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Grupo Divulgação chega aos 60 anos como patrimônio da cena juiz-forana

Criado na UFJF, grupo consolidou projetos de formação e acesso ao teatro ao longo de seis décadas


Por Beatriz Bath

07/07/2026 às 06h00

grupo divulgação gd 60 anos
Montagem de ‘Bodas de sangue’, em 1968, uma das primeiras do Grupo Divulgação (Foto: Reprodução/Grupo Divulgação)

Criado em 1966 por um grupo de universitários, o Centro de Estudos Teatrais (CET) – Grupo Divulgação completa, nesta terça-feira (7), 60 anos de atividade. Considerado patrimônio imaterial de Juiz de Fora, o grupo é reconhecido nacionalmente e responsável por diversos projetos de democratização do acesso ao teatro na cidade.

Para comemorar tamanha trajetória que vai para além dos palcos, o GD preparou uma programação especial e gratuita com peças, mostras, exibição de documentário e palestra, que representam uma oportunidade para o público juiz-forano mergulhar na história do grupo, que está longe de acabar.

Mas, para além da programação comemorativa, o grupo também aproveita a data para refletir sobre as mudanças que aconteceram no teatro e no público ao longo dessas seis décadas.

‘Não era nada, mas era tudo’

O Grupo Divulgação foi criado por um grupo de estudantes de jornalismo na antiga Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), parceria que perdura até os dias atuais, com os projetos de extensão do GD na universidade.

A motivação do grupo, inicialmente, foi diversificar sua formação como jornalistas – já que consideravam o teatro importante para a atuação como comunicadores – e logo se tornou algo maior.

Criado durante o período da ditadura militar, o Divulgação precisou encontrar alternativas para se resguardar da perseguição da época, muito presentes em universidades públicas. E, por isso, criar a companhia como um centro de estudos foi uma alternativa certeira.

Além disso, os integrantes encontraram uma forma de falar sobre os assuntos que queriam, escapando da censura. José Luiz Ribeiro, diretor do Grupo Divulgação, explica: “Começamos a fazer montagens de textos clássicos, que tratavam de temas que queríamos falar, e eram temas importantes”.

Ao falar de forma indireta sobre o contexto social da época, o grupo conseguia engajar o público, ainda que de forma resguardada. “Não era nada, mas era tudo”, define José Luiz.

Um exemplo relembrado por José Luiz é a montagem de “Elektra”, uma das tragédias mais conhecidas da Grécia Antiga e que tratava sobre justiça, ódio e luto, feita quando saiu o AI-5, em 13 de dezembro de 1968.

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‘Elektra’, de Sófocles, foi escrita aproximadamente a 413 a.C (Foto: Reprodução/Grupo Divulgação)

No mesmo ano em que o governo do General Médici aumentava sua censura, o Grupo Divulgação rodava o país com o espetáculo “A morta” e recebeu prêmios como a 1ª Colocação Nacional: Troféu Sesquicentenário da Independência no Primeiro Encontro Nacional do Teatro Jovem.

O grupo seguiu se apresentando, mas sem esquecer suas origens na UFJF: criou projetos como a “Escola Vai ao Teatro” e “O Povo Vai ao Teatro”, destacando-se pelo compromisso com a educação e o lado social.

Para o Grupo Divulgação, o teatro é a memória viva da sociedade. Por isso, investigar as experiências sociais e humanas segue como motivação.

‘Uma família imensa’

Adélia Bassani da Silva faz parte do Grupo Divulgação há 26 anos, como integrante do Workshop para a Terceira Idade. Ela, que já participou de diversas encenações, conta que cada peça é um aprendizado diferente. “Participar do GD também me abriu várias portas. E o mais importante, um grande aprendizado de vida.”

O grupo, para ela, é como um a família: “Uma família imensa espalhada por esse mundo. É uma família que se ama muito, tem conflitos mas que estamos juntos sempre para o que der e vier”.

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Workshop da Terceira Idade em 2013 (Foto: Arquivo Pessoal/Adelia Silva)

José Paulo da Silva, metalúrgico aposentado e marido de Adelia, também faz parte do GD. “Fazer teatro foi um desafio muito grande, mas enfrentar o público me trouxe muita experiência.”  Inicialmente, ele entrou no Grupo Divulgação para acompanhar a esposa, mas acabou tomando gosto pela atividade e ficou.

José percebe também a influência do GD em Juiz de Fora. “Quando entrei no Grupo eu não conhecia nada de teatro. Depois, percebi que tinha vários grupos de teatro em Juiz de Fora, e percebo que vem aumentando. Até porque, pessoas que passaram pelo GD vem formando muitos grupos e fazendo grande sucesso.”

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Adelia e José atuando juntos no Grupo Divulgação (Foto: Arquivo pessoal/Adelia Bassani da Silva)

Uma fábrica de sonhos

A estudante Melissa de Oliveira também encontrou, no Grupo Divulgação, um espaço que vai além do aprendizado técnico. Ela conta que além de aprender muito sobre a atuação em si, aprendeu a compartilhar isso com outras pessoas.

Melissa conheceu o grupo através de sua mãe e foi com ele que fez sua primeira apresentação de teatro na vida. “É um curso muito completo, a experiência é totalmente orgânica, além de você ser ensinado pelos melhores. O GD é a melhor escolha para se viver o teatro, meus professores me ensinaram a amar essa arte em mim.”

Tiago Vitor, gerente bancário, também teve sua primeira experiência com o teatro por conta do Grupo Divulgação. Foi em 1991, aos sete anos, com a peça infantil “O rouxinol do pescador”, que ele teve uma certeza instintiva do que queria fazer: o teatro.

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‘O rouxinol do pescador’ trata do embate entre a natureza e a tecnologia (Foto: Reprodução/Grupo Divulgação)

Aos 14 anos, Tiago integrava o grupo de adolescentes do Grupo Divulgação, mas a vontade de contribuir só crescia e, por isso, pediu para José Luís Ribeiro e Márcia Falabella, atriz e coordenadora dos projetos de extensão do GD, que permitissem a sua participação em projetos além dos executados pelo grupo de adolescentes. Aceitaram.

Desde então, ele passou a integrar a equipe de apoio das produções do GD, aprendendo de tudo, desde costurar até a parte elétrica das montagens. “É esse tipo de teatro que gosto de fazer e respeito, o Grupo se torna uma verdadeira fábrica, produzindo o espetáculo do início ao fim.”

Mesmo já tendo saído do Grupo Divulgação por não conseguir conciliar com outras áreas da sua vida, Tiago explica que as experiências vividas no GD o acompanham aonde quer que passe: elas estão nos seus hobbies, nas ideias e até mesmo no curso de design de interiores que mais tarde iria fazer, motivado pelo desejo de criar.

“Eu nunca consegui me desvincular das artes”, explica. A última peça que Tiago apresentou com o Grupo Divulgação foi “Juizado de pequenas perdas”, em 2010. Porém, ele confessa que sempre pensa em voltar para o grupo.

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Peça de 2010 foi a última que Tiago participou (Foto: Arquivo pessoal/Tiago Vitor)

Paixão pelo teatro

Nascido em um contexto que lutava pela liberdade de expressão e democracia, o Grupo Divulgação carrega consigo um pedaço da história de Juiz de Fora e do país. Agora, o grupo encontra um novo público e novas temáticas a serem tratadas em suas montagens.

José Luiz conta que há uma mudança no que é importante ser retratado no teatro. Com o advento do marketing, o que entra é o que está em alta. “Estamos na era dos musicais e dos monólogos”, finaliza.

*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy