Nova bancada de Minas Gerais no Senado reflete avanço da direita nas eleições 2026
Com dois senadores do PL e uma representante do PT, Minas Gerais terá nova composição no Senado em meio ao avanço da direita no Congresso Nacional

Todas as cadeiras mineiras no plenário do Senado Federal passam a ter novos representantes a partir do próximo ano. Nas Eleições 2026, Minas Gerais elegeu Domingos Sávio (PL) e Marília Campos (PT) para os dois assentos. Com duração de oito anos, o mandato de ambos começa em 1º de fevereiro de 2027 e termina em 31 de janeiro de 2035.
Já o atual senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), agora governador eleito no primeiro turno do pleito deste ano, passa a cadeira ao seu primeiro suplente Alex Sandro Coelho Diniz (PL), que exercerá o mandato até janeiro de 2031.
Os outros dois atuais senadores mineiros ficam fora da Casa Alta do Congresso no próximo ano. Eleitos para o Senado em 2018, Carlos Viana (PSD) tentou um novo mandato, mas não foi reeleito; enquanto Rodrigo Pacheco (PSB) deixou o cargo para assumir como ministro do Tribunal de Contas da União (TCU). A vaga de Pacheco passou para seu primeiro suplente, Renzo Braz (PP-MG), que tomou posse no último dia do mês de setembro deste ano.

Especialistas analisam cenário de incertezas
“Vimos um ‘tsunami’ da extrema-direita. O PL cresceu demais, tanto na Câmara quanto no Senado”, aponta Marta Mendes da Rocha, cientista política e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Em sua avaliação, Domingo Sávio (PL), antes um político moderado, passou por um processo de radicalização — o que pode ser aplicado aos demais eleitos. Mesmo que “apertada”, a eleição da Marília Campos (PT), considerada uma “contraposição”, também era esperada.
Já o cientista social e docente da UFJF, Diogo Tourino, aponta: “No quadro de Minas, a presença da Marília Campos é bem interessante, porque ela tem uma longa folha de serviços prestados, uma personagem que é talhada no mundo da política, que fez uma campanha muito segura e tem pouca rejeição”.
No entanto, ele acredita que o Partido dos Trabalhadores não tem força para fazer oposição ao PL no Senado, por ter uma configuração favorável ao campo da direita e da centro-direita. “Se o PT tiver uma pauta que é só dele, será uma voz muito isolada dentro do Senado, voltada para um campo minoritário”, pondera.
Como aponta Marta, mesmo se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguir virar a disputa no segundo turno, terá muitos problemas de governabilidade, pois a Câmara de Deputados e Senadores será controlada por uma direita radicalizada e bolsonarista.
“Desde a década de 90 um partido não conquistava uma bancada tão grande. Não é apenas o PL, tem o União, o Novo, o Republicanos e o PP. Tem uma presença muito forte dessa direita radical”, diz a professora.
Em concordância, Tourino também vê o Partido Liberal como o grande vitorioso dessas eleições.
“Não só no Congresso, mas também no Senado, fazendo sozinho quase um terço, alcançando um resultado impressionante. Obviamente, terá impacto, o primeiro deles é imediato: a disputa pela presidência da Casa”, cita.
Essa onda da direita, avalia Marta, deve defender o ajuste fiscal e o corte de gastos, uma agenda da “Faria Lima”, do capital internacional e dos grandes empresários brasileiros.
“A gente sabe que certamente vai cair nas costas dos mais pobres, do trabalhador, pagar essa conta desse ajuste fiscal, como sempre ocorre”, comenta. Segundo ela, a tendência é de manutenção de juros altos combinada à tentativa de promover o ajuste fiscal por meio do corte de gastos.
Sobre a pauta da segurança pública, Marta avalia que a agenda deve ter viés punitivista. Quanto as bets, apesar da rejeição popular, o poder de lobby do setor pode levar o Congresso a derrubar a proibição e aprovar uma regulamentação mais permissiva.
Marta também aponta a possibilidade de avanço da discussão sobre impeachment dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A professora analisa que há uma série de problemas na Suprema Corte, principalmente por abrigar ministros que são alvo de suspeitas relacionadas ao escândalo do Banco Master e que precisam ser investigados.
“Sabemos que as razões pelas quais a outra direita pretende avançar sobre o STF não têm a ver com o Banco Master, mas com revanchismo relacionado com o julgamento do 8 de janeiro, que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro para prisão, agora domiciliar, e que também levou à condenação daqueles envolvidos nos atos de vandalismo, que alguns classificaram como terroristas e uma tentativa de golpe”, avalia.
