser enfrentadas sozinho.
A conclusão: resiliência e vida mais longa
O principal resultado foi que pessoas mais velhas com maior capacidade de lidar com situações difíceis tinham menor risco de morte ao longo do período analisado.
Para os autores, a descoberta reforça a importância de iniciativas que ajudem a fortalecer a resiliência mental na terceira idade.
Os pesquisadores também ressaltam que se trata de um estudo observacional. Isso significa que ele identifica uma associação, mas não permite afirmar que a resiliência é a causa direta da maior longevidade.
O que o estudo não diz
A pesquisa não compara gerações. Ela não mediu se os nascidos entre 1950 e 1970 são mais resilientes do que millennials ou a geração Z, nem analisou o impacto de redes sociais ou da tecnologia na infância.
A ligação entre a infância “analógica” e uma suposta vantagem emocional foi acrescentada na forma como o estudo passou a ser divulgado, e não aparece nos resultados. Algumas versões chegaram a atribuir o trabalho à Universidade de Harvard, o que também não corresponde à publicação original.
Do que depende a resiliência
Segundo o próprio artigo, a resiliência é um processo dinâmico, influenciado por vários fatores, como sexo, hormônios e genes ligados à resposta do corpo ao estresse.
Os autores também citam elementos como sentido de vida, emoções positivas, a forma como a pessoa avalia a própria saúde e a satisfação com o apoio social recebido. Estimular emoções positivas, segundo eles, pode ajudar a reduzir o impacto das adversidades acumuladas ao longo da vida.
O ponto em comum entre o estudo e as versões que circulam na internet é que a resiliência não é uma característica fixa. Ela pode ser fortalecida em qualquer fase da vida.
Atividade física, relações sociais de qualidade, senso de propósito e estratégias para lidar com frustrações são hábitos associados a uma saúde mental mais estável e a uma maior capacidade de enfrentar momentos difíceis.
Ou seja, mais do que o ano de nascimento, o que parece fazer diferença é a forma como cada pessoa constrói e cuida dos próprios recursos emocionais ao longo da vida.








