Polo produtor de cuecas e meias, indústria de moda e vestuário aposta em inovação para continuar relevante
Empresas tradicionais apostam em tecnologia, criatividade e localização da cidade, mas ainda enfrentam entraves logísticos e tributários
Se Juiz de Fora nasceu industrial, como suas indústrias tradicionais conseguem continuar relevantes em uma economia marcada por tecnologia, comércio eletrônico, novas marcas e mudanças rápidas no comportamento do consumidor? A pergunta dá seguimento à série de reportagens especiais do aniversário de 45 anos da Tribuna, voltada para a reconstrução do município a partir do questionamento sobre quais atividades econômicas têm potencial para sustentar a geração de emprego e renda nas próximas décadas, após a devastação causada pelas chuvas de fevereiro.
Tradição industrial não significa necessariamente um modelo de negócios antigo – e a cadeia de moda e vestuário na cidade demonstra isso. Dentre as vocações de Juiz de Fora, a produção de algumas peças de roupa se destaca. De acordo com o portal Desenvolve Juiz de Fora, desenvolvido pela Prefeitura, a cidade é o maior polo produtor de cuecas e o segundo maior de meias em todo o Brasil. O setor possui ao todo 423 empresas.
Neste contexto, surge o Arranjo Produtivo Local (APL) do Vestuário Farol da Mata. Consiste em um agrupamento de empresas, produtores e instituições de uma mesma região que trabalham juntos em atividades econômicas semelhantes ou ligadas. O documento aponta aproximadamente 1.540 empresas ligadas ao setor têxtil e de confecções em Juiz de Fora, responsáveis por cerca de 3.500 empregos diretos.
Para a presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Juiz de Fora (Sindivest-JF) e do APL do Vestuário Farol da Mata, Mariângela Miranda Marcon, o APL representa uma mudança de visão: “a indústria do vestuário não deve ser enxergada apenas como um conjunto de empresas isoladas, mas como uma cadeia produtiva que pode trabalhar de forma integrada, compartilhando conhecimento, tecnologia, qualificação, inovação e acesso a mercados”.
“Juiz de Fora e a Zona da Mata têm uma história industrial muito forte, com os setores têxtil e do vestuário como parte da própria formação econômica da cidade. Temos empresas tradicionais, mão de obra qualificada, instituições de ensino, Senai, universidades, fornecedores e uma localização estratégica. O que precisamos fazer agora é transformar esse patrimônio histórico em uma vantagem competitiva para o futuro. Em vez de cada empresa enfrentar sozinha os desafios da inovação, da tecnologia, da qualificação profissional, da sustentabilidade e do comércio digital, podemos construir uma estratégia coletiva.”
Mesmo assim, Mariângela reforça a necessidade de políticas públicas mais efetivas para fortalecer a indústria local. “Não basta reconhecer que temos tradição industrial. É necessário criar condições para que essa indústria permaneça, invista, cresça e atraia novos investimentos. Precisamos de políticas de infraestrutura, logística, crédito, inovação, qualificação profissional, simplificação tributária e estímulo à modernização das empresas, bem como aproximar ainda mais Município, Estado, Governo federal, Fiemg, Senai, Sebrae, universidades e empresários. Não podemos ficar apenas esperando que cada empresário, individualmente, resolva todos esses desafios.”
Vocação que se transforma
Tradição industrial não significa indústria antiga, nas palavras de Mariângela. “Uma empresa pode ter até 100 anos de história e, ao mesmo tempo, estar entre as mais modernas do segmento. O que diferencia uma indústria tradicional que sobrevive de uma que cresce é a capacidade de se reinventar. Hoje, uma indústria de vestuário não pode pensar apenas em produzir uma peça. Ela precisa entender comportamento do consumidor, design, marca, tecnologia, comércio eletrônico, inteligência artificial, sustentabilidade, rastreabilidade, novos materiais e novos canais de venda. A indústria precisa estar conectada ao consumidor. E Juiz de Fora tem condições de fazer isso.”
