As marcas invisíveis da violência contra as pessoas idosas

No Dia Mundial de Conscientização sobre a Violência contra as Pessoas Idosas, somos convidados a enxergar aquilo que frequentemente permanece oculto no nosso cotidiano: as marcas invisíveis da violência contra as pessoas idosas

Por Jose Anisio Pitico

Há violências que deixam marcas. Aquelas que a gente logo vê e provocam perguntas. Outras, enterram silêncios. E passam despercebidas por nós. Não constam nos boletins de ocorrências, quando são notificadas. Não são comunicadas nos noticiários televisivos. Nem por isso, deixam de ser menos cruéis.

No dia 15 de junho – Dia Mundial de Conscientização sobre a Violência contra as Pessoas Idosas, somos convidado/as a enxergar aquilo que frequentemente permanece oculto no nosso cotidiano: as marcas invisíveis da violência contra as pessoas idosas. Se são invisíveis, onde estão essas marcas? Quem as enxerga? Estão bem perto de nós. Estão em nós. Estão nas palavras ditas dentro de casa que humilham; nas decisões tomadas sem consentimentos; nas autonomias negadas.

Essas marcas invisíveis da violência contra as pessoas idosas estão nas aposentadorias controladas por quem a gente acha que nos amam de verdade, estão nas mãos de nossos familiares. Estão também nas visitas prometidas que nunca chegam. Nos celulares que nunca tocam para nós. Nas mesas das famílias onde ninguém escuta o que a pessoa idosa tem a dizer. As marcas invisíveis da violência contra as pessoas idosas não estão somente no meio familiar. Elas estão também nas cidades. Com suas calçadas esburacadas. O transporte coletivo, ônibus, com degraus altos para o embarque e desembarque. Na exclusão digital que transforma necessidades simples em obstáculos quase intransponíveis.

A violência maior está mesmo no nosso sistema econômico de relações sociais; que valoriza as pessoas pelo que elas produzem e não pelo que elas são. Nesse cenário real de convivência, envelhecer é perder importância humana. Essa é a nossa maior violência. Ser desaparecido. Tornar-se invisível enquanto estamos em pleno vigor de vida. Muito vivos. Que absurdo!

A violência contra as pessoas idosas, portanto, está dentro da casa da gente, na cidade da gente. Mas, também, está presente na falta de políticas públicas. Na fragilidade das redes de proteção social. Na negligência institucional. Na tolerância social que temos diante do preconceito etário. Até quando vamos permitir essa realidade existente de inúmeras violências contra todos nós que envelhecemos? Até quando?

É urgente enfrentarmos a violência contra as pessoas idosas, contra nós mesmos. Para tanto, é imprescindível investimento político na causa do envelhecimento. Em nossa própria causa. Neste 15 de junho, vale recordar que nenhuma pessoa envelhece apenas com a contagem dos anos.

Envelhece também com o respeito que recebe, com os vínculos que mantem e com o lugar que a sociedade lhe reserva. Uma cidade que não reconhece a dor de suas pessoas idosas está perdendo a capacidade de reconhecer a sua própria humanidade. A pior violência contra a pessoa idosa começa quando a sociedade deixa de vê-la. E naturaliza. Normaliza.

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar e mantém o canal Longevidades no Youtube (@Longevidades). Contato: (32) 98828-6941

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