Caio Blat pede que nenhuma árvore seja derrubada para construir casa e arquiteto faz imóvel contornar a mata; até água da serra termina abastecendo piscina natural

Construir uma casa em meio à Mata Atlântica normalmente exige uma série de decisões para conciliar o imóvel com o terreno, a vegetação e a própria inclinação da área. No caso do ator Caio Blat, essa relação foi levada ao projeto desde o início: o ator pediu que as árvores existentes fossem preservadas, e, segundo o Purepeople, o arquiteto Jorge Mario Jáuregui desenvolveu uma residência que se distribui entre a vegetação, utiliza diferentes níveis do terreno e ainda aproveita uma queda d’água da serra para abastecer a piscina natural.
A casa foi desenhada a partir do terreno
O imóvel conhecido como “Casa na Árvore” fica no morro do Itanhangá, no Rio de Janeiro, em uma área de aproximadamente 1.942 m². A residência possui 445 m² de área construída e foi projetada pelo arquiteto argentino Jorge Mario Jáuregui em diálogo com Caio Blat. O projeto foi desenvolvido a partir das características existentes no local, em vez de começar pela ideia de nivelar o terreno para depois encaixar a construção.
Essa diferença interfere diretamente na forma da casa. Em vez de ocupar uma área contínua, a residência foi organizada em plataformas conectadas por escadas, rampas e decks suspensos. A distribuição acompanha a topografia e cria diferentes relações entre os ambientes internos, os espaços externos e a mata.
A solução também explica por que o imóvel recebeu o apelido de “Casa na Árvore”. Apesar de não estar literalmente apoiada sobre uma árvore, a residência foi inserida em meio à vegetação e ganhou diferentes níveis que criam a sensação de estar suspensa entre as copas.
Preservar as árvores mudou a arquitetura
A conservação da vegetação não ficou restrita a uma decisão paisagística. Ela interferiu na própria organização dos ambientes.
Segundo a descrição do projeto publicada pelo ArchDaily, a preservação das árvores existentes foi uma das referências centrais utilizadas para definir a implantação. Como consequência, os espaços foram distribuídos de maneira mais livre pelo terreno, acompanhando as árvores e as condições topográficas.
Essa estratégia representa uma mudança importante na maneira de pensar uma construção. Em um projeto convencional, o terreno pode ser alterado para receber uma planta previamente definida. Aqui, aconteceu o contrário: a vegetação e a configuração do solo ajudaram a determinar onde os diferentes ambientes poderiam ficar.
O resultado é uma casa formada por conexões. Rampas, escadas e decks fazem a circulação entre os espaços, enquanto a própria paisagem funciona como parte da experiência arquitetônica.
Vidro e madeira aproximam os ambientes da mata
A escolha dos materiais também contribui para essa relação com o exterior. A residência utiliza vidro, madeira, aço e concreto, com grandes superfícies transparentes permitindo que a vegetação permaneça visualmente presente dentro dos ambientes.
A solução não serve apenas para criar uma vista privilegiada. As aberturas também favorecem a entrada de luz natural e a circulação de ar, características que ajudam a reduzir a dependência de iluminação artificial e de climatização em determinadas situações.
A piscina recebe água que desce da serra
Um dos elementos mais incomuns da casa de Caio Blat está justamente na área externa. De acordo com o UOL, a propriedade possui uma piscina natural abastecida por uma queda d’água que desce da serra.
A água chega ao espaço de lazer por meio do próprio curso da queda, criando uma ligação direta entre a dinâmica do terreno e a área utilizada pelos moradores. Em períodos de chuva, a vazão da cachoeira também aumenta, interferindo naturalmente na quantidade de água que chega à piscina.
Isso faz com que a piscina não funcione como um equipamento completamente separado da paisagem. A água que participa do lazer da residência está relacionada ao sistema natural existente na área.
É importante, porém, diferenciar essa característica de um sistema convencional de reaproveitamento de água. O projeto aproveita uma queda d’água existente, mas isso não significa que toda a água utilizada na casa seja captada ou reutilizada dessa maneira.
As próprias pedras do terreno foram aproveitadas
A integração com o ambiente também aparece nos materiais utilizados em determinadas partes da propriedade.
Segundo o projeto arquitetônico, pedras encontradas no próprio terreno foram aproveitadas em estruturas como muros de arrimo, piscina, lago e jardineiras. A estratégia reduz a necessidade de introduzir materiais completamente novos em alguns elementos da área externa e mantém uma conexão visual entre a construção e o ambiente.
Essa escolha também acompanha uma tendência presente em projetos que procuram reduzir a interferência visual sobre áreas naturais. Em vez de esconder completamente a origem dos materiais ou criar uma paisagem artificial, a arquitetura utiliza elementos encontrados no próprio local para construir parte da infraestrutura.
Na Casa Serra do Cipó, em Minas Gerais, por exemplo, o projeto também foi implantado com a preocupação de preservar ao máximo a topografia, a vegetação e as árvores existentes no terreno. A casa utiliza sua implantação, orientação solar e ventilação como ferramentas para se adaptar ao ambiente.
O terreno também determina a circulação
A adaptação ao relevo produz uma consequência prática: circular pela casa não é igual a caminhar por uma residência construída em um único nível.
Uma das rampas do imóvel de Caio Blat equivale aproximadamente a quatro andares de escada. A circulação entre os ambientes também utiliza escadas e decks suspensos.
Essa característica pode ser vista como parte do próprio conceito da residência. O deslocamento deixa de ser apenas uma maneira de chegar de um cômodo a outro e passa a colocar o morador em contato constante com diferentes pontos da paisagem.
A vista também foi utilizada como elemento de projeto. O imóvel está implantado em uma área elevada do Itanhangá e possui visuais para as lagoas, a Barra da Tijuca e o mar.
O projeto mostra outra maneira de construir em áreas naturais
A “Casa na Árvore” de Caio Blat chama atenção pelo luxo, mas o aspecto mais interessante do projeto está na lógica utilizada para implantá-la.
A construção não precisou transformar completamente o terreno para receber a residência. As árvores existentes ajudaram a definir a distribuição dos ambientes, a inclinação do solo determinou diferentes níveis e as pedras encontradas no local foram incorporadas a partes da estrutura.
Esse princípio também aparece em outros projetos de arquitetura contemporânea. Na Casa Serra, em São Paulo, por exemplo, o paisagismo foi planejado para preservar e integrar espécies nativas ao imóvel. Já em uma residência na Serra de Petrópolis, a construção foi posicionada entre árvores e dividida em diferentes níveis para acompanhar a topografia.
Em todos esses casos, existe uma ideia em comum: preservar a paisagem não significa necessariamente abrir mão de uma casa confortável. A estratégia pode se alterar a maneira como a construção é implantada.