Não por acaso, o destaque no segmento de meias se reflete no negócio de João Amaral. O dono da Malhas D’Estefano, cuja fábrica fica localizada no Parque Guarani, na Região Nordeste de Juiz de Fora, começou a trajetória como bancário, mas em seguida já começou a vender agulhas para malharias. A partir dessa experiência, “João das Meias”, como é conhecido, enxergou o ramo como positivo tanto para ele como para sua família.
“Minha empresa tem 37 anos. Já fabriquei calça, camisa. Comecei a fabricar meias em 2001. No ano seguinte, me especializei nisso e parei com as demais produções. Hoje eu tenho 112 teares e 115 funcionários – e cada par que fazemos passa na mão de todos. Mando meia para todo o território do Brasil e ainda tenho clientes que exportam minha mercadoria. Eu ainda não faço exportação, mas estou em tratativas para mandar para o Japão e para o Paraguai”, revela.

Da mesma forma, o sucesso da Chico Rei e do seu fundador, Bruno Imbrizi, começou na vocação. Ele começou a marca ainda enquanto estudante da UFJF. “Queria produzir em larga escala o que eu criava na faculdade”, conta. A mãe sempre teve confecção, então, de acordo com Bruno, o “cheiro da malha” o atraía para a fábrica: chegar no universo da moda, embora enxergue o negócio mais como design, foi um caminho natural, não planejado.
“Comecei como ilustrador, como o artista que construía os produtos. Isso vem também da necessidade por liberdade. A Chico Rei tem quase 20 anos e, no cenário atual, é tudo muito acessível. O que você deseja, você consome. Quando comecei, não era essa realidade. Criei uma marca em que eu pudesse produzir o que eu acreditava, uma liberdade de expressão e, também, financeira através do meu trabalho.
O diferencial de Juiz de Fora
Para se manter no mercado hoje, a perspectiva de João inclui inovação, maquinário novo e tecnologia atualizada. Outro fator apontado por ele é a pouca venda no mercado on-line, enquanto continua com as negociações “porta a porta” com os representantes.
“É um trabalho de formiguinha diário, ligando e visitando os clientes para poder continuar ativo no mercado. Além disso, necessita de equipamentos de ponta. Tenho as melhores máquinas do mundo, italianas. Produzimos uma faixa de 5 a 6 milhões de pares de meia por ano.” Ele também é presidente do Sindimeias, da Fiemg. De acordo com João, Juiz de Fora tem mais de 60 fábricas de meia em funcionamento. É o segundo polo do Brasil, bem atrás do primeiro – São Paulo.
O destaque da Chico Rei também aparece nos números: já vendeu para mais de 30 países e produz, em média, 250 estampas e mais de 500 mil camisetas por ano. Além disso, o comércio na própria cidade é forte. “Juiz de Fora compra a marca. Dá para perceber que a Chico Rei é um orgulho para JF”, afirma com alegria. E, para ele, o diferencial sempre será a potência criativa.
“Temos a mesma gana nesse quesito desde o primeiro dia. E com a maturidade, tanto da empresa quanto minha, fui entendendo que a potência deveria ser coletiva também. Quando você associa a marca com os projetos que realizamos, com a nossa comunidade, o que ela investe em termos culturais e impacto social, é um complemento do que acredito. Criatividade é muito além do design, e essa potência se alimenta das histórias que construímos. 50% das vendas da Chico Rei hoje são produtos que são criados em colaboração com outras marcas.”
Um ponto em específico foi citado tanto por João como por Bruno: a localização de Juiz de Fora. A proximidade com Rio de Janeiro, Belo Horizonte e, sobretudo, São Paulo, por meio das estradas (BR-040 e BR-267), aeroporto e ferrovia, coloca a cidade como um ponto estratégico de integração. “É a potência de ser uma cidade média. Você consegue ainda uma locomoção melhor que em cidade grande. E o acesso é o mesmo, especialmente por conta do on-line. Quanto ao pessoal, também entrega qualidade em gastronomia, lazer, segurança e mais se comparado a outras cidades maiores. Uma melhor qualidade de vida, na minha percepção”, opina Bruno.

