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Casas no deserto usam torres para captar o vento e refrescar os cômodos com uma solução criada muito antes do ar-condicionado

Nas cidades desérticas do Irã, algumas construções antigas têm estruturas que se destacam no alto dos telhados: são os badgir, ou torres de vento. Elas…


Por Evellyn Nascimento

22/09/2026 às 11h57

Casas no deserto usam torres para captar o vento e refrescar os cômodos com uma solução criada muito antes do ar-condicionado
Foto: Reprodução/Shervin Abdolhamidi/BBC

Nas cidades desérticas do Irã, algumas construções antigas têm estruturas que se destacam no alto dos telhados: são os badgir, ou torres de vento. Elas foram projetadas para aproveitar as correntes de ar e conduzi-las para dentro das edificações, criando ventilação e ajudando a reduzir o calor sem eletricidade.

A tecnologia é especialmente conhecida em Yazd, cidade localizada no centro do Irã e cercada por uma região árida. Ali, casas tradicionais, palácios e outros edifícios históricos preservam diferentes modelos dessas torres, que podem funcionar em conjunto com salas subterrâneas, reservatórios de água e outros elementos da arquitetura local.

O princípio parece simples, mas depende de uma combinação cuidadosa entre direção do vento, circulação de ar, sombra e características da própria construção. Em vez de produzir frio artificialmente, o sistema aproveita as condições naturais para tornar os ambientes mais suportáveis.

Como as torres transformam vento em ventilação

Os badgir ficam na parte mais alta dos edifícios justamente para alcançar as correntes de ar que passam acima dos telhados. A estrutura possui aberturas que captam o vento e o direcionam para canais internos.

Dependendo do modelo, o ar pode ser conduzido para cômodos específicos ou para espaços subterrâneos. Esses ambientes permanecem naturalmente mais frescos porque ficam protegidos da radiação solar direta e apresentam maior estabilidade térmica.

Quando o ar circula pelo interior da construção, ele ajuda a retirar o calor acumulado e melhora a ventilação. Alguns sistemas também utilizavam a proximidade da água para aumentar o resfriamento por evaporação.

O resultado não é equivalente ao funcionamento de um aparelho de ar-condicionado, que utiliza energia para retirar calor de um ambiente. O badgir trabalha com as condições climáticas disponíveis e, por isso, seu desempenho depende do vento, da temperatura externa, da arquitetura e da configuração do sistema.

Uma tecnologia com origem difícil de determinar

Não existe consenso sobre onde e quando as primeiras torres de vento foram construídas. Estruturas destinadas à ventilação aparecem em diferentes regiões do Oriente Médio e do norte da África, e registros arqueológicos e históricos alimentam diferentes hipóteses sobre a evolução dessa tecnologia.

No Egito antigo, representações encontradas em pinturas e construções são apontadas como possíveis evidências de sistemas antigos de captação de vento. No território que hoje corresponde ao Irã, também existem estruturas muito antigas que já foram relacionadas a formas primitivas de ventilação.

A dificuldade está em determinar se esses exemplos representam uma mesma tecnologia que se espalhou entre diferentes povos ou se soluções semelhantes foram desenvolvidas de maneira independente. O uso de princípios parecidos em regiões com clima quente e seco também pode ter favorecido o surgimento de respostas arquitetônicas semelhantes.

Ao longo dos séculos, as torres de vento se tornaram parte importante da arquitetura de diferentes áreas do Oriente Médio e também chegaram a regiões do sul da Ásia.

Yazd preserva exemplos centenários

Yazd se tornou uma das cidades mais conhecidas pela preservação dos badgir. A arquitetura tradicional local foi adaptada às condições extremas do deserto, combinando paredes espessas, pátios internos, ambientes subterrâneos e torres de ventilação.

Algumas construções possuem torres com várias aberturas, permitindo captar o vento independentemente de sua direção. Outras apresentam sistemas mais complexos, nos quais a circulação de ar passa por diferentes partes da residência antes de chegar aos cômodos.

Esse conjunto arquitetônico fazia parte de uma estratégia maior para enfrentar o calor. A torre isoladamente não explica o conforto térmico das casas tradicionais: sua eficiência depende da maneira como ela se integra ao restante da construção.

O conhecimento enfrenta o abandono

A arquitetura tradicional iraniana passou a perder espaço com a chegada de sistemas modernos de ventilação e refrigeração. Muitas construções antigas foram abandonadas ou modificadas, e algumas torres deixaram de receber manutenção.

Isso representa uma dificuldade não apenas para a preservação de edifícios históricos, mas também para o conhecimento associado a eles. Os badgir dependem de técnicas construtivas específicas, e sua restauração exige compreender como as diferentes partes do sistema trabalham juntas.

Ao mesmo tempo, a arquitetura contemporânea voltou a demonstrar interesse por soluções passivas de ventilação diante da necessidade de reduzir o consumo de energia. Princípios semelhantes aos das antigas torres de vento aparecem em projetos que buscam aproveitar circulação natural de ar, sombra e diferenças de temperatura.