Gerações na mesma página

A franquia ‘Jogos Vorazes” serve para Erica e a filha, Ana, discutirem questões ligadas aos tempos atuais
A cultura pop mantém-se firme não só com a garotada que chega/está na adolescência, mas também com aquela galera que já entrou na casa dos 30 e não tem vergonha de continuar abraçando as memórias da juventude e ainda curtir o que vem surgindo por aí. É o que se vê, por exemplo, na literatura e suas parcerias com o cinema: quem se enroscava em livros da longeva Coleção Vaga-Lume, o “Blecaute” de Marcelo Rubens Paiva e a trilogia “O Senhor dos Anéis” agora divide as edições de “Jogos Vorazes”, “Percy Jackson”, “Harry Potter”, “Crônicas de Nárnia” e – por que não? – a saga de Frodo e seus amigos, sem se esquecer de filmes, séries, quadrinhos… Se antigamente pais, mães, filhos e filhas tinham limites culturais bem demarcados, essa linha tem se tornado mais tênue e divertida, com os dois lados aguardo ansiosos, por exemplo, pelo novo trailer da próxima adaptação de “Jogos Vorazes”.
Mas esse “encontro de gerações” não se dá apenas pelo gosto de aventura e romance: para os mais velhos, principalmente, as séries literárias lidam com temas mais atuais e maduros que outrora. É o caso de Priscila Montini, 35, mãe de Sara (12), que costuma conversar com ela sobre filmes como “A saga divergente: Insurgente” e “Jogos Vorazes”. “Dos livros, a Sara leu apenas ‘Como treinar seu dragão’. Conversamos sobre como seria difícil viver no mundo dessas trilogias, como é maneiro o visual do filme… Só de romances que ela ainda não fala nada” (risos). “O que tenha influenciado, talvez, seja a vontade de ser forte sempre, que é o que passam essas heroínas”, acrescenta, destacando já ter lido livros das séries “As crônicas de Nárnia”, “Fallen”, entre outras.
Mãe de Ana, 17, Erica Fonseca, 37, gosta das obras direcionadas aos jovens e discute com a filha questões que vão do sexo à religião. “Essas obras são importantes para aumentar o interesse pela leitura, ajudam a ver um mundo diferente, a ter a mente mais aberta, criatividade, personalidade, coragem, força e determinação”, argumenta Erica, que encontra eco na opinião da filha adolescente. “Às vezes, a gente tem medo de fazer algo pelo que vão pensar, de dizer o que queremos, e quando a gente vê um personagem agindo com coragem e determinação acabamos nos inspirando. E isso me ajudou muito”, afirma Ana, fã de Katniss Everdeen (“Jogos Vorazes”), mas que também curte sagas como “Insurgente”, “Percy Jackson” e “Fallen”. “Também me identifico com a Tris do ‘Insurgente'”, diz a estudante, que já cortou o cabelo inspirado em outra personagem: a Hazel do best-seller “A culpa é das estrelas”.
Priscila assiste com Sara a alguns dos filmes inspirados por livros desde quando a filha era pequena, o que ajuda a fazer com que ela entenda alguns dos temas mais complexos. “Violência nem me preocupa tanto… Fico mais preocupada com o excesso de sensualidade; os artistas no Brasil, hoje, inspiram as meninas a serem sensuais muito novas.”

Sara acompanha a mãe, Priscila, em convenções e divide com ela a paixão pela cultura pop
Com os pais, sempre que possível
Não faltam adolescentes que tenham nas trilogias um exemplo de atitude. Além de Ana, as estudantes Fernanda Uliano (16) e Marina Dalcol (14) têm suas preferências literárias e cinematográficas. “Já li ou assisti ‘Eragon’, ‘Harry Potter’, ‘O Senhor dos Anéis’/’O hobbit’, ‘Percy Jackson’. Eu amo todas, não acho que tenha uma favorita, mas talvez seja ‘Eragon’. A lealdade entre os amigos nas histórias serve de exemplo, e um pouco da infância fica com esses temas”, diz Fernanda. “Minha saga preferida é ‘Percy Jackson'”, crava Marina. “Além de ter sido a primeira saga que li e a que mais marcou minha infância e adolescência, me identifico muito com os personagens, me vi várias vezes em situações parecidas com as que eles viviam, podendo, assim, amadurecer junto a eles”, continua Marina.
As duas jovens dizem que seus pais compartilham de alguma forma a curiosidade de acompanhar esses novos universos e conversar sobre eles. “Meus pais (Sandra e Carlos Alberto) sempre me influenciaram a ler, me informar e a adquirir senso crítico, mas, às vezes, se assustam com o nível de maturidade que algumas discussões levam e com a formação de minhas opiniões, principalmente na área de direitos humanos, representatividade de minorias, política e ética”, diz Marina Dalcol.
Dividindo-se entre os papéis de leitora e mãe, Priscila quer que a filha Sara saiba separar o que é diversão daquilo que realmente possa servir de inspiração. “Os pais precisam estar atentos, não necessariamente lendo o que eles leem, nem regulando e proibindo, mas observando o que está afetando os filhos”, conclui Priscila.








