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Vira-lata caramelo: estudo inédito mostra que o DNA do animal ajuda a contar a história do Brasil

Pesquisa analisou mais de 4 mil cães sem raça definida e concluiu que o DNA desses animais pode revelar aspectos da história da ocupação do Brasil e da formação da população canina no país


Por Agência Content Box

02/08/2026 às 05h23

vira lata caramelo
Brasil tem uma das maiores populações de cães do mundo, e a maior parte dela é formada por animais sem raça definida (Foto: Pexels)

O vira-lata caramelo, símbolo nacional e até alvo de uma disputa bem-humorada entre Brasil e México, agora também é protagonista de um estudo inédito que mostra como o DNA desses cães pode ajudar a contar a história da formação da população canina brasileira.

A pesquisa conduzida pela PetGenoma, empresa instalada na Universidade de São Paulo (USP), analisou mais de 4 mil cães sem raça definida e concluiu que o DNA desses animais pode revelar não apenas sua ancestralidade, mas também aspectos da história da ocupação do Brasil e da formação da população canina no país.

O estudo foi realizado entre 2024 e 2026 e coletou materiais de animais localizados em praticamente todas as regiões do país. O objetivo, segundo Edu Lemos, CEO da PetGenoma, foi preencher uma lacuna no conhecimento científico sobre a população canina brasileira.

“O Brasil tem uma das maiores populações de cães do mundo, e a maior parte dela é formada por animais sem raça definida. Mesmo assim, praticamente todo o conhecimento genético veterinário disponível hoje foi construído a partir de cães de raça, principalmente da Europa e dos Estados Unidos. Existe um mapa detalhado do Golden Retriever e um espaço em branco quando falamos do vira-lata”, afirma, em entrevista à Rádio 98.

A coleta foi feita com um swab, um cotonete passado na gengiva dos cães, um procedimento simples, indolor e que não exige agulhas nem sedação. Em seguida, as amostras foram analisadas no laboratório da empresa, dentro da USP. Os testes investigaram mais de 300 variantes genéticas relacionadas à predisposição a doenças hereditárias, resposta a medicamentos, risco de câncer, tendência à obesidade, grau de consanguinidade e composição racial dos animais.

Cada vira-lata conta uma história diferente

Uma das principais conclusões do levantamento é que existe um padrão quando se observa a população como um todo, mas praticamente nenhum quando a análise é feita em cada animal individualmente.

Segundo Edu, as raças identificadas com maior frequência ajudam a contar a história da ocupação do Brasil, das ondas de popularidade de determinadas raças ao longo das décadas e até dos padrões de abandono de animais. O pesquisador destaca que esse é um dos resultados mais surpreendentes do estudo.

“No conjunto, o vira-lata brasileiro tem uma assinatura genética que poderá ser cada vez mais reconhecível como população. Mas, no indivíduo, acontece exatamente o contrário. Dois cães que parecem irmãos, com o mesmo porte, a mesma cor caramelo e a mesma orelha dobrada, podem ter composições genéticas quase sem nenhuma interseção”, explica.

“” aparência do vira-lata não é herança de uma raça específica, é uma convergência. Quando uma população cruza livremente por muitas gerações, ela tende a voltar para um formato médio, com porte intermediário, pelo curto e pelagem clara. O vira-lata caramelo não é uma raça em formação, mas uma miscigenação genética que depende da história de cada país”, continua.

Além da origem racial, o DNA também revelou informações importantes para a saúde dos animais.

“Encontramos alterações que antes eram associadas apenas a determinadas raças. Um cão sem nenhum traço visível de cães pastores, por exemplo, pode carregar uma variante genética que o torna sensível a medicamentos de uso rotineiro, como alguns antiparasitários. Olhando para ele, ninguém desconfiaria. O DNA entrega em uma linha o que a aparência esconde a vida inteira”, afirma.

O mito do vira-lata caramelo sempre saudável

A pesquisa também coloca em discussão uma das crenças mais populares entre tutores: a de que cães sem raça definida seriam naturalmente mais saudáveis. Para Edu Lemos, essa ideia tem fundamento científico, mas apenas até certo ponto.

“O mito tem um fundo de verdade, e é justamente esse fundo de verdade que o torna perigoso.” Ele explica que o chamado “vigor híbrido” realmente reduz o risco de algumas doenças hereditárias quando há cruzamentos entre animais geneticamente distantes.

Estudos internacionais mostram que cães mestiços apresentam menor incidência de parte das doenças genéticas observadas em cães de raça. O problema, segundo o pesquisador, é que essa vantagem desaparece quando os cruzamentos ocorrem repetidamente entre animais aparentados.

