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Próximo presidente do Brasil terá pela frente um problema que já afeta milhões de pessoas e pode se tornar ainda mais grave nos próximos anos

Estudos mostram que medidas como sistemas de alerta, pontos de resfriamento público e proteção de trabalhadores podem salvar vidas durante a crise climática.


Por Bernardo Teixeira

11/10/2026 às 18h35

Próximo presidente do Brasil terá pela frente um problema que já afeta milhões de pessoas e pode se tornar ainda mais grave nos próximos anos
Foto: Presidência da República/Domínio Público

Uma crise que mata em silêncio vai acompanhar a troca de governo marcada para 2027. Uma projeção do Climate Impact Lab aponta 13.300 mortes adicionais ligadas ao calor extremo no Brasil entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. Dessas mortes, 8 mil devem ocorrer entre dezembro e fevereiro, exatamente quando um mandato termina e outro começa.

Isso significa que a próxima gestão federal assume o Planalto já em meio a uma emergência sanitária em curso, sem tempo para montar estrutura do zero.

Silhuetas de pessoas aproveitando a praia ao pôr do sol com as icônicas montanhas do Rio ao fundo.
Foto: Eric Garcia/Pexels

O papel do el Niño nesse cenário

O fenômeno El Niño deste ciclo é citado no levantamento como responsável por cerca de meio milhão de mortes adicionais por calor no planeta. No período entre junho de 2026 e fevereiro de 2027. Dentro da América do Sul, o território brasileiro aparece como o mais castigado pela combinação de altas temperaturas.

Essa conta reúne apenas o efeito direto do calor sobre a população. Secas, queimadas e enchentes que costumam vir junto com esse padrão climático não entram no cálculo, o que indica que o impacto total sobre as pessoas pode superar a projeção.

Uma cena dramática de uma floresta queimada após um incêndio florestal com árvores e solo carbonizados.
Foto: Engin Akyurt/Pexels

O alerta da Organização Meteorológica Mundial

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, o El Niño já está ativo e tende a ganhar força, com chance próxima de 100% de seguir presente até fevereiro de 2027. A classificação prevista para o fenômeno é de intensidade muito forte.

A própria entidade faz uma ressalva: a força do El Niño, isolada, não determina o tamanho do estrago em cada região, a resposta de governos locais pesa tanto quanto o fenômeno em si. Sem estrutura de atendimento e alerta, qualquer onda de calor tende a cobrar um preço mais alto em vidas.

Silhueta do horizonte da cidade contra um radiante pôr do sol dourado, capturada durante a chuva.
Foto: Lucas Pezeta/Pexels

Uma ameaça que não aparece em imagens

Ao contrário de uma enchente que alaga bairros inteiros ou de um incêndio que consome a paisagem, o calor extremo avança sem deixar cenas de impacto visual. Ele chega pelo quarto sem ventilação, pelo ponto de ônibus sem sombra e pela jornada de quem passa horas exposto ao sol.

Por não gerar imagens que choquem a opinião pública, esse tipo de emergência costuma receber menos atenção do poder público do que outros desastres climáticos mais visíveis, mesmo matando mais gente.

Desfrute de um pôr do sol sereno na praia de Caraguatatuba, Brasil, com silhuetas e barcos.
Foto: Marcus Cardoso/Pexels

Medidas capazes de reduzir óbitos

O relatório lista ações que ajudam a evitar mortes: sistemas de alerta de calor, acompanhamento de pessoas em maior risco e pontos de resfriamento em áreas públicas. Garantir acesso à água, proteger trabalhadores expostos ao sol e reforçar as unidades de saúde completam a lista de recomendações.

Colocar essas medidas em prática depende de definir quem executa cada ação, com quais recursos e em qual território. Coordenar essa resposta com estados e municípios, priorizando o SUS e a criação de espaços públicos de acolhimento, é tarefa que cabe à União.

O impacto nas relações de trabalho

Água, sombra e pausas regulares para quem trabalha sob calor extremo precisam constar nos planos de prevenção adotados pelo país. Reorganizar jornadas em dias de temperatura mais severa também faz parte dessa resposta.

Deixar essa escolha só nas mãos de quem trabalha, que muitas vezes opta entre se proteger e manter o rendimento, enfraquece qualquer estratégia de prevenção montada pelo poder público.

Uma transição sem pausa na crise

A passagem de poder não interrompe o avanço do calor nem suspende seus efeitos sobre a população brasileira.

Desde a chegada da atual gestão, o governo federal já havia montado um conjunto de medidas para lidar com o El Niño, incluindo planos de resposta a impactos econômicos como alta nos preços de alimentos e energia. Seca no Norte e Nordeste e chuvas intensas no Sul.

Cabe a essa gestão repassar dados, recursos já mobilizados e lacunas que ainda precisam de resposta. Quem assumir a Presidência da República em 2027 vai precisar dar sequência imediata às ações em curso, sem margem para reorganizar a estrutura do zero.

Pesquisadores do Climate Impact Lab também deixam um alerta que vai além deste episódio: o padrão de temperatura provocado por este El Niño pode se tornar comum em décadas futuras, a medida que o clima global se transforma.

Investir de forma contínua em cidades, moradias e serviços de saúde preparados para o calor deixou de ser opção para virar necessidade urgente.