Sente uma vontade incontrolável de mexer as pernas quando deita para dormir? Sintoma pode estar ligado a uma condição que atrapalha o sono, provoca desconforto durante a noite e faz a pessoa precisar levantar e caminhar para encontrar alívio
A síndrome das pernas inquietas atinge cerca de 5% dos brasileiros, é mais comum em mulheres, gestantes e pessoas acima dos 50 anos e costuma ser confundida com ansiedade

O dia termina, a luz se apaga e, quando o sono finalmente parece chegar, as pernas começam a incomodar. A sensação pode ser de formigamento, peso, ardência ou até de algo andando por baixo da pele. O único jeito de aliviar é mexer as pernas, alongar ou levantar e dar algumas voltas pelo quarto.
Quem passa por isso com frequência pode ter a síndrome das pernas inquietas (SPI), também chamada de doença de Willis-Ekbom. Segundo levantamentos, a condição afeta cerca de 5% da população brasileira.
Apesar do nome, não se trata de nervosismo nem de um simples hábito. É uma condição neurológica, descrita pela primeira vez no século 17, que não costuma ser grave, mas compromete o sono e, por consequência, a disposição durante o dia.
Os quatro sinais que definem a síndrome
O diagnóstico é clínico, ou seja, feito a partir do relato do paciente, sem necessidade de exames de imagem complexos. De acordo com um consenso do Grupo Brasileiro de Estudo em Síndrome das Pernas Inquietas, publicado na revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria, o médico avalia quatro critérios principais.
O primeiro é a necessidade irresistível de mover as pernas, geralmente acompanhada de sensações desagradáveis. O segundo é a piora em repouso: o incômodo aparece ou se intensifica quando a pessoa está sentada ou deitada.
O terceiro é o alívio com o movimento, ainda que temporário, ao caminhar, alongar ou massagear as pernas. O quarto é o horário: os sintomas seguem um ritmo próprio e pioram no fim do dia e durante a noite.
Ou seja, justamente o momento de relaxar é o que dispara o problema.
Não é a mesma coisa que balançar a perna
Muita gente balança as pernas sem parar enquanto está sentada no trabalho, numa sala de espera ou durante uma prova. Esse comportamento, porém, costuma ter outra origem.
Na ansiedade ou no transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), o movimento funciona como uma válvula de escape para a tensão ou como um gesto automático em momentos de estresse e concentração. Não há dor nem desconforto físico na perna, o balanço aparece em pleno dia e desaparece quando a pessoa dorme.
Na síndrome das pernas inquietas, o movimento é uma resposta a um incômodo físico real. A pessoa mexe as pernas porque sente algo desagradável nelas, e isso piora à noite. Por isso, os próprios especialistas incluem os estados de ansiedade entre as condições que precisam ser descartadas no diagnóstico.
Quem corre mais risco
A síndrome é mais frequente em mulheres, em pessoas acima dos 50 anos e em gestantes. Em boa parte dos casos, a causa é genética, nas chamadas formas primárias.
Mas o problema também pode surgir associado a outras condições ou hábitos. A deficiência de ferro está entre as causas mais comuns. O consumo exagerado de álcool e de bebidas com cafeína, como café e energéticos, pode funcionar como gatilho.
Alguns medicamentos, entre eles certos antialérgicos, antidepressivos e remédios contra enjoo, podem desencadear ou agravar os sintomas. Doenças como insuficiência renal e problemas nos nervos periféricos também favorecem o aparecimento da síndrome.
Atenção às crianças
A condição também pode afetar crianças, e aí o diagnóstico exige ainda mais cuidado. O desconforto nas pernas faz com que elas fiquem irritadas e não consigam parar quietas na sala de aula.
Somada à falta de atenção causada pelas noites mal dormidas, essa agitação leva muitas crianças a serem diagnosticadas, de forma equivocada, com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).
Como é o tratamento
A síndrome tem tratamento. O primeiro passo costuma envolver mudanças de rotina, como evitar cafeína e álcool à noite, manter horários regulares de sono e investigar e corrigir uma possível falta de ferro.
Quando os ajustes no dia a dia não resolvem, há medicamentos que agem sobre a dopamina, substância ligada ao controle dos movimentos, e outros que reduzem a hiperexcitação dos nervos. A escolha depende de cada caso e deve ser feita por um médico, já que alguns remédios podem até piorar o quadro com o tempo se não forem bem acompanhados.
Quem reconhece os sintomas deve procurar um neurologista ou um especialista em medicina do sono. Identificar a causa por trás do incômodo é o caminho para recuperar noites de descanso.








