Romário no Tupi: 20 anos depois, relembre a passagem pelo time de Juiz de Fora que terminou sem estreia
Contratação do “Baixinho” mobilizou torcedores, mas um impedimento burocrático frustrou a expectativa de vê-lo jogar pelo Carijó
Na próxima sexta-feira (9), completam-se 20 anos da chegada de Romário ao Tupi. Em 2006, a presença do atacante em Juiz de Fora movimentou o clube e atraiu torcedores ao Estádio Municipal. O “Baixinho” foi apresentado, treinou com o elenco e acompanhou do banco a vitória alvinegra sobre o Democrata de Sete Lagoas. Mas não entrou em campo: a situação do registro internacional do jogador impediu sua escalação.
A passagem teve contornos de grande acontecimento antes mesmo de a bola rolar. Romário, que tinha se transferido do Vasco para o Miami FC, dos Estados Unidos, vivia a busca pelo milésimo gol na carreira e havia acertado com o Tupi para disputar partidas da Taça Minas. A chegada também despertou curiosidade pelo peso do nome: o atacante era tetracampeão mundial e uma das figuras mais conhecidas do futebol brasileiro.
A repercussão, porém, veio acompanhada de uma dúvida decisiva. Uma das manchetes da Tribuna à época resumiu o cenário: “Romário assina, mas estreia está ameaçada”. Segundo a reportagem, a CBF entendia que o jogador não estava habilitado a disputar partidas oficiais no Brasil antes da virada do ano, porque o pedido de transferência não havia sido feito até o prazo estipulado pela entidade.
A diretoria do Tupi ainda buscava uma alternativa. O então diretor de futebol Alemão garantia a apresentação do atacante e afirmou ao jornal: “Nós já fizemos contato com um advogado em São Paulo que está estudando o caso e vendo as possibilidades para nós, mas a apresentação dele está certa”. A reportagem também alertava que escalar Romário sem a regularização poderia resultar em perda de pontos para o clube.

Treino, expectativa e arquibancadas
A presença de Romário no primeiro treino também virou notícia. O atacante participou de toda a atividade, mas não marcou gol no coletivo, vencido pelos reservas por 4 a 1. O jornal descreveu a chegada com uma frase que condensava a expectativa daquele dia: “Com uma hora de atraso, sem falar com a imprensa, sem marcar gols, mas aclamado pela torcida”.
O técnico Joel Martins precisou mexer no esquema para acomodar o reforço. Depois do treino, avaliou a adaptação da equipe e ponderou: “Não podemos exigir que um jogador, mesmo com a categoria do Romário, mostre tudo o que pode”. O treinador também apontou que o time havia sentido as alterações e afirmou que pretendia colocar Alan ao lado do atacante.
A chegada atraiu público ao Municipal, embora a quantidade de pessoas tenha sido descrita de diferentes formas nos relatos da época. A reportagem sobre a partida registrou “pouco mais de 2 mil torcedores” nas arquibancadas. Aelson Amaral, que acompanhou a movimentação e fotografou Romário para a Tribuna, estima que tenham sido entre duas e três mil pessoas. Para ele, a presença do atacante mobilizou gente ligada ao futebol, incluindo torcedores do Flamengo e do próprio Carijó.
“Ele entrou em campo com a camisa, já estava tudo programado. Eu fui fazer a pauta e fiz as fotos, acompanhando as jogadas dele”, relata. A cobertura, lembra, ficou concentrada principalmente naquele dia.

Camisa 11, mas sem estreia
No dia da partida contra o Democrata de Sete Lagoas, Romário entrou em campo com a camisa do Tupi, mas não pôde jogar. A peça, com o número 11 e o nome do atacante, acabou autografada e entregue ao torcedor-símbolo Augusto Vale, conhecido como “Torcedor Solitário”. Da arquibancada, o Baixinho viu o Tupi vencer por 2 a 1. Os dois gols foram marcados por Leandro Guerreiro, também camisa 11.
A coluna “Pitaco”, publicada na época pela Tribuna, mostrou que a contratação dividia opiniões. Houve quem questionasse o custo e o retorno esportivo. “Uma soma de investimento muito alta, para pouco resultado prático”, avaliou Geraldo Claudio da Silva Filho, de Juiz de Fora. Outros viam na presença do atacante uma oportunidade de projeção para o clube e a cidade. “Se ‘O Cara’ puder atuar nestas partidas, será uma excelente oportunidade para a projeção da cidade e do clube”, escreveu Rogério Pinheiro Nunes, de Cataguases.
A repercussão também foi vista como uma ação que buscava renda. “Boa, como marketing, comércio de produtos do time”, opinou Maria José Duarte Raffaele, de Belo Horizonte. Já Vanda Lucia da Silva, de Juiz de Fora, projetava que Romário seria um estímulo para a equipe e para a torcida.

Um encontro tranquilo entre fotógrafo e Romário
Para Aelson, fotografar um jogador tão conhecido não tornou a pauta especialmente difícil. Ele compara o impacto de estar perto de Romário ao de encontrar Pelé, embora ressalte a diferença entre os ídolos. “O Romário é ídolo, mas o Pelé é mundial”, resume.
O contato direto foi breve, mas deixou uma impressão positiva. “Tratou muito bem a imprensa, tanto os fotógrafos quanto os jornalistas. Era muito tranquilão, com aquele jeito carioca, cheio de ginga e de onda”, lembra Aelson. Ele também recorda o modo informal de Romário se dirigir às pessoas: “Ele tinha aquele esquema dele de ‘ó, peixe, ó, peixe’”.
Mesmo duas décadas depois, a passagem do Baixinho pelo Tupi permanece marcada na memória dos torcedores do clube pelo contraste entre a expectativa da contratação e a impossibilidade de vê-lo jogar. Romário vestiu a camisa, treinou, foi recebido pela torcida e esteve no Municipal no dia da partida. A estreia, no entanto, ficou fora de alcance — e o episódio entrou para a história do Carijó como um dos encontros mais improváveis entre um craque mundial e o futebol de Juiz de Fora.