“O cão de rua não escolhe parceiro em escala nacional, ele escolhe em escala de quarteirão. Uma comunidade, um bairro, uma colônia de rua ou um abrigo funcionam como uma ilha reprodutiva. Em cinco ou seis anos, todos os cães daquela região podem ser primos entre si sem que ninguém perceba”, explica.

De acordo com ele, esse cenário aumenta a chamada homozigose, quando o animal recebe cópias iguais de um mesmo gene do pai e da mãe.

“A maioria das doenças hereditárias graves é recessiva e só se manifesta quando as duas cópias do gene apresentam a alteração. Quanto mais aparentados os pais, maior a chance de isso acontecer.”

Entre as consequências estão o aparecimento de doenças hereditárias antes silenciosas, menor diversidade genética do sistema imunológico, o que pode dificultar a resposta a infecções, e a chamada depressão endogâmica, caracterizada por ninhadas menores, filhotes mais frágeis e maior mortalidade nos primeiros dias de vida.

O estudo também calculou o coeficiente de endogamia, um indicador que mede o quanto os pais, avós e outros ancestrais de um cão eram “parentes” entre si. Quanto maior esse índice, maior a chance de o animal herdar duas cópias iguais de um mesmo gene, o que aumenta o risco de algumas doenças hereditárias.

“A única forma de saber é ler o genoma. O coeficiente de endogamia genômico mede a consanguinidade real do animal, inclusive cruzamentos antigos que nenhuma árvore genealógica registraria.”

No levantamento, mais de 25% dos cães sem raça definida apresentaram um coeficiente de endogamia acima do considerado esperado para a população analisada.

Teste pode mudar a forma de cuidar dos animais

Além de ajudar a identificar a ancestralidade dos cães, o estudo reforça que o teste genético pode se tornar uma ferramenta importante para a medicina veterinária preventiva. Para Edu Lemos, o exame funciona como um histórico familiar para cães que tiveram origem desconhecida.

“Na medicina humana, a primeira coisa que o médico pergunta é o histórico da família. Do que os pais adoeceram, do que os avós morreram. Toda a medicina preventiva se apoia nisso. O vira-lata é o único paciente que jamais conseguiu responder a essa pergunta. O teste genético responde por ele.”

Segundo o CEO da PetGenoma, uma das aplicações mais importantes está na farmacogenética. Algumas variantes genéticas, como a MDR1, tornam determinados cães extremamente sensíveis a medicamentos de uso comum.

“Saber disso antes da primeira cirurgia ou da primeira prescrição muda completamente a conduta do veterinário. Não existe exame de sangue que antecipe esse risco. Ou você conhece o genótipo, ou pode descobrir no pior momento possível.”

O exame também permite identificar predisposição para doenças cardíacas, renais, oftalmológicas e ortopédicas, além de avaliar risco para alguns tipos de câncer e tendência genética à obesidade.

“Em vez de esperar a doença aparecer, o veterinário pode monitorar o animal desde cedo, com o exame certo, na idade certa e na frequência adequada.”

Segundo Edu, conhecer também a composição racial do animal ajuda a personalizar o acompanhamento clínico.

“Para o vira-lata, saber quais raças fazem parte da sua composição genética funciona como uma bússola clínica. Ele deixa de ser um paciente sem histórico e passa a ser um paciente com esse histórico reconstruído a partir do próprio DNA.”

Pesquisa ainda está em desenvolvimento

Apesar dos resultados iniciais, Edu ressalta que o trabalho ainda está em construção e deve gerar novos estudos nos próximos anos.

Segundo ele, os pesquisadores já conseguiram identificar padrões importantes relacionados à endogamia, às características de pelagem e às raças mais presentes na composição genética dos cães brasileiros.

O próximo passo será aprofundar a investigação sobre a distribuição de doenças hereditárias e entender como a própria formação da sociedade brasileira se reflete no DNA dos vira-latas de diferentes regiões.

“Ainda há muito o que descobrir. O início foi dado, mas queremos entender cada vez mais como a história do Brasil também está registrada na genética dos nossos cães”, conclui.

A adoção é apenas o começo

Para o pesquisador, a principal mensagem do estudo é que a adoção representa apenas o início da relação entre tutor e animal.

“Ninguém adota um vira-lata pela genética dele. Adota pelo olhar, pelo encontro, pela história. Descobrir o que existe dentro dele não substitui nada disso. Só permite que essa história dure mais tempo e com mais qualidade.”

Ele reforça que o DNA do animal não muda ao longo da vida. “É provavelmente o único exame que o tutor faz uma única vez e utiliza para sempre, do filhote ao idoso. Cada consulta, cada anestesia, cada prescrição e cada decisão sobre alimentação podem se apoiar naquele mesmo resultado.”