Jornalistas olham anúncio de uma casa, ampliam a quinta foto e encontram sobre o sofá um quadro roubado pelos nazistas havia 80 anos

De acordo com o Smithsonian, um anúncio imobiliário publicado na internet acabou revelando o paradeiro de uma obra de arte que estava desaparecida havia cerca de 80 anos. Jornalistas do jornal holandês Algemeen Dagblad investigavam a trajetória de Friedrich Kadgien, um antigo funcionário de alto escalão do regime nazista, quando encontraram a casa da família dele à venda em Mar del Plata, na Argentina. Na quinta fotografia do imóvel, um detalhe chamou a atenção: sobre um sofá verde estava pendurado um quadro que havia sido roubado durante a Segunda Guerra Mundial.
A obra era o retrato conhecido como “Portrait of a Lady” (O Retrato de Uma Senhora, na tradução literal) e fazia parte da coleção do comerciante de arte judeu holandês Jacques Goudstikker. Depois da invasão da Holanda pela Alemanha nazista, milhares de obras pertencentes à coleção foram tomadas e comercializadas de maneira forçada.
O quadro permaneceu desaparecido por décadas, até aparecer de forma inesperada em uma fotografia feita para ajudar a vender uma residência. A descoberta desencadeou uma investigação na Argentina, operações policiais e uma disputa judicial que terminou com uma decisão determinando que a pintura seja devolvida aos herdeiros de Goudstikker.
A quinta foto mudou a investigação
Os jornalistas do Algemeen Dagblad estavam pesquisando a trajetória de Friedrich Kadgien, que havia ocupado uma posição importante dentro da estrutura financeira do regime nazista e fugido para a América do Sul depois da guerra.
Kadgien se estabeleceu na Argentina e morreu em Buenos Aires em 1978. Sua filha, Patricia Kadgien, posteriormente passou a ocupar uma residência em Mar del Plata que acabou sendo colocada à venda.
Foi justamente ao consultar o anúncio imobiliário que os jornalistas encontraram a imagem inesperada. Entre as fotografias usadas para apresentar os cômodos da casa, a quinta mostrava uma pintura em uma parede da sala.
A imagem não chamaria necessariamente a atenção de alguém que não conhecesse a história da obra. Para os jornalistas, porém, o quadro apresentava características compatíveis com uma pintura que permanecia registrada em bancos de dados de obras desaparecidas.
A partir daquele momento, uma investigação que inicialmente estava relacionada à história de um antigo integrante do regime nazista ganhou uma nova dimensão.
O quadro estava desaparecido desde a Segunda Guerra
A pintura pertencia à coleção de Jacques Goudstikker, um dos mais conhecidos comerciantes de arte dos Países Baixos antes da Segunda Guerra Mundial.
Goudstikker mantinha uma coleção com aproximadamente 1.100 obras. Entre elas estavam trabalhos de importantes artistas europeus, e parte significativa desse acervo foi tomada pelos nazistas depois da ocupação alemã da Holanda.
O comerciante morreu em 1940 enquanto tentava fugir da invasão alemã. Sua família deixou para trás uma coleção que acabou sendo submetida à venda forçada e incorporada ao circuito de obras controlado por integrantes do regime nazista.
“Portrait of a Lady” permaneceu sem localização conhecida por décadas. O paradeiro da pintura só voltou a ser identificado quando os jornalistas conseguiram relacionar a imagem do anúncio imobiliário com os registros históricos da obra.
Friedrich Kadgien tinha ligação direta com o saque de obras
A presença da pintura na casa argentina não era apenas uma coincidência geográfica.
Friedrich Kadgien havia trabalhado para o regime nazista e atuado como assessor financeiro de Hermann Göring, um dos principais líderes da Alemanha nazista. Göring reuniu durante a guerra uma enorme coleção de obras de arte obtidas, em parte, por meio da perseguição e do confisco de propriedades.
Mais de mil obras da coleção de Goudstikker foram parar nesse circuito depois que o comerciante judeu perdeu seu acervo. Ainda não está completamente esclarecido como “Portrait of a Lady” chegou especificamente às mãos de Kadgien.
Depois da derrota da Alemanha, Kadgien fugiu para a América do Sul e acabou vivendo na Argentina. Décadas mais tarde, uma pintura ligada à coleção que ele ajudou a administrar apareceu na casa de sua filha.
A obra desapareceu da residência
A descoberta jornalística teve consequências imediatas. De acordo com Débora Rey e Isabel Debre, da Associated Press, quando as autoridades argentinas chegaram à residência, a pintura também havia desaparecido do local.
A polícia realizou operações em imóveis relacionados à família e apreendeu documentos, desenhos, gravuras e outros objetos que poderiam ajudar a esclarecer a origem de obras encontradas na investigação.
O quadro, entretanto, não foi localizado imediatamente. Dias depois, o advogado da família entregou a pintura às autoridades argentinas. A obra voltou a ficar sob custódia oficial, permitindo que especialistas analisassem sua procedência e comparassem suas características com os registros históricos.
A investigação chegou à Justiça
Patricia Kadgien e seu marido, Juan Carlos Cortegoso, foram acusados pelas autoridades argentinas de ocultar a pintura.
Segundo a investigação, o casal teria mantido a obra escondida mesmo sabendo que ela era procurada por autoridades argentinas e internacionais. O caso criminal, porém, terminou com um acordo que permitiu a entrega definitiva da pintura sem que o casal fosse levado a julgamento.
Em setembro de 2026, o juiz argentino Santiago Inchausti aprovou o acordo. Com isso, os dois abriram mão de qualquer reivindicação sobre a obra e aceitaram sua restituição ao herdeiro legítimo.
Como parte do acordo, o casal deverá permanecer sob supervisão judicial durante dois anos e fazer pagamentos a um hospital de Mar del Plata.
A pintura voltará para a família de Goudstikker
A pessoa reconhecida como herdeira da obra é Marei von Saher, ligada à família de Jacques Goudstikker. Ela passou décadas tentando recuperar obras que pertenciam ao comerciante de arte judeu.
A restituição representa mais uma etapa de um processo muito maior. Mais de 200 obras da coleção de Goudstikker já foram localizadas e devolvidas à família, mas centenas continuam desaparecidas ou sem identificação definitiva.
O caso também mostra por que documentos antigos podem ser fundamentais para recuperar obras saqueadas durante a guerra. Goudstikker mantinha um pequeno caderno utilizado para registrar sua coleção, e esse material permaneceu com sua família após sua morte.
Os registros ajudaram posteriormente pesquisadores e herdeiros a demonstrar a procedência de obras que reapareceram décadas depois.








