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Prédio de universidade parecia apenas vitoriano, até um pesquisador olhar sob o reboco e encontrar castelo medieval dado como perdido


Por Matheus Chaves

26/09/2026 às 17h38

Prédio de universidade parecia apenas vitoriano, até um pesquisador olhar sob o reboco e encontrar castelo medieval dado como perdido
Imagem: Magnific

Durante muito tempo, quem passava pelo atual Roebuck Castle, no campus da University College Dublin (UCD), na Irlanda, poderia imaginar estar diante de uma construção dos séculos XVIII ou XIX, apenas vitoriano. A aparência externa, porém, escondia uma história muito mais antiga: pesquisas do historiador da arquitetura medieval Tadhg O’Keeffe identificaram partes do antigo Roebuck Castle, uma fortificação normanda, de um castelo medieval, que se acreditava ter desaparecido durante as sucessivas reformas realizadas no local.

O castelo medieval estava dentro do prédio

A descoberta não aconteceu porque uma equipe encontrou uma estrutura enterrada sob o campus. O que chamou a atenção do pesquisador estava no próprio edifício atualmente conhecido como Roebuck Castle.

O’Keeffe analisou a construção e percebeu que determinadas paredes e elementos arquitetônicos não correspondiam ao período vitoriano que domina a aparência externa do imóvel. Sob camadas posteriores de reboco permaneciam partes da estrutura medieval.

A investigação indica que os responsáveis pelas reformas realizadas nos períodos georgiano e vitoriano não demoliram completamente o castelo. Em vez disso, construíram a nova residência ao redor de partes da estrutura mais antiga.

Essa decisão acabou preservando elementos que, durante décadas, foram considerados desaparecidos. O pátio localizado atualmente nos fundos da propriedade também corresponde ao espaço que fazia parte do antigo castelo medieval.

Roebuck Castle surgiu na Idade Média

As pesquisas apontam que as partes mais antigas da fortificação remontam ao início do século XIII. O castelo fazia parte da rede de estruturas defensivas construídas na região de Dublin após a invasão normanda da Irlanda, ocorrida a partir de 1169.

Sua localização também ajuda a explicar a importância do imóvel. Roebuck estava em uma das rotas de acesso à Dublin medieval e funcionava como uma estrutura de controle e defesa em uma região que apresentava grande importância estratégica.

Há ainda uma tradição segundo a qual James II, rei da Inglaterra e da Irlanda, teria permanecido no castelo em 1689, depois de perder o trono durante os acontecimentos que marcaram a Revolução Gloriosa. Essa informação, entretanto, aparece como uma tradição histórica associada ao local.

O castelo entrou em ruínas

Com o passar dos séculos, a fortificação deixou de cumprir sua função original. No século XVIII, Roebuck Castle já havia entrado em processo de deterioração e se transformado em uma ruína.

Esse detalhe é importante para entender por que os pesquisadores acreditavam que o castelo havia desaparecido. Muitas construções medievais de Dublin tiveram um destino semelhante: foram demolidas e tiveram suas pedras reaproveitadas na construção de residências mais modernas.

O reaproveitamento de materiais era uma prática comum. Uma fortificação que já não cumpria sua função podia ser vista principalmente como uma fonte de pedra para novas construções.

Por isso, a hipótese predominante era que o antigo Roebuck Castle também tivesse sido eliminado durante as transformações posteriores da propriedade. O que a pesquisa de O’Keeffe mostra é que essa interpretação estava incompleta.

Uma pintura de 1765 ajudou a resolver o quebra-cabeça

Um dos elementos fundamentais para reconstruir a história do imóvel veio de uma fonte que não era o próprio prédio: uma pintura do século XVIII.

O artista Gabriel Beranger visitou Roebuck por volta de 1765 e registrou a ruína em aquarelas. As imagens não mostram apenas uma representação genérica do local. Beranger registrou características arquitetônicas que acabaram se tornando pistas importantes para a pesquisa atual.

Ao comparar os detalhes presentes nas pinturas com as estruturas ainda existentes no edifício, O’Keeffe conseguiu identificar correspondências entre a antiga fortificação e a construção atual.

A precisão desses registros foi particularmente importante porque permitiu reconstruir parte da evolução física do imóvel. Uma imagem produzida há aproximadamente 260 anos acabou funcionando como uma espécie de documento arquitetônico para identificar elementos que permaneciam escondidos atrás das reformas.

Por que castelos medievais desapareceram de Dublin?

O caso de Roebuck também ajuda a explicar uma dificuldade enfrentada por historiadores que estudam a Dublin medieval.

A região de Dublin e seus arredores possuía diversas fortificações, mas muitas não chegaram intactas aos dias atuais. A expansão urbana, as reformas das propriedades e o reaproveitamento de pedras contribuíram para apagar fisicamente parte dessas construções.

Quando uma estrutura desaparece, os pesquisadores perdem não apenas paredes e torres. O próprio edifício poderia conter informações sobre técnicas construtivas, organização dos espaços, circulação e formas de ocupação da região.

Por isso, a identificação de Roebuck tem importância que vai além da história de uma única propriedade. O castelo oferece novas evidências sobre a arquitetura medieval do sul de Dublin e sobre como essas construções foram modificadas ao longo dos séculos.

Ainda existem perguntas sobre o castelo

Apesar da identificação das paredes e do pátio, a pesquisa não encerra todas as dúvidas sobre Roebuck Castle. Ainda são necessárias investigações arqueológicas adicionais para determinar com maior precisão a idade de diferentes partes da construção e estabelecer quais elementos pertencem efetivamente à estrutura medieval.

Essa cautela é importante porque um edifício que passou por centenas de anos de reformas pode reunir materiais de períodos muito diferentes. Identificar uma parede antiga não significa automaticamente que toda a construção tenha sido preservada desde a Idade Média.

O trabalho de O’Keeffe representa, portanto, uma nova etapa de investigação. A partir das paredes existentes, das características arquitetônicas e dos registros históricos e artísticos, os pesquisadores agora podem reconstruir com mais detalhes a trajetória da propriedade.