Ouça agora

Homem cavava um abrigo para proteger a família de bombardeios quando encontrou uma caverna com quase 400 objetos antigos; durante oito anos, levou as peças com ele e esperou para entregá-las às autoridades


Por Matheus Chaves

23/09/2026 às 20h07

Homem cavava um abrigo para proteger a família de bombardeios quando encontrou uma caverna com quase 400 objetos antigos; durante oito anos, levou as peças com ele e esperou para entregá-las às autoridades
Imagem: Magnific

O planeta Terra está repleto de objetos antigos que podem ajudar a contar a história da humanidade. Muitos desses itens acabam sendo encontrados por acaso. Foi exatamente assim que o sírio Ziya Hanus achou 400 artefatos arqueológicos em Idlib. Segundo informações do Arkeo News, ele, no entanto, permaneceu com os itens durante 8 anos, até que decidiu levar as peças para às autoridades.

A descoberta aconteceu enquanto tentava construir um abrigo para proteger os filhos dos ataques aéreos durante a guerra na Síria. Sem formação em arqueologia, Hanus procurou uma pessoa de sua comunidade que conhecia antiguidades. Depois de ser informado sobre a possível importância histórica das peças, decidiu mantê-las sob sua guarda. Mesmo quando compradores apareceram oferecendo dinheiro pelo material, ele recusou as propostas e continuou preservando o conjunto até conseguir entregá-lo às autoridades sírias.

A descoberta aconteceu durante a construção do abrigo

Hanus começou a cavar perto de sua residência em um período marcado por intensos bombardeios na região de Idlib. A intenção era criar um espaço subterrâneo onde seus filhos pudessem se proteger durante os ataques.

A escavação, porém, alcançou uma estrutura que ele descreveu como uma caverna contendo grande quantidade de objetos antigos. A descoberta não ocorreu durante uma pesquisa arqueológica planejada, mas em meio a uma tentativa de proteger a família de um conflito que já afetava diretamente a população local.

A situação colocou Hanus diante de um problema diferente. Os objetos poderiam ter valor histórico e cultural, mas ele não possuía conhecimento técnico para determinar sua origem, idade ou importância. Por isso, procurou ajuda de alguém da própria comunidade que tinha conhecimento sobre antiguidades.

Ele recusou propostas para vender os objetos

Depois de tomar conhecimento da descoberta, Hanus recebeu propostas de pessoas interessadas em comprar as peças. Ele decidiu não negociar o material e manteve os objetos consigo.

Essa escolha ganhou ainda mais importância porque a situação militar em Idlib obrigou sua família a deixar a residência. Em 2019, com a intensificação das operações militares na região, Hanus deixou a área levando consigo a coleção que havia encontrado.

A partir daquele momento, preservar os objetos significava transportá-los junto com os demais pertences da família. Segundo o relato divulgado pela Anadolu Agency e reproduzido pela Arkeonews, Hanus e os filhos passaram por mais de 15 casas durante o período de deslocamento. As peças acompanharam a família em cada mudança.

Por que ainda não é possível dizer a idade das peças?

Embora a quantidade de objetos tenha chamado a atenção, as autoridades ainda não divulgaram uma identificação arqueológica detalhada de todo o conjunto. Isso significa que não é possível afirmar, neste momento, que as quase 400 peças pertençam a uma única civilização ou tenham sido produzidas durante o mesmo período.

A região de Idlib, entretanto, possui uma concentração excepcional de vestígios arqueológicos. O noroeste da Síria reúne evidências de ocupações que atravessam diferentes períodos da Antiguidade, incluindo sociedades da Idade do Bronze, além de comunidades que viveram sob influência romana e bizantina.

Um exemplo é Ebla, antigo centro urbano localizado na atual região de Idlib. O sítio arqueológico de Tell Mardikh revelou estruturas monumentais e milhares de tabuletas cuneiformes relacionadas à sociedade que ocupou a região durante o terceiro milênio antes de Cristo.

Há também centenas de estruturas romanas e bizantinas espalhadas pelo norte da Síria. A própria UNESCO reconhece o conjunto conhecido como Antigas Aldeias do Norte da Síria, formado por numerosos sítios arqueológicos com casas, igrejas, templos, túmulos, cisternas e outras construções.

Esse contexto, porém, não permite atribuir automaticamente os objetos encontrados por Hanus a nenhuma dessas culturas. A determinação depende da análise individual das peças e, principalmente, da investigação do local onde elas estavam originalmente depositadas.

O local onde os objetos estavam pode ser tão importante quanto as peças

Para a arqueologia, retirar um objeto do solo não significa apenas recuperar um artefato. A posição em que ele foi encontrado pode fornecer informações sobre seu uso, sua época e sua relação com outros elementos.

Por isso, os pesquisadores precisarão analisar não apenas os objetos entregues por Hanus, mas também, se ainda for possível, informações sobre a caverna onde eles estavam. A disposição das peças, os sedimentos, outros materiais associados e possíveis estruturas podem ajudar a determinar se o espaço foi utilizado como local de armazenamento, ocupação, sepultamento ou para alguma outra finalidade.

Esse tipo de contexto é especialmente importante porque uma coleção retirada de seu local original perde parte das informações que poderiam ser obtidas por uma escavação arqueológica controlada.

Até o momento, as autoridades não apresentaram uma interpretação definitiva sobre a função da caverna ou sobre a cronologia dos objetos. O material agora está sob responsabilidade da Direção-Geral de Antiguidades e Museus da Síria, que poderá realizar a documentação e os estudos necessários.