‘Beber histórias como se fossem café’, livro de Laís Nunes, valoriza oralidade mineira e memórias entre gerações
Obra contém 15 minicontos e foi indicada aos prêmios Jabuti, Oceanos e LOBA

Laís Nunes sempre teve a literatura como uma forte presença em sua vida. Entretanto, suas maiores inspirações não são os famosos escritores e cânones literários: são as professoras, as benzedeiras, suas vizinhas, pessoas do presente e do passado, que fazem literatura todo dia, mesmo sem saber.
“Beber histórias como se fossem café” reúne 15 contos que, segundo a autora, são uma “ficção de prosas reais”: todas as histórias se passam em cidades inventadas, mas que poderiam facilmente ser qualquer cidade do interior de Minas Gerais.
Natural de Bicas, município localizado nas proximidades de Juiz de Fora, Laís explica que o objetivo do livro foi justamente honrar suas raízes. “Eu queria tirar a literatura desse pedestal elitista e levar pra mesa de café dos meus avós. São contos simples e fáceis de ler, sem muito desenvolvimento ou “plot twists”.”
Folclore próprio
A autora buscou representar, por meio de minicontos, histórias, lendas e causos que cresceu ouvindo, principalmente de seus avós, como “A lenda da quaresma”, “Casa de roça, forno de barro”, “Segredos de tacho” e outros.

Ao escrever, Laís mistura fantasia e realidade com um certo encantamento que vem desde a infância. “Beber histórias como se fossem café” carrega o lirismo da oralidade e contação de histórias características do folclore mineiro, sendo capaz de transportar o leitor para um sítio afastado e uma casa chão de barro.
Linguista de formação e hoje estudante de veterinária, Laís Nunes destaca a importância de honrar a cultura popular baseada na oralidade, criando seu próprio realismo mágico.
Como diz um dos contos, ‘aqui mora o tempo’

“Beber histórias como se fossem café” é o livro de estreia da autora, que já havia colaborado em outros trabalhos coletivos e textos. Com a vontade de eternizar aquelas histórias ouvida desde a infância, Laís começou a escrever alguns dos contos que, mais tarde, originaram o livro, e foi atrás de editoras quando percebeu que havia algo de interessante em seu material.
A primeira editora que recebeu sua proposta foi, justamente, a responsável por publicar a obra. Talvez por força do destino ou uma coincidência – ambos tão presentes em sua literatura -, a editora Urutau abraçou o projeto.
O processo aconteceu por meio de uma chamada pública aberta pela editora no ano de 2025 para Minas Gerais. Laís conta que escolheu a editora porque já a consumia antes e adora a linha editorial. Por isso, publicar na Urutau foi uma surpresa bem-vinda.
“Ser publicada é uma novidade, mas não é isso que legitima a escrita”, explica a autora, que valoriza a nova fase na literatura, mas não se vislumbra. Ela defende que todos fazem literatura no dia a dia e isso, por si só, pode ser um pouco mágico.
Além disso, Laís explica que recebeu as indicações aos prêmios Oceano, Jabuti e LOBA nas categorias de contos com muito orgulho e muita certeza. “Ainda estou tentando digerir”, brinca. Todo o processo foi facilitado pela editora, que pré-selecionou a obra para a submissão dos prêmios.
Para ela, a conquista já está presente apenas pelo fato de ter sido indicada nesses espaços. “Participar já é tão legal! Ter esse espaço para a literatura regional, baseada na oralidade, é muito importante. E se as bancas considerarem que é algo digno de prêmio, magnífico. Se não, já ganhei.”
Ao escrever “Beber histórias como se fossem café”, Laís também escreve uma carta de amor para a família, que é de ferroviários. O tema é explorado no conto “Trem de saudade”, que narra a última passagem do trem por Passa Trilho enquanto explora a relação dos mineiros com as ferrovias.
A literatura segue com lugar cativo na vida de Laís, mas, se antes era seu ganha pão, hoje segue como um hobby, que ela pretende continuar por muito tempo. Atualmente ela concilia essa paixão com o campo da veterinária, já atuando no mercado de trabalho.
E, na tentativa de levar a literatura para outros lugares e construir um diálogo intergeracional, Laís constrói um tributo às raízes coletivas de milhares de famílias mineiras, encontrando, como acontece em seu primeiro conto “Casa de roça, forno de barro”, o conforto nas tradições.
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecília Itaborahy









