Maioria nas urnas, minoria no poder
As mulheres continuam em minoria nas instâncias de poder, especialmente na formação dos legislativos
Os números apresentados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o eleitorado brasileiro são reveladores – as mulheres são maioria, mas tal cifra não se materializa nos parlamentos, e muito menos no comando dos partidos. Na atual legislatura, apenas 18,1% das cadeiras da Câmara dos Deputados são ocupadas por mulheres, mesmo com 52,83% do eleitorado sendo feminino em 2026. No Senado, a proporção é semelhante: as mulheres são menos de 20% do total de parlamentares.
Tal disparidade deixa o país em situação incômoda nos índices globais: o Brasil ocupa a 133ª posição de representação feminina apurada pela ONU Mulheres. Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná apontam um crescimento lento e gradual, mas a equiparação de cadeiras ainda é um dado distante. Pesquisa da Oxfam Brasil calculou que, no ritmo atual de equiparação entre candidaturas de homens e mulheres, seriam necessários 144 anos.
Em Juiz de Fora, desde a eleição de Vera Faria, em 1966 (ela teve dois mandatos: 1967-1970 e 1973-1976), o número de vereadoras tem um crescimento gradual, mas lento. A maior bancada foi eleita em 2024. Entre os 23 eleitos, 5 são mulheres, ainda longe da fração ideal, uma vez que, também em Juiz de Fora, as mulheres são maioria entre eleitores e na população. Além disso, nenhuma mulher presidiu o legislativo local.
A despeito dos muitos estudos, ainda não há uma explicação definitiva sobre tal disparidade que, aliás, também é comum em outros países. A violência política de gênero é, de fato, um dos componentes: 81% das parlamentares no Congresso brasileiro e 75% das candidatas a prefeita em 2020 relataram algum tipo de violência de gênero.
O modelo de financiamento de campanha também contribui para o quadro. Embora exista cota de recursos, o TSE decidiu que despesas com segurança pessoal das candidatas – hoje custeáveis pelo fundo eleitoral por causa do risco da atividade política – não podem ser contabilizadas dentro da cota mínima de 30% destinada às candidaturas femininas, justamente para impedir que os partidos cumpram a cota “no papel” sem investir de fato nas campanhas de mulheres. Isso indica que a lei existe, mas as legendas têm uma dinâmica própria para burlá-la.
O discurso de que mulher não vota em mulher é uma das formas mais perversas de justificar a disparidade, pois reflete por si só o preconceito. A questão começa na formatação das chapas e, sobretudo, na distribuição de recursos. Além das mulheres, candidatos negros ou candidatas negras também passam pelas mesmas restrições. Ao fim e ao cabo, os partidos adotam uma lógica utilitarista de priorizar os potenciais eleitos.
Tal disparidade também é vista no Judiciário e nos governos: apenas 28 países são liderados por uma mulher chefe de Estado ou de Governo, e em outros 101 nunca houve uma mulher no comando.
O Brasil elegeu Dilma Rousseff em duas ocasiões, mas seu segundo mandato foi interrompido por um impeachment cuja gênese teve motivações de gênero e de disputa política. Personagens que endossaram a decisão admitiram, posteriormente, que ela caiu por rejeitar acordos, ser autoritária e não ceder a pressões, mas não cometeu qualquer ilícito (nem as pedaladas) em sua passagem pelo poder.









