O homem, seus pincéis e suas Gerais

“Paisagem com montanhas vermelhas”
Romântica, a ideia do pintor em seu ateliê, rodeado por tubos de tinta de diferentes cores e paletas sujas, diante de uma tela em execução, corresponde perfeitamente à imagem que Dnar Rocha ganhou na posteridade. O artista sempre fez questão de expor que a arte lhe bastava, sem excessos de vaidade e sem vislumbres audaciosos. Pintar era vida. O horizonte que enxergava nunca se tornou, então, exageradamente vasto, mas, mais do que isso, um estilo. Essas paisagens, muitas vistas em seu caminhar pela Juiz de Fora que escolheu morar, lhe conferiram uma marca, agora vista em cronologia na exposição “A paisagem poética de Dnar Rocha”, que o Espaço Cultural Correios inaugura nesta quinta (18), às 20h.
Da inicial “Noite de chuva em Juiz de Fora”, de 1957, pertencente ao Museu Mariano Procópio, a uma das últimas criações, “Paisagem com linha férrea”, de 2006, de propriedade de Christiane Maria Meurer Alves, a mostra forma a paisagem produtiva de um pintor cujas muitas fases sempre contemplaram vistas diferentes, do campo à área urbana. Hoje, passados oito anos desde sua morte, sua obra faz parte do panorama local, já que muitas delas ainda permanecem em casas e instituições públicas. As 27 obras expostas foram emprestadas para o projeto por colecionadores locais, como Luiz Carlos Araújo, César Xavier Bastos, Aída Célia Andrade (viúva de Dnar) e José Alberto Pinho Neves. também vieram de acervos governamentais, como é o caso dos quadro cedidos pela Funalfa e pelo Museu de Arte Murilo Mendes.
“Nosso desejo é criar, para os que o conheceram e para quem não teve essa oportunidade, uma noção completa do artista e de sua produção. A princípio apresentaríamos apenas telas de natureza, mas a paisagem urbana oferece quadros quase obrigatórios na trajetória de Dnar”, explica a idealizadora do projeto e produtora da mostra Eliza Granadeiro. Segundo ela, a seleção permite um olhar didático em relação à evolução do artista, além de provocar uma visualidade atraente, haja visto a paleta quente do autor da tela “Paisagem com montanhas vermelhas”. “Dnar usufruiu de importantes lições dos mestres Sylvio Aragão e Heitor de Alencar e instituiu-se um urdidor formal e alquimista cromático que cristalizou o tempo em imagens ungidas de silenciosa poesia, evidenciando, cioso, seu compromisso perseverante com a pintura da qual é operário”, comenta, em texto da mostra, o curador da exposição José Alberto Pinho Neves, autor do livro “Dnar, o silêncio das imagens”, de 2007.
Ocupação preferida? Observar a natureza
No “Questionário de Proust”, realizado por José Alberto Pinho Neves com Dnar Rocha em abril de 2005, o pintor foi perguntado: “A sua ocupação preferida?”. E respondeu: “Observar a natureza”. À primeira tarefa, então, estava sempre disposto e atento, olhando tudo a sua volta, das montanhas aos casarões. “Pinta com exasperado fervor, repetindo múltiplas vezes o motivo sempre singularizado na resultância de esmiuçado re-ler confidenciador. Percebe-se na sua pintura uma realidade reconhecível que origina outra realidade identificadora de figuração que, algumas vezes, beira à abstração”, define o curador.
“Em alguns quadros, é possível ver o tom da pincelada. Sentimos a vibração do artista. Isso sempre me impressionou”, conta Eliza Granadeiro, que, natural de Miguel Pereira (RJ), se entusiasmou imediatamente pela pintura de um lugar pelo qual também se encantou. “Sou apaixonado pela fatura dele, pela carga de tinta, além das temáticas das Minas e da Zona da Mata, pela qual também me maravilho”, pontua Paulo Alvarez, responsável pela expografia da exposição. “Enfim um pintor com amplo domínio do seu metier que, sem se preocupar com as vogas atuais, pinta a realidade mineira que o cerca com grande estilo”, assinalou, em 1987, o crítico Geraldo Edson de Andrade, na revista “O Cruzeiro”, após assistir a primeira individual de Dnar em solo carioca, na Cláudio Gil Studio de Arte.
Artista devotado, Dnar pintou a cidade, seus arredores e se inscreveu na história da arte juiz-forana sem nunca se deslumbrar. De aluno da Sociedade de Belas-Artes Antônio Parreiras a professor no Senac, manteve-se trabalhando em diferentes frentes. Inclusive, aposentou-se em uma loja de ferragens. Tabuleirense por nascimento e juiz-forano por paixão reconhecida em medalhas e comendas, pintava romanticamente por exercício de vida. “Considerava a pintura coisa muito pesada, mas não tinha como evitá-la”, aponta José Alberto Pinho Neves. “A pintura existe em mim, não eu na pintura, por isso sempre volta e tem seu momento”, contou Dnar em entrevista para “Dnar, o silêncio das imagens”.