Dificuldades permanecem
Mesmo com a localização vantajosa em relação ao comércio, ela pode ser melhorada na visão dos dois empreendedores. Por exemplo, em relação ao aeroporto. “Juiz de Fora continua com pouca oportunidade de voo, com valores absurdos para a gente poder ir a São Paulo, que é o maior polo industrial de moda e vestuário do Brasil. Viajando para lá, você perde, de cara, um dia se locomovendo. Fica difícil”, comenta João Amaral.
“Essa discussão deveria ser um lobby político da cidade. Não gosto de falar ‘Juiz de Fora é linda pelo seu povo’. Tem povo lindo em toda cidade. A cidade tem que prover espaço para você evoluir, se conectar. Quando comparamos com outras cidades, é uma discrepância gigantesca. Não tem como comparar o volume de dinheiro com São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. Temos que promover sempre uma integração muito forte, porque nós somos muito privilegiados com localização. A gente chega bem de carro no Rio e em BH, e de avião em São Paulo – se tiver voo. Estar em Juiz de Fora hoje é uma perda de um dia útil na entrega”, complementa Bruno.
O fundador da Chico Rei exemplifica que há uma região em Santa Catarina com centenas de indústrias do ramo têxtil relacionadas a tecelagem, tinturaria e confecções: “um universo que roda em torno disso”. Ele ainda cita São João Nepomuceno, forte quanto à produção de material para calças. “Juiz de Fora não tem isso. Não tem nem conexão, e digo isso porque eu busco o mesmo.”
Além disso, Bruno faz um alerta: o setor da moda e vestuário não continua forte em Juiz de Fora. “As indústrias têxteis e as malharias quase não existem mais em relação ao passado. Marcas desapareceram ou foram engolidas por uma cultura globalizada. O município não é mais celeiro criativo: perdemos espaço. Não vemos o reflexo de ter faculdade de moda aqui. Antes tinha o Fashion Days, que não perdia para outros Fashion Week.”
“O empresário do ramo têxtil que não se preparou financeiramente, tendo uma reserva, vem sentindo dificuldades. Cada dia que passa, a gente sente o arrocho fiscal, cada dia que passa mais impostos, torna-se difícil manter o negócio hoje em dia”, diz também João.
Apoio em todos os setores
Mariângela, do Sindivest-JF e APL do Vestuário Farol da Mata, acredita que é necessário transformar os ativos em vantagem competitiva real, com infraestrutura, segurança jurídica, agilidade para implantação de empreendimentos, qualificação profissional, energia, conectividade e logística eficiente.
“O grande desafio é criar um ecossistema de inovação industrial. Precisamos fazer com que uma empresa pequena possa ter acesso à tecnologia que hoje está disponível apenas para as maiores, aproximar startups das indústrias, universidades dos empresários e centros de pesquisa das necessidades reais das fábricas”, enumera. Assim, na perspectiva dela, uma pequena confecção teria acesso a tecnologias que individualmente talvez não pudesse desenvolver. “Não acredito que o caminho seja abandonar a tradição industrial, mas, sim, usá-la como ponto de partida para construir uma nova indústria.”
A Chico Rei, inclusive, promove apoio por meio do Uma Penca, plataforma com a proposta de entregar infraestrutura gratuita e de qualidade para quem deseja empreender on-line sem barreiras. “Ela permite que qualquer organização ou pessoa – ilustrador, fotógrafo, artista – crie sua loja virtual e utilize toda a nossa estrutura de forma gratuita. Se você vender, eu produzo para você. Assim, simplificamos a indústria. Hoje são 33 mil lojas em um só espaço. Só precisa se preocupar com a parte criativa. Temos 340 investidores que entraram para fazer esse negócio acontecer junto comigo.”