Como explicado pela professora, o próximo presidente eleito poderá indicar os ministros da Corte. Então, diante de um Congresso e um Senado mais à direita, um governante de esquerda precisaria fazer muitas concessões para escolher o indicado. Por essa razão, a cientista política prevê que pautas mais progressistas e favoráveis à classe trabalhadora devem ser arquivadas. “A tendência é que a ultradireita prevaleça e que a centro-esquerda adote uma posição reativa buscando uma redução de danos”, analisa Marta.
“As análises desconsideram que o jogo ainda está sendo jogado, o da eleição presidencial. O Congresso ganhou muito poder nos últimos anos com as emendas impositivas, mas não podemos esquecer que a caneta da presidência continua sendo um ator de veto poderoso”, finaliza o professor Diogo Tourino sobre um cenário de incertezas na política brasileira.
Quem são os novos senadores mineiros?
- Domingos Sávio (PL) compõe maior bancada do Senado
Pela primeira vez à Câmara Alta, Domingos Sávio (PL) foi eleito, no último domingo (4), com 4.968.829 votos (24,21%). Anteriormente, atuou como vereador e prefeito de Divinópolis, deputado estadual por dois mandatos e deputado federal por quatro mandatos consecutivos. Também é médico-veterinário formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), produtor rural e empresário.
Em sua carreira na Câmara dos Deputados, presidiu a Comissão de Viação e Transportes, foi relator da CPI da Lei Rouanet e presidiu a Frente Parlamentar do Cooperativismo e a do Comércio e Serviços. É autor da lei que incentiva a reciclagem de resíduos sólidos (Lei 15.394/2026) e participou da aprovação do Novo Código Florestal.
À Tribuna de Minas, o político declarou disputar o Senado porque o Estado de Minas Gerais precisava de “um representante experiente, independente e comprometido com o municipalismo, a fiscalização do governo e a defesa dos interesses dos mineiros”.
Sávio também afirmou que teria como compromisso representar a região de Juiz de Fora e da Zona da Mata “com a mesma dedicação: atrair investimentos, defender a infraestrutura local e garantir que as demandas tenham prioridade no Senado”.
- Marília Campos (PT) compõe bancada petista, três vezes menor que PL
Também chegando pela primeira vez no Senado Federal, Marília Campos (PT) foi eleita com 3.990.864 votos (19,44%) no último domingo (4). Ex-prefeita do município de Contagem por quatro mandatos, Marília também é ex-vereadora e ex-deputada estadual. A liderança petista é formada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidiu o Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte entre 1990 e 1995.
Durante sua campanha ao Senado, Marília indicou, à Tribuna de Minas, que sua candidatura pretendia “levar a voz das mineiras e mineiros ao Senado Federal” para defender os municípios, buscar mais investimentos e oportunidades para todos.
“Na Zona da Mata, minha principal preocupação é com a prevenção e resposta aos desastres. Temos que fortalecer recursos federais e iniciativas de adaptação às mudanças climáticas para garantir segurança da população e infraestrutura adequada para reduzir a vulnerabilidade de moradias, indústrias e comércios. Outra demanda importante da região é a mobilidade. Precisamos de estradas em boas condições e conexões eficientes entre cidades e zonas rurais para assegurar o acesso das pessoas aos serviços básicos e o desenvolvimento da agricultura, pecuária, comércio e indústria regional”, declarou Marília, à Tribuna, durante a edição 2026 do projeto Voto e Cidadania.
- Alex Sandro Coelho Diniz (PL), suplente de Cleitinho, tem mandato até 2031
Suplente do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), Alex Sandro Coelho Diniz (PL), de 53 anos, assumirá pela primeira vez um cargo eletivo, integrando a maior bancada partidária do Senado Federal. Natural de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, o empresário é sócio da rede de supermercados Coelho Diniz, cuja família também possui participação no Grupo Pão de Açúcar.
Alex Diniz foi eleito primeiro suplente de Cleitinho em 2022, quando ambos eram filiados ao PSC. Na ocasião, declarou aproximadamente R$ 66,2 milhões em bens à Justiça Eleitoral e foi o maior doador individual da campanha do senador, com cerca de R$ 190 mil. O futuro parlamentar também é irmão do deputado federal Hercílio Coelho Diniz (MDB-MG)
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