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Discussões sobre política fizeram parentes deixarem de se falar, mas especialistas explicam o que pode ser feito para recuperar a relação sem precisar concordar sobre tudo

Pesquisas mostram que muitos brasileiros não se sentem mal com o afastamento, mas quem deseja recuperar esses laços precisa reconhecer que o orgulho foi a motivação central.


Por Bernardo Teixeira

02/10/2026 às 19h02

Discussões sobre política fizeram parentes deixarem de se falar, mas especialistas explicam o que pode ser feito para recuperar a relação sem precisar concordar sobre tudo
Foto: Vitaly Gariev/Pexels

Eleições polarizadas deixaram cicatrizes profundas em muitas famílias brasileiras: parentes que divergem politicamente pararam de se comunicar, e reuniões familiares se tornaram momentos tensos e evitáveis. Ainda assim, especialistas em relações familiares afirmam que restaurar essas relações é possível, sem exigir concordância total sobre política.

A recuperação começa com uma mudança de perspectiva fundamental: abandonar a expectativa de que a família seja um espaço de perfeição.

Segundo Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, as estruturas familiares convivem com conflitos. Para ele, ressentimentos antigos e divergências que surgem em reuniões familiares podem ser tensões que a polarização política apenas evidenciou.

Um casal participa de uma discussão acalorada em uma mesa de madeira em um ambiente interno moderno.
Foto: Timur Weber/Pexels

Por que as eleições acirram tanto as brigas

Dois momentos recentes transformaram o modo como os brasileiros lidam com opiniões políticas divergentes na família. Em 2018, as eleições trouxeram posições extremadas para as quais a maioria das pessoas não estava preparada. Isso gerou rupturas inesperadas e brigas que pegaram muita gente de surpresa.

Dois anos depois, a pandemia de covid-19 reforçou a importância dos laços sociais justamente quando as pessoas estavam isoladas em casa com seus familiares. A combinação entre eleições que dividiram famílias e a necessidade de manter essas relações funcionando criou um cenário confuso. Muitas pessoas adotaram então o silêncio estratégico, ignorando posições políticas contrárias quando possível.

A figura das “tias do deixa disso”, aquelas que intervêm nos debates antes que se transformem em brigas, ganhou ainda mais importância nesse contexto, funcionando como mediadoras informais dos conflitos.

Casal afro-americano sentado de costas um para o outro em uma cama, retratando conflito de relacionamento em casa.
Foto: Alex Green/Pexels

O silêncio estratégico tem limite

Evitar falar sobre desacordos políticos pode manter a paz no curto prazo, mas traz consequências duradouras. Quando assuntos delicados ficam sem conversa no momento, ficam mais difíceis de abordar depois, conforme explicou Paula Regina Peron, psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Acumular incômodos apenas aumenta as dificuldades futuras na relação entre as pessoas.

O caminho mais saudável passa pelo diálogo genuíno, mesmo que desconfortável. Quando a conversa fica muito tensa, trazer um mediador neutro, alguém que tenha o respeito de todas as partes. E consiga apontar erros de forma imparcial, pode abrir espaço para que ambos se sintam ouvidos.

Esse mediador pode ser um parente mais bem-humorado, alguém capaz de acalmar os ânimos e julgar a situação de forma equilibrada.

Close-up de mulher sugerindo silêncio com o dedo nos lábios, vestindo uma blusa preta.
Foto: cottonbro studio/Pexels

Recuperação exige esforço compartilhado

Restaurar uma relação familiar danificada pela política não é responsabilidade de apenas uma pessoa. Qualquer relação entre indivíduos depende de empenho mútuo e disposição de ambas as partes para trabalhar pela reconciliação, mesmo tendo visões políticas opostas. Sem esse investimento compartilhado, os esforços isolados tendem a falhar.

O processo exige paciência, boa vontade genuína e abertura para conversar, não necessariamente para concordar, mas para entender quem está do outro lado. Pesquisas mostram que mais da metade dos brasileiros conhece alguém que rompeu relações por política; entre esses, muitos não se sentem mal com o afastamento.

Ainda assim, quem deseja recuperar esses laços precisa reconhecer que o orgulho foi frequentemente a motivação central nas brigas, não o conteúdo da discussão em si. O diálogo respeitoso continua sendo a melhor forma de avançar nessas situações.