Ouça agora

Mapa usado há quase 500 anos faz a Groenlândia parecer do tamanho da África; ONU quer mudar o desenho ensinado nas escolas


Por Matheus Chaves

17/09/2026 às 00h17

Mapa usado há quase 500 anos faz a Groenlândia parecer do tamanho da África; ONU quer mudar o desenho ensinado nas escolas
Imagem: Brgfx/Magnific

Na escola você deve ter estudado o mapa mundial conforme a projeção Mercator, a qual é utilizada há quase 500 anos. Nela, a Groenlândia parece ter o mesmo tamanho da África. Isso não corresponde à realidade, pois o território africano é cerca de 14 vezes maior. Diante disso, segundo informações do portal Smithsonian, a Organização das Nações Unidas (ONU) quer mudar o desenho que é ensinado nas instituições educacionais.

A discussão ganhou força depois que a Assembleia Geral da ONU aprovou, em 4 de setembro de 2026, uma resolução que recomenda a utilização de mapas capazes de representar com maior precisão a proporção entre os territórios. A proposta foi apresentada por Togo com apoio da União Africana e recebeu 164 votos favoráveis, enquanto apenas os Estados Unidos votaram contra. Outros seis países se abstiveram.

A decisão, porém, não determina que todos os países abandonem imediatamente a projeção de Mercator. O documento não tem força de lei e funciona como uma recomendação para governos, escolas, organizações internacionais e empresas de tecnologia considerarem outras representações quando o tamanho relativo dos territórios for importante.

Por que a Groenlândia parece tão grande?

A projeção de Mercator foi criada em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator. Seu objetivo original não era produzir uma representação perfeita do tamanho dos continentes, mas resolver um problema específico da navegação marítima.

Nesse sistema, as linhas de direção constante podem ser traçadas de maneira particularmente útil para orientar embarcações. O recurso foi importante para os navegadores porque facilitava o planejamento de rotas utilizando bússolas.

O problema aparece quando o mesmo mapa é utilizado para comparar a dimensão dos países e continentes. A projeção aumenta progressivamente a representação das áreas que ficam mais próximas dos polos. Regiões localizadas perto da linha do Equador, por outro lado, acabam parecendo menores do que realmente são em relação às demais.

É por isso que a Groenlândia pode parecer próxima do tamanho da África em um mapa de Mercator. Na realidade, o continente africano possui uma área aproximadamente 14 vezes maior que a ilha.

Um mapa não consegue representar a Terra perfeitamente

A mudança proposta pela ONU também envolve uma questão básica da cartografia: não existe uma maneira de colocar toda a superfície curva da Terra em uma folha plana sem produzir algum tipo de distorção.

Quando um globo terrestre é transformado em uma representação bidimensional, alguma característica precisa ser sacrificada. Dependendo da projeção utilizada, podem ocorrer alterações nas áreas, nos formatos, nas distâncias ou nas direções.

A Mercator prioriza a representação das direções, o que explica sua importância histórica para a navegação. O problema é utilizar essa mesma projeção como se ela fosse uma representação fiel do tamanho dos territórios.

Dessa forma, a discussão atual não significa que o mapa criado por Mercator esteja simplesmente “errado”. Ele foi desenvolvido para uma finalidade específica e continua tendo aplicações em determinadas situações. A questão levantada pela ONU é se ele deve continuar sendo usado como principal referência para mostrar as proporções territoriais do planeta.

Equal Earth aparece como alternativa

Entre as opções mencionadas pela ONU está a projeção Equal Earth, desenvolvida em 2018 pelos cartógrafos Tom Patterson, Bojan Šavrič e Bernhard Jenny.

O objetivo desse modelo é preservar de maneira mais fiel a proporção entre as áreas dos continentes e países. Com isso, regiões próximas ao Equador deixam de ser visualmente diminuídas enquanto territórios próximos aos polos deixam de receber o aumento característico da projeção de Mercator.

A mudança altera bastante a aparência do mapa. A África, por exemplo, passa a ocupar uma área proporcionalmente muito maior em relação à Groenlândia, ao Canadá e a outras regiões que aparecem ampliadas na Mercator.

Isso não significa que a África esteja sendo “aumentada” no novo mapa. O que acontece é o contrário: a representação tenta eliminar parte da ampliação artificial que a Mercator produz nas regiões próximas aos polos.

Por que a ONU quer levar a mudança para as escolas?

A preocupação apresentada pelos defensores da mudança não está apenas relacionada à precisão matemática. O argumento é que mapas também influenciam a maneira como as pessoas constroem uma imagem mental do planeta.

Quando uma determinada representação é utilizada durante anos em livros didáticos, meios de comunicação e materiais oficiais, ela se transforma na referência visual que muitas pessoas utilizam para comparar países e continentes.

Pesquisadores citados pela revista Nature apontam que as pessoas podem associar visualmente o tamanho de uma região à sua importância, mesmo quando sabem que existe uma distorção cartográfica. Por isso, a forma como o planeta é apresentado pode influenciar a percepção sobre diferentes partes do mundo.

A resolução aprovada pela ONU relaciona essa discussão especificamente à representação da África e recomenda que as limitações das projeções bidimensionais também sejam ensinadas. Assim, a ideia não é apenas trocar uma imagem por outra, mas explicar aos estudantes por que diferentes mapas apresentam o planeta de maneiras distintas.

Togo pretende começar a mudança

Togo foi um dos principais responsáveis pela iniciativa que chegou à Assembleia Geral da ONU. O país liderou as negociações com apoio da União Africana e pretende alterar seus próprios materiais escolares.

Segundo informações divulgadas pela Reuters antes da votação, o governo togolês pretendia começar a substituir os mapas utilizados nos livros de geografia ainda em 2026. A proposta faz parte de uma campanha mais ampla para ampliar o uso de representações que mostrem com maior precisão o tamanho dos territórios africanos.

A iniciativa também ganhou apoio da União Africana em 2025. O movimento defende que a representação cartográfica não deve continuar utilizando uma projeção criada para uma finalidade específica como se ela fosse a melhor alternativa para todas as situações.