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De cada 100 adolescentes brasileiros, 51 não conseguem interpretar textos e 72 tropeçam em contas simples do dia a dia


Por Matheus Chaves

09/09/2026 às 05h08

De cada 100 adolescentes brasileiros, 51 não conseguem interpretar textos e 72 tropeçam em contas simples do dia a dia
Imagem: Pvproductions/Magnific

Na terça-feira (8), uma pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa 2025), trouxe dados alarmantes em relação ao ensino no Brasil. Isso porque, de cada 100 adolescentes brasileiros de 15 anos, 51 não conseguem interpretar textos. Já 72 se quer se mostram com conhecimento para resolver contas simples.

Os números fazem parte da edição de 2025 do Pisa, avaliação internacional que verifica se estudantes de 15 anos conseguem utilizar conhecimentos de leitura, matemática e ciências em situações práticas. No Brasil, participaram 30.140 alunos de 1.053 escolas.

O que os estudantes conseguem fazer

O resultado em leitura significa que 49% dos adolescentes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência, considerado o patamar mínimo estabelecido pelo Pisa. Nesse estágio, o estudante consegue, por exemplo, encontrar informações em um texto de tamanho moderado, identificar sua ideia principal e compreender determinados aspectos de sua estrutura quando recebe orientação.

Na prática, isso mostra que a dificuldade não está necessariamente em reconhecer palavras ou realizar uma leitura básica. O problema aparece quando é necessário transformar aquilo que foi lido em compreensão.

Um texto pode trazer informações explícitas, diferentes ideias e um determinado objetivo. Para interpretá-lo adequadamente, o aluno precisa relacionar essas partes e identificar o que o conteúdo está efetivamente comunicando. É justamente esse tipo de habilidade que separa os estudantes que alcançam o nível mínimo daqueles que ficam abaixo dele.

Matemática apresenta um cenário ainda mais preocupante

Se a leitura já mostra uma dificuldade relevante, a situação é ainda mais complicada em matemática. Somente 28% dos estudantes brasileiros chegaram ao nível 2 ou superior no Pisa 2025.

Isso significa que aproximadamente 72 em cada 100 adolescentes não atingiram o patamar mínimo de proficiência nessa área. Entre as habilidades esperadas nesse nível está a capacidade de interpretar uma situação simples e transformá-la em uma representação matemática sem precisar receber instruções diretas sobre como fazer isso.

Esse conhecimento está relacionado a situações que aparecem fora da escola e exigem contas simples. Comparar distâncias entre trajetos diferentes ou fazer uma conversão de preços entre moedas são exemplos utilizados pela própria OCDE para representar o tipo de raciocínio esperado.

Portanto, o resultado não significa simplesmente que esses estudantes não conseguem fazer uma operação matemática. A questão envolve uma dificuldade maior: identificar qual cálculo ou estratégia deve ser utilizado diante de um problema apresentado em uma situação cotidiana.

Brasil ficou abaixo da média internacional

Os resultados também mostram uma diferença considerável entre os estudantes brasileiros e a média dos países que fazem parte da OCDE.

Em leitura, o Brasil alcançou 408 pontos, enquanto a média da organização foi de 466. Em matemática, a distância foi ainda maior: foram 377 pontos brasileiros contra 469 da média da OCDE. Em ciências, o país registrou 409 pontos, diante de 486 na média internacional.

A comparação ajuda a dimensionar o problema porque o Pisa não avalia apenas conteúdos decorados durante a vida escolar. A prova procura verificar se os adolescentes conseguem aplicar aquilo que aprenderam diante de situações que exigem interpretação, raciocínio e resolução de problemas.

Ciências foi a única área com melhora

Ciências foi o único campo em que o Brasil apresentou uma melhora considerada significativa em relação a 2022. Ainda assim, a pontuação nacional permaneceu abaixo da média da OCDE. Em leitura e matemática, os resultados de 2025 ficaram praticamente estáveis em relação à edição anterior.

O desempenho brasileiro também permanece relativamente próximo do observado nas avaliações realizadas desde 2015. Isso indica que o país não conseguiu produzir uma mudança expressiva nos últimos anos em competências fundamentais avaliadas pelo programa.

Desigualdade também interfere no desempenho

O desempenho não é distribuído de maneira uniforme entre os estudantes brasileiros. As condições socioeconômicas aparecem entre os fatores associados às diferenças de aprendizagem.

No Pisa 2025, a distância entre os estudantes brasileiros mais favorecidos e os mais vulneráveis chegou a 96 pontos em ciências. O dado mostra que a realidade econômica e social do aluno continua relacionada às oportunidades de aprendizagem.

Essa relação é importante porque o desempenho escolar não depende exclusivamente do conteúdo apresentado em sala de aula. Acesso a recursos educacionais, condições de estudo e características do ambiente familiar também podem influenciar a trajetória de aprendizagem.